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As deeptechs e o desenvolvimento do Brasil
Pesquisas desenvolvidas em universidades mostram como ciência de ponta, arcabouço legal adequado e apoio institucional podem transformar geração de conhecimento em impacto econômico e social
Transformar ciência em soluções concretas exige mais do que descobertas relevantes: requer apoio contínuo, ambientes favoráveis à inovação e políticas que estimulem a aplicação do conhecimento gerado nas universidades | Imagem gerada por IA
Na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde atuo como professor titular do Departamento de Química Fundamental, nosso grupo de pesquisa desenvolveu formulações para tratar a cárie sem a utilização da broca, sem anestesia e sem dor.
Trata-se de uma abordagem minimamente invasiva, baseada em princípios químicos que interrompem o avanço da lesão sem a necessidade de procedimentos mecânicos tradicionais.
Já aplicamos em mais de três mil crianças, que colaboram com o tratamento e ficam felizes por não terem que enfrentar a broca. A consulta é mais rápida e, não menos importante, conforta os corações das mães.
Reconfortante também é saber que, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um grupo de pesquisa coordenado pelos pesquisadores Wagner Fávaro e Nelson Durán desenvolveu uma tecnologia para o tratamento do câncer de bexiga que apresenta resultados clínicos promissores em termos de eficácia e segurança.
Trata-se da primeira imunoterapia desenvolvida no Brasil para o tratamento de câncer, que vem sendo testada no Hospital Municipal de Paulínia (SP) e já salvou muitas vidas.
Esses são apenas dois exemplos de como a ciência brasileira pode melhorar a qualidade vida da nossa população.
Porém, para que essas tecnologias possam chegar à sociedade, enfrentamos o desafio de empreender, uma vez que transformar ciência em negócio é não nada simples. E eu mesmo custei a entender que essa missão é própria do cientista, na ampla maioria dos casos.
Desde que me envolvi na atividade empresarial, venho estudando empreendedorismo com o objetivo de aplicar, na prática, o conhecimento gerado em pesquisa científica.
No nosso caso, temos uma solução pronta para um problema concreto e amplamente conhecido: a dor de dente. O método de aplicação possibilita ao dentista oferecer um tratamento atraumático, isto é, sem dor; o paciente colabora e a consulta se torna mais rápida e eficiente.
Regulação e indução
Os desafios de transformar ciência em tecnologia são muitos, mas o Brasil dispõe hoje de um arcabouço legal consistente para promover a inovação, composto por leis, políticas públicas e mecanismos de financiamento.
A Lei nº 13.243/2016 simplificou normas para fomentar a pesquisa, o desenvolvimento e a inovação (PD&I). Ao regulamentar o Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação, ela consolidou uma política de Estado voltada à promoção da inovação, iniciada com a criação do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT).
Um artigo científico publicado há dez anos pode ser considerado antigo, mas uma lei promulgada há uma década pode ser nova se levarmos em conta todo o seu potencial de transformação prática quando plenamente implementada.
Nos últimos anos, as agências de fomento passaram a atuar como indutoras da inovação.
Elas têm apoiado a manutenção e a expansão dos parques instrumentais das universidades — conjuntos de equipamentos e laboratórios de pesquisa de alto custo —, assim como disponibilizado recursos para alavancar empresas, viabilizado a criação e o crescimento de startups e constituído fundos de investimento, entre outras iniciativas.
O Brasil tem atualmente quase mil deeptechs, ou seja, empresas que desenvolvem inovações disruptivas com base em avanços científicos e de engenharia para resolver problemas complexos por meio de alta tecnologia.
Apoiadas em patentes, a maior parte das deeptechs desenvolve soluções para problemas globais, com grande potencial de transformação.
Ao mesmo tempo, enfrentam um ambiente de intensa competição, marcado pela presença de empresas e centros de pesquisa de diversos países.
Felizmente, é possível criar arranjos institucionais e alianças estratégicas — como parcerias entre universidades, empresas e centros de pesquisa — que permitem acelerar o desenvolvimento e a aplicação dessas tecnologias.

Apoio no longo prazo
Uma empresa-filha de uma universidade, ou seja, uma startup criada a partir de pesquisas acadêmicas, pode licenciar a patente que deu origem ao negócio para exploração comercial.
Além disso, o uso de infraestrutura de pesquisa e de laboratórios universitários pode ser concedido a essas empresas, ampliando suas condições de desenvolvimento.
Nossa empresa, a AG3, por exemplo, participa de um programa de aceleração promovido pelo Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), o que nos permite realizar experimentos nas linhas de luz do acelerador de partículas Sirius, uma das mais avançadas fontes de luz síncrotron do mundo.
Programas de aceleração são essenciais para quem se propõe a transformar conhecimento científico avançado em soluções práticas com potencial de mercado.
Decidi empreender ao perceber que, apesar da divulgação de nosso trabalho na mídia nacional, não surgiram propostas para materializar a tecnologia no Brasil. Em contrapartida, fomos procurados por empresas do exterior interessadas em seu desenvolvimento.
Estamos criando o Polo de Inovação em Tecnologia da Saúde (PITS), coordenado pela Unicamp e articulado com as prefeituras de Paulínia e Pedreira (SP) e Itajá (RN), empresas e a sociedade civil, com o objetivo de agilizar a forma como as pesquisas científicas chegam à população por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).
Ações como essa refletem o momento atual da ciência feita no Brasil. Somos cada vez mais pesquisadores assumindo o desafio de contribuir para o desenvolvimento do País por meio de ciência de primeira linha, pensada, planejada e executada na forma de negócios consistentes e orientados por uma visão de longo prazo.
Transformar ciência em soluções concretas exige mais do que descobertas relevantes: requer apoio contínuo, ambientes favoráveis à inovação e políticas que estimulem a aplicação do conhecimento gerado nas universidades.
Há mais de 500 milhões de crianças no mundo com dentes cariados não tratados — e com o suporte adequado, desenvolvemos no Nordeste brasileiro uma solução para um problema global. O desafio agora é garantir o apoio necessário para que esse conhecimento ultrapasse os limites do laboratório e alcance, de fato, a sociedade.
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André Galembeck é químico e professor titular do Departamento de Química Fundamental da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). É coautor de mais de 100 trabalhos publicados em periódicos internacionais e 12 patentes depositadas no INPI. Suas pesquisas em Química de Materiais envolvem nanoestruturas, polímeros e materiais híbridos para aplicações na área da saúde e dispositivos eletroquímicos. É sócio das deeptechs AG3 Desenvolvimento Industrial, com foco em produtos odontológicos, e da Galembetech Consultores & Tecnologia, especializada na fabricação de recobrimentos à base de nanografites.
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