
Eleonora Zioni: arquitetura a serviço da saúde
“Médica de ambientes”, pesquisadora une arquitetura e neurociência para melhorar a experiência de pacientes em hospitais e clínicas

“Não deixe o vestibular definir sua vida”. Essa foi a frase dita pelo pai e que norteou a trajetória profissional de Eleonora Zioni, arquiteta, pesquisadora e, como foi carinhosamente apelidada por seus alunos, “médica de ambientes”.
Formada em arquitetura e urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP), Zioni flertava com a área da saúde antes mesmo do primeiro dia de aula — quando ainda estava em dúvida entre medicina ou arquitetura.
Foi então que seu pai, engenheiro, ofereceu esse conselho — pensado para um momento específico, mas que ela hoje reconhece como um princípio mais amplo.
“Acho muito importante a gente saber o que verdadeiramente quer e não deixar as provas ou as dificuldades definirem o que iremos fazer, pois as possibilidades são muitas”, diz Zioni, que é professora da pós-graduação do Einstein Hospital Israelita.
Durante a graduação, disciplinas como urbanismo, design e história da arte despertaram sua curiosidade. Mas a saúde seguia como tema latente.
O primeiro passo no sentido de conciliar seus interesses foi dado com o trabalho de conclusão de curso (TCC): um projeto de hospital.
“Já comecei nessa área que é difícil, porque junta muita engenharia, e as pessoas nos anos 1990 tinham muito medo, não queriam se envolver com a coisa toda. Diziam que ninguém sabia projetar um hospital”, relembra.
Zioni se manteve nesse campo e, ao longo de 15 anos, atuou com projetos e coordenação em uma multinacional americana, a Albert Kahn Associates.
Já projetou mais de 232 mil metros quadrados (m²) em hospitais — incluindo unidades do Einstein Hospital Israelita. Na Kahn, aprendeu a adaptar métodos da indústria automobilística, como a organização de processos produtivos, ao contexto hospitalar.
Um dos ambientes terapêuticos projetados por Eleonora Zioni foi inaugurado em 2009 na unidade do Morumbi do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo. O espaço foi criado para promover o relaxamento de pacientes, visitantes e colaboradores. A grande escultura do físico alemão Albert Einstein (1879-1955) atrai e gera emoções nas pessoas. O labirinto traçado no chão é um convite para a meditação ao ar-livre, uma chance de “o cérebro tirar o foco dos problemas”, diz Zioni. Já o jardim oferece um espaço para contato com a natureza, tendo como pano de fundo o conceito de biofilia, ainda que seja um ambiente construído | Imagens: 1 e 2: Felipe Lampe; 3: Fábio H. Mendes/E6 Imagens
Qualidade dos ambientes hospitalares
Com a saída da empresa do Brasil, optou por não seguir carreira internacional e voltou à academia, mais especificamente à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.
Seu mestrado se debruçou sobre a qualidade dos ambientes hospitalares, com foco em UTIs, analisando como aspectos sensoriais — barulho, aroma, ergonomia, luz, conforto térmico, acústico e visual — influenciam a percepção do espaço.
Essa pesquisa estabeleceu conexões com a psicologia ambiental, área que estuda como as pessoas percebem e se sentem nos ambientes.
“A arquitetura hospitalar é cheia de normas, aprovações na vigilância sanitária, muitos dados, e é por isso que as pessoas têm receio de fazer. Só que quando você vai para essa área mais subjetiva, de como a pessoa se sente ali, há mais espaço para criar”, observa a pesquisadora.
“O hospital é um lugar para onde as pessoas têm receio de ir ou não gostam; quebrar essa imagem se tornou minha missão”, afirma Zioni.
Essa abordagem pode ser aplicada não somente a hospitais, mas também clínicas, consultórios e residenciais para idosos. Para ampliar sua autonomia e conciliar prática com pesquisa, fundou a Asclépio Consultoria — nome que remete ao ancestral do filósofo grego Hipócrates (460-370 Antes da Era Comum) e aos templos de cura da antiguidade, onde o bem-estar era buscado por meio do cuidado e do ambiente.
Hoje, Zioni é uma das referências nacionais em arquitetura hospitalar. Criou e coordenou um dos primeiros programas de pós-graduação nessa área no país, lançado em 2018 no Einstein, e que já formou mais de 700 alunos.
Também organizou o livro Conhecendo a arquitetura hospitalar (Manole Editora, 2022), uma das poucas publicações atualizadas sobre o tema em português, com colaboração de profissionais internacionais destacados.

Neuroarquitetura: um campo de fronteira
Atualmente, sua pesquisa no Einstein avança sobre a neuroarquitetura, campo que conecta neurociência e arquitetura para entender como os estímulos do ambiente afetam emoções e percepções.
“Quando a gente ouve uma história, isso te emociona, marca sua memória. Gosto muito dessa humanização”, comenta Zioni.
“Isso explica como fui da arquitetura para a neurociência: a arquitetura sempre foi para ouvir a necessidade das pessoas. Gosto de pensar sempre assim. Mas é um percurso fazer a academia entender tudo isso, eu já estou há 30 anos nessa área.”
Para Zioni, manter-se próxima da prática é essencial, especialmente em um campo em constante transformação como a arquitetura.
Em suas consultorias, analisa fluxos, conforto térmico, iluminação, ergonomia e outros fatores que impactam diretamente no bem-estar dos usuários.
O design biofílico, que propõe reaproximar a natureza do ambiente construído, tornou-se outro pilar do seu trabalho. “A sustentabilidade é essencial, porque a gente passa 90% do tempo da nossa vida no ambiente construído e precisamos nos sentir acolhidos neles, trazer a natureza para perto.”
Para ela, a ciência pode contribuir ainda mais na busca por soluções para problemas da sociedade, se pesquisadores apostarem em diferenciais como criatividade, sensibilidade e empatia.
Na avaliação de Zioni, pensar “fora da caixinha” é cada vez mais o que nos diferencia em relação a tecnologias como a inteligência artificial. “Quanto mais a gente for criativo, sensível e humanizado, mais nos tornaremos únicos.”
A neuroarquitetura, ela ressalta, é um dos campos do conhecimento mais promissores para as próximas décadas, com potencial para responder a desafios da saúde mental. “Compreender as necessidades subjetivas dos indivíduos e traduzi-las em ambientes mais empáticos é um passo essencial para uma sociedade melhor.”
*
É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).