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Jardim: território de cuidado, saúde e bem-estar
Evidências históricas e científicas mostram como o contato com a natureza — de plantas medicinais a paisagens verdes — impacta a saúde física, mental e coletiva
Mais do que paisagem, jardins revelam cores, formas e movimentos que despertam sentidos e favorecem o equilíbrio e o bem-estar humano | Imagem: Lis Leão
No mistério do Sem-Fim, equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim, e, no jardim, um canteiro:
no canteiro, uma violeta, e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim, a asa de uma borboleta.
(Cecília Meireles)
Desde tempos remotos, jardins têm sido utilizados como ferramentas terapêuticas e ecológicas. Mais do que espaços ornamentais, são territórios onde a vida se organiza, onde o cuidado acontece e onde a saúde pode emergir.
A relação entre plantas e saúde antecede a própria ciência moderna. Evidências mostram que até os Neandertais, há cerca de 50 mil anos, utilizavam substâncias naturais com propriedades medicinais, como compostos semelhantes ao ácido salicílico e antibióticos naturais.
As plantas já existiam antes dos humanos. E muito antes da indústria farmacêutica, a natureza já oferecia recursos para aliviar a dor e tratar doenças. Ao longo da história, essa relação foi sendo cultivada — literalmente.
Dos primeiros jardins botânicos europeus, criados no século XVI para o estudo de plantas medicinais, até instituições contemporâneas, como os jardins botânicos, esses espaços se consolidaram como centros de pesquisa, conservação, educação e de bem-estar.
A Coleção de Plantas Medicinais do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, por exemplo, reúne cerca de 170 espécies e centenas de referências científicas.
Mais do que um acervo, é um laboratório vivo que preserva biodiversidade, valoriza saberes tradicionais e aproxima a população do conhecimento científico, além de disponibilizaram um rico banco de dados.
De forma semelhante, hortos universitários e jardins medicinais cumprem um papel essencial ao conectar ciência, cultura e saúde.
Mas mesmo jardins sem plantas medicinais podem ser terapêuticos.
Jardim como experiência
Desde o clássico estudo publicado na Science em 1984, que demonstrou que pacientes cirúrgicos com vista para áreas verdes apresentavam recuperação mais rápida e menor uso de analgésicos, acumulam-se evidências de que o contato com ambientes naturais contribui para a saúde.
Décadas depois, estudos mostram que jardins terapêuticos podem modular o humor e até a atividade cerebral em pessoas com depressão, reduzir o estresse em idosos, por meio de atividades em jardins, e melhorar a saúde mental de crianças e seus cuidadores em contextos urbanos.

Estar em um jardim é, antes de tudo, uma experiência. A ciência tem mostrado que a percepção da beleza ativa circuitos cerebrais associados à recompensa, envolvendo regiões como o córtex orbitofrontal.
Estar em um jardim é uma experiência sensorial, estética e emocional que mobiliza o sistema nervoso, favorece o bem-estar e nos reconecta com algo que, muitas vezes, esquecemos: somos parte da natureza.
Jardins terapêuticos são, portanto, menos sobre o espaço em si e mais sobre a experiência que possibilitam. Biodiversidade, harmonia e possibilidade de interação são elementos que potencializam seus efeitos.
Nesse sentido, os jardins medicinais e terapêuticos revelam-se como microcosmos. Lugares onde se aprende sobre interdependência, sobre ciclos, sobre cuidado.
Cultivar um jardim, seja em casa, em uma escola, em um hospital ou em uma instituição científica, é também cultivar valores: respeito à diversidade, reconhecimento dos saberes tradicionais e consciência ecológica.
É um gesto que nos conecta com a sabedoria ancestral dos povos originários, que sempre compreenderam a profunda relação entre a saúde humana e a saúde dos ecossistemas.
É também um ato de resistência contra o modelo de desenvolvimento que tem levado à degradação ambiental, à perda de biodiversidade e às mudanças climáticas que ameaçam a saúde pública global.
Cuidar para ser cuidado
E sob o ponto de vista de quem está hospitalizado, fragilizado em sua saúde, em diálogo, mais uma vez com Cecília Meireles, ela nos diria: Quem me compra um jardim com flores? Borboletas de muitas cores? Quem me compra esse raio de sol? – não seria essa também uma forma de cuidado?
Cuidar de um jardim é um gesto que ultrapassa o indivíduo e pode ser um exercício cotidiano de cuidado com o planeta.
O paisagista Gilles Clément propõe o conceito de “jardim planetário”, no qual a Terra é compreendida como um único jardim, sem fronteiras, onde todos os seres estão interligados.

Nesse cenário, somos convidados a assumir o papel de jardineiros. Abre-se uma real possibilidade de aprender a cuidar.
No jardim, o tempo se transforma. Ao plantar uma semente, inaugura-se um futuro. Não há espaço para nostalgia, apenas para o devir.
O jardim é, talvez, um dos poucos lugares onde ainda conseguimos imaginar esperança. Um território de cuidado, de saúde e de bem-estar.
Lis Leão é pesquisadora sênior do Hospital Israelita Albert Einstein e líder do Grupo de Pesquisa e-Natureza: estudos interdisciplinares sobre conexão com a natureza, saúde e bem-estar (CNPq).
Os artigos opinativos não refletem necessariamente a visão do Science Arena e do Einstein.
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