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A ciência está mais rápida, mas menos rigorosa? O impacto da IA na pesquisa

Especialistas analisam como a inteligência artificial transforma a produção científica e levanta novos dilemas e incertezas

Glauco Arbix e Luiz Vicente Rizzo participam de debate sobre ciência e inteligência artificial em estúdio. Durante a conversa, especialistas discutem os desafios da pesquisa em um cenário de incertezas e transformação tecnológica. Em debate promovido pelo Science Arena, Glauco Arbix (esq.) e Luiz Vicente Rizzo (dir.) discutem como a incorporação da IA à pesquisa científica amplia capacidades, mas introduz novas camadas de incerteza no trabalho de pesquisadores | Imagem: Reprodução

A produção de conhecimento científico em um cenário marcado por incertezas, aceleração tecnológica e pressões crescentes foi o tema central do encontro virtual promovido no dia 25 de março pelo Science Arena.

O encontro reuniu o sociólogo Glauco Arbix, coordenador científico da Cátedra IA Responsável da Universidade de São Paulo (USP) e o imunologista Luiz Vicente Rizzo, diretor de Pesquisa do Einstein Hospital Israelita.

Eles discutiram como pesquisadores podem lidar com transformações profundas que atravessam a ciência contemporânea, em especial aquelas motivadas pelo uso crescente de inteligência artificial (IA) na produção científica.

Confira a seguir a íntegra da live:

Ao longo da conversa, os Arbix e Rizzo destacaram que a incerteza sempre fez parte da prática científica, mas ganha hoje novas dimensões diante de fatores como o avanço da IA, a complexidade dos problemas globais e a crescente demanda por respostas rápidas.

Nesse contexto, argumentaram, a ciência é pressionada a equilibrar velocidade e rigor, ao mesmo tempo em que enfrenta desafios estruturais — como desigualdades no acesso a tecnologias, mudanças no ambiente educacional e tensões entre produção quantitativa e qualidade do conhecimento.

Também estiveram em pauta os impactos da IA sobre a prática científica, desde o aumento da capacidade de processamento de dados até riscos associados ao uso inadequado dessas ferramentas, como a reprodução de vieses e a padronização excessiva da pesquisa.

Para Arbix e Rizzo, o cenário atual exige não apenas domínio técnico, mas também uma reflexão crítica sobre o papel do pesquisador, a formulação de perguntas relevantes e o compromisso com os fundamentos do método científico.

“Incerteza assume escala inédita”

Na conversa, Arbix enfatiza que a incerteza é constitutiva da ciência, mas assume hoje uma escala inédita diante da combinação de transformações tecnológicas, sociais e geopolíticas.

Para ele, a IA deve ser entendida como uma tecnologia ambivalente: ao mesmo tempo em que amplia capacidades, carrega riscos pouco visíveis — como o reforço de vieses, a adaptação das respostas às expectativas do pesquisador e a possível homogeneização da produção científica.

Arbix chama atenção ainda para o aprofundamento de desigualdades no acesso à IA, para a defasagem das universidades frente à velocidade das mudanças e para o risco de uma ciência cada vez mais produtivista, em que o aumento no número de publicações não necessariamente se traduz em avanço real do conhecimento.

Nesse cenário, defende que competências como criatividade, intuição e pensamento crítico tornam-se ainda mais centrais na formação científica.

“IA potencializa tanto virtudes quanto distorções”

Já Rizzo destaca que a IA, como qualquer ferramenta poderosa, potencializa tanto virtudes quanto distorções da prática científica.

Ele alerta para o risco de uma “confirmação acelerada” de hipóteses, em que a rapidez no processamento de dados pode levar a conclusões pouco rigorosas, e reforça que o valor da ciência está menos na quantidade de resultados e mais na qualidade das perguntas formuladas.

Para Rizzo, o rigor científico depende sobretudo de uma postura interna do pesquisador — ética, crítica e comprometida com o método —, e não apenas de regulações externas.

Ele também relativiza a centralidade da IA no debate sobre desigualdade, argumentando que o problema é mais profundo e começa nas falhas estruturais da educação básica, e ressalta que a multidisciplinaridade sempre esteve no coração dos grandes avanços científicos, ainda que hoje ocorra em um ritmo muito mais acelerado.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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