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Saúde mental: estratégias para lidar com o estresse na pós-graduação
Neurocientista explica como sobrecarga física e emocional afeta pesquisadores e propõe caminhos para redobrar cuidados com a saúde
Transtornos mentais afetam alunos de pós-graduação em níveis acima da média populacional, com pressões por produtividade e incertezas sobre financiamento, agravando o quadro, explicou a neurocientista Elisa Kozasa em encontro virtual do Science Arena| Imagem gerada por IA
Os problemas de saúde mental na população cresceram consideravelmente após a pandemia de covid-19, mas os índices de transtornos mentais no meio acadêmico – especialmente entre alunos de mestrado e doutorado – estão acima da média geral.
O alerta foi feito pela neurocientista Elisa Harume Kozasa, pesquisadora do Einstein Hospital Israelita, em encontro virtual organizado em dezembro pelo Science Arena.
A trajetória na pós-graduação e no pós-doutorado envolve pressões intensas, prazos rígidos, incertezas sobre financiamento e cobranças constantes por produtividade.
Pesquisadores em início de carreira frequentemente enfrentam ansiedade e exaustão, podendo até abandonar suas carreiras por falta de apoio.
Para Kozasa, que desenvolve pesquisas sobre meditação, atenção plena e neurociência contemplativa, superar essa crise exige estratégias tanto individuais quanto institucionais – envolvendo desde a proteção do sono e a prática de atividades físicas até mudanças estruturais na forma como orientadores e instituições lidam com a saúde mental de seus pós-graduandos e pós-docs.
Veja no vídeo a seguir a íntegra da conversa com Elisa Kozasa.
A seguir, veja os principais tópicos abordados pela pesquisadora:
1. O momento histórico e a urgência da crise
- Os problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão, cresceram cerca de 25% na população em geral após a pandemia.
- Os índices de transtornos mentais no meio acadêmico, especialmente entre alunos de mestrado e doutorado, estão acima da média da população.
- A trajetória na pós-graduação e no pós-doutorado envolve pressões intensas, prazos rígidos, incertezas sobre financiamento e cobranças constantes por produtividade.
- Jovens pesquisadores frequentemente enfrentam ansiedade e exaustão, podendo até abandonar suas carreiras por falta de apoio.
2. Desafios e pressões na carreira científica
- A falta de clareza sobre o que será feito no projeto de pesquisa pode gerar angústia e fazer com que o aluno não encontre propósito na atividade.
- É comum o pesquisador se sentir isolado, muitas vezes por se focar tanto na carreira acadêmica que deixa de sair com a família e amigos, ou por atuar em um ambiente competitivo e pouco amigável.
- O ambiente na pós-graduação pode ser hostil, levando à desilusão, tristeza, desistência e até mesmo ideação suicida.
- Estratégias não eficazes incluem o uso exacerbado de álcool, café ou energético para lidar com o estresse, pois o corpo acabará cobrando e a solução real é descansar (“Você nunca ganha da fisiologia”).

3. Estratégias individuais e o treino da mente
- É fundamental proteger o horário de sono usando o conceito de “agenda reversa”, que começa o planejamento das atividades pelo horário de dormir.
- É importante proteger horários de pausas e pequenos descansos durante o dia, como reservar tempo para o almoço ou usar intervalos de 10 a 15 minutos entre reuniões.
- Dormir melhor e fazer pausas adequadas melhora a produtividade e reduz os riscos de transtornos mentais.
- Deve-se focar em metas atingíveis para o dia (“por hoje é isso”), evitando levar excesso de tarefas e problemas para a cama.
- É crucial investir em autoconhecimento para saber o que traz felicidade, e esses momentos de alegria devem estar presentes no dia a dia.
- Em momentos de “travamento” por excesso de cobrança, a pessoa deve focar em aprender a relaxar o corpo e a mente. A atividade física é fundamental e deve ser vista como parte essencial do tratamento para transtornos mentais.
4. A importância do fator humano e da conexão
- Relacionamentos pessoais são um dos fatores mais protetivos para a saúde mental.
- É importante buscar conversar e compartilhar dificuldades com pessoas de confiança.
- É essencial estabelecer um diálogo construtivo com o orientador, deixando claro que a cobrança excessiva impede o bom funcionamento.
- O conceito de riqueza psicológica (além da busca por prazer e propósito) é um pilar do bem viver.
- Criar um bom ambiente só é possível quando a pessoa está bem, buscando “ser uma boa pessoa”.
5. O papel do orientador e a gestão de projetos
- O orientador tem a responsabilidade de dimensionar o projeto de pesquisa conforme o contexto de vida do aluno (se trabalha, se tem filhos).
- Orientadores devem esclarecer o objetivo do estudo e o que o aluno fará no laboratório.
- Para uma rotina mantida e cumprimento de prazos, o mais importante é ter objetivos bem claros e um compromisso sério desde o ponto zero do projeto.
- Muitas vezes, falta na academia a estrutura de gestão de tempo, prazo, custo e gestão de pessoas. É prudente que o aluno entre no programa de pós-graduação somente após o projeto estar aprovado no comitê de ética.

6. Responsabilidade e estrutura institucional
- As instituições são responsáveis pelo cuidado com a saúde mental de alunos e professores, especialmente em relação ao burnout (que é um fator que influencia a saúde mental e está no Código Internacional de Doenças).
- As instituições devem oferecer suporte como consultas online com psicólogos ou convênios para atendimento psicológico a preço social.
- É crucial que os programas de pós-graduação escolham orientadores não apenas por suas competências técnicas, mas também por suas competências emocionais e bom caráter.
- A existência de núcleos de apoio à pesquisa (para auxiliar na gestão de questões burocráticas e fomento) alivia a sobrecarga mental dos pesquisadores.
- A segurança psicológica é um fator que determina a produtividade de uma equipe, onde o erro é assumido pelo grupo todo sem acusações.
7. Reflexões sobre o sistema e o propósito
- O sistema de recompensas da ciência (como métricas e pressão por publicar) influencia a saúde mental.
- Dados sobre a crise de saúde mental na academia podem contribuir para a reflexão e mudança das políticas científicas, apesar de serem lentas.
- Cuidar da felicidade é fundamental, pois se a vida não tiver momentos de alegria, ela começa a ficar “sem sentido”.
- A depressão pode começar quando a pessoa olha para a sua vida e se pergunta: “Para que tudo isso?”.
- A reflexão final é buscar uma vida com mais qualidade e bem viver, para que no futuro o pesquisador não olhe para trás e se pergunte: “Para que tudo isso? Do que adiantou?”.
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