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Experiências específicas podem ser parâmetro para diferentes profissionais de pesquisa?
A partir de estudos sobre IA, pesquisadora destaca a necessidade de assimilação de variadas dimensões da vida digital e sua influência nas carreiras científicas
No ambiente de pesquisa, mesmo com a presença da inteligência artificial, a importância do conhecimento humano e das interações humanas segue sendo fundamental | Imagem: Dylan Gillis/Unsplash
Sempre trabalhei com comunicação digital. Sou jornalista e, no decorrer da minha carreira, me envolvi em projetos na área da educação que me conduziram ao mestrado e doutorado nesse campo de estudo.
No mestrado, comecei a pesquisar sobre cognição e tecnologias digitais. No doutorado, trabalhei as interseções entre aprendizagem humana e aprendizado de máquina (machine learning, uma vertente da inteligência artificial – IA).
O fato de que o ambiente importa para a aprendizagem é uma premissa de minha pesquisa, bem como as relações intersubjetivas e as emoções. Além disso, é um pressuposto da pesquisa que o corpo está na base da atividade cognitiva.
É interessante perceber que pesquisar a cognição a partir do enativismo (ou cognição enativa, que é a criação de significados a partir da experiência vivida) me trouxe não apenas conhecimento específico em uma área de domínio, mas um novo modo de pensar a inteligência artificial e, principalmente, o humano – em um momento em que os algoritmos recebem tanta atenção.
Se você se abre de verdade para as descobertas que podem estar envolvidas no processo de fazer pesquisa, algo muito além de uma formação acadêmica pode acontecer.
Percebo que, ao me tornar pesquisadora, mudei minha forma de ver o mundo, agir e tomar decisões.
A partir da minha pesquisa, que se transformou em atitudes implicadas na maneira como conduzo minha vida pessoal e profissional, tenho me esforçado para construir algo que seja verdadeiramente útil para as pessoas.
Para isso, desde que terminei o doutorado me empenhei em uma estratégia de difusão científica e de comunicação da IA em múltiplas linguagens.
Inteligência Artificial e educação
Procuro comunicar a IA em suas várias dimensões, de uma forma que seja compreensível, capaz de chegar a profissionais de diferentes áreas, especialmente educadores.
Preocupo-me, em particular, com a IA na educação e com a educação para a IA.
Além de me dedicar a comunicar a IA, também considero importante – se quiser apoiar outros pesquisadores em formação – compartilhar desafios pertinentes a ser pesquisador, hoje, no Brasil. Afinal, a carreira científica não é mais “garantida” como um dia parecia ser.
Houve um tempo em que fazer um doutorado poderia quase garantir uma vaga para ingressar em alguma universidade como professor titular. Contudo, atualmente, a trajetória entre o doutorado e essa estabilidade com que tantos sonham é mais árdua e longa.
O cenário é complexo, as perguntas estão mais variadas e as respostas, menos óbvias. O que é ter uma carreira sólida? O que significa ter estabilidade, de fato? É possível obter liberdade para pesquisar o que quiser e como quiser?
A única certeza, penso, é a de que os caminhos profissionais variam de acordo com o que se pretende trilhar, e os espaços que, nessa trajetória, cada um almeja ocupar.
No enativismo, uma imagem forte é a de que o caminho se constrói na medida em que se caminha. Ele não está pronto, esperando para ser trilhado, mas depende de cada atitude e decisão que vai sendo tomada no decorrer.
O que é “certo” para um pesquisador, para um estudante ou profissional pode ser muito diferente do que parece “certo” para outros.
Quando se trabalha com pesquisa, é preciso ter uma certa disposição para encarar esse fato, de que o caminho não está pronto; isso demanda empenho, dedicação e criatividade para buscar soluções para os inúmeros desafios que se apresentam.

Momento de transição
Estamos claramente numa transição. Modelos se saturaram. Temos diversos problemas complexos que nos afetam como sociedade e que, consequentemente, afetam também a pesquisa.
Se você é um pesquisador ou quer ser um profissional atuante na área, faz parte da sua vida profissional ajudar a criar novas “regras”, que auxiliem a direcionar não apenas a pesquisa, mas as carreiras de pesquisa, e isso envolve muita disposição e persistência.
Significa não apenas compreender e aceitar o ambiente difícil que temos na pesquisa e na academia, mas contribuir para transformá-lo.
Muita gente que habita o cenário da pesquisa ainda tem uma cabeça “old school”, que trabalha na frequência do “garantido” e não entende muito bem o que um pesquisador em começo de carreira precisa fazer hoje para permanecer na pesquisa.
É muito bom, por outro lado, quando percebemos pesquisadores consagrados em suas áreas se empenhando em contribuir para abrir possibilidades para as novas gerações.
Quem está começando na pesquisa, ainda que já traga experiência de outras áreas em que trabalhou, se vê imerso em descobrir caminhos alternativos, os quais envolvem trabalhar em diversas frentes ao mesmo tempo para sobreviver, por exemplo.
Essa é uma realidade do pesquisador que pode levá-lo a ser interpretado como alguém sem foco, ou com focos demais, mas muitas vezes não se trata disso, e sim de uma questão de sobrevivência.
Os novos cientistas estão imersos num cenário de incerteza, marcado pela precariedade do trabalho de pesquisa, pela dificuldade de obter uma remuneração adequada e de conseguir condições de trabalho que garantam mais tranquilidade (cenário que não é exclusivo da academia, mas atinge muitos outros trabalhadores em muitos e diversificados setores também).
Parâmetro coletivo
Não se trata de uma responsabilidade ou de um fardo individual, e sim de uma questão coletiva, a ser enfrentada por todos, incluindo quem já está nessa trajetória há mais tempo. Pesquisar é lutar o tempo todo.
Nesse percurso, considero importante nos unirmos a pessoas que possam nos apoiar, que estejam dispostas a compartilhar seu conhecimento, trocando verdadeiramente com a gente, nos ouvindo e respeitando.
Esse apoio é fundamental, e saber pedir ajuda também, assim como é indispensável ser resiliente e não se comparar com ninguém.
No máximo, compare-se a versões anteriores de si mesmo, mas nunca a outras pessoas.
Se lidar com tais desafios estiver difícil, pare e lembre-se do que você tem avançado, do que já conseguiu fazer. Cada um tem uma trajetória, uma história. Valorize a sua e use essa capacidade a seu favor.
O complexo digital em que vivemos na contemporaneidade e que eu chamo de “algoritmosfera” – título do livro que publiquei em 2024 – incentiva as comparações com a vida de outras pessoas, mas, lembre-se: elas são prejudicais e paralisantes.
Numa era em que falamos tanto dos poderes de inteligência artificial, é preciso gostar muito do trabalho de pesquisa, e acreditar na importância do conhecimento humano e das interações humanas.
O principal desafio a ser vencido, acredito, ainda é ter vontade real de pesquisar, conhecer, ir atrás do conhecimento mesmo, ler, se aprofundar, estar disposto a transformar sua forma de pensar e de ver o mundo.
Camila De Paoli Leporace é jornalista, mestre e doutora em educação e pesquisadora em inteligência artificial (IA) sob a perspectiva da cognição humana. Desenvolve pós-doutorado no Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) com foco em educação e difusão científica. É research fellow do Transformative Learning Technologies Lab (TLTL), da Universidade Columbia, no Brasil, pesquisando as competências docentes em interseção com a IA, e autora do livro Algoritmosfera – A cognição humana e a inteligência artificial (PUC-Rio e Hucitec, 2024).
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