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Pesquisa Clínica por dentro: ciência, carreira e impacto na saúde
Campo híbrido da saúde, a pesquisa clínica apresenta desafios para os quais ética, regulação e protocolos são fundamentais para transformar ciência em evidência e segurança para pacientes
Na pesquisa clínica, a atuação das equipes nas diferentes etapas do processo envolve organização, rigor com qualidade e trabalho multiprofissional | Imagem gerada por IA
Desde cedo eu sabia que queria trabalhar na área da saúde. Cresci em meio ao ambiente hospitalar, com minha família inteira atuando nesse setor. Ainda assim, quando entrei na faculdade, não fazia ideia de que existia um campo chamado Pesquisa Clínica.
Depois de me formar em fisioterapia, segui o caminho mais esperado: iniciei minha trajetória no consultório, dedicada ao atendimento clínico tradicional. Mas, em 2006, um encontro mudou completamente minha perspectiva profissional.
Meu chefe na época, o professor Álvaro Pacheco da Silva Filho, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), apresentou-me ao universo da pesquisa clínica por meio do estudo FAVORIT, conduzido pelo do National Institutes of Health (NIH), que investigava o uso de ácido fólico para redução de desfechos vasculares em pacientes transplantados renais.
A sensação foi a de descobrir um território novo dentro da própria medicina. Percebi que existia um espaço em que ciência e cuidado caminham juntos e no qual cada detalhe — de um registro clínico à condução de uma visita — tem impacto direto na geração de conhecimento.
Desde então, gosto de dizer que “a pesquisa clínica me escolheu”.
Encantada com esse universo, decidi deixar o consultório e buscar uma formação específica na área. Iniciei um curso de Pesquisa Clínica em junho de 2006 e, ao concluí-lo, em dezembro do mesmo ano, a certeza já estava consolidada: não era apenas uma nova área de atuação, mas uma nova forma de contribuir para a saúde e para a sociedade.
Segurança e integridade dos dados
A pesquisa clínica está entre as carreiras mais dinâmicas e desafiadoras da área da saúde. Ela reúne rigor científico, responsabilidade ética e impacto direto na vida das pessoas.
Atuar nesse campo — seja em centros acadêmicos, seja na indústria farmacêutica — significa assumir um compromisso central: proteger a segurança dos participantes e garantir a integridade dos dados gerados nos estudos.
É esse cuidado que sustenta a medicina baseada em evidências e permite que novas terapias sejam incorporadas à prática clínica com segurança e responsabilidade.
A pesquisa clínica talvez seja uma das áreas mais “híbridas” da saúde, situada no encontro entre ciência, assistência, regulação e gestão de projetos.
Como gerente de pesquisa, diria que é uma carreira particularmente atraente para quem valoriza organização, rigor com qualidade e o trabalho em equipe multiprofissional — além da oportunidade de acompanhar um estudo desde o início até a sua conclusão.
O trabalho na prática
Minha trajetória sempre esteve ligada a centros de pesquisa clínica. O que mais me motiva é o contato com os pacientes e a dinâmica de trabalho ao lado de equipes formadas por médicos, coordenadores, assistentes, enfermeiros e farmacêuticos.
Nesse ambiente, o cotidiano é orientado pelo protocolo do estudo em andamento, sempre com um objetivo claro: produzir evidências científicas com segurança, integridade de dados e conformidade ética e regulatória.
Entre as principais atividades da rotina estão:
• acompanhamento de qualificação do patrocinador;
• negociação de contrato e orçamento;
• submissão a Comitês de Ética em Pesquisa (CEP) e à Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep);
• recrutamento e triagem de participantes conforme critérios definidos no protocolo;
• condução das visitas dos participantes, com coleta de dados clínicos, sinais vitais, questionários e amostras biológicas;
• organização da documentação essencial, registros em prontuário e preenchimento do prontuário eletrônico (eCRF), além da manutenção de registros regulatórios;
• gestão de eventos adversos e comunicação com investigador, patrocinador, organização de pesquisa contratada (CRO) e comitê de ética em pesquisa;
• acompanhamento de monitorias e auditorias, demonstrando rastreabilidade e qualidade dos processos.
Trilhas de carreira em Pesquisa Clínica
Nos centros de pesquisa clínica, o desenvolvimento profissional pode seguir diferentes caminhos, de acordo com o perfil e as competências de cada profissional:
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Operações
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Muitos começam como assistentes de pesquisa clínica e evoluem para coordenadores de estudos, coordenadores plenos ou seniores e, posteriormente, gerentes de pesquisa. É uma área fortemente ligada à gestão de processos, prazos e qualidade de dados.
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Regulatório
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Nesse campo, o trabalho envolve a condução de trâmites junto aos sistemas CEP e Conep e à Agência Nacional de Vigilância Sanitária, além do atendimento às exigências de patrocinadores e CROs. Trata-se de uma área que exige rigor documental, atenção aos detalhes e planejamento preciso das etapas regulatórias.
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Qualidade
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As funções incluem assistentes, analistas, especialistas e gerentes de qualidade, responsáveis por assegurar que os estudos sejam conduzidos de acordo com o padrão internacional de Boas Práticas Clínicas estabelecido pelo Conselho Internacional para Harmonização de Requisitos Técnicos para Produtos Farmacêuticos de Uso Humano. Também garantem a integridade dos dados segundo os princípios do ALCOA+: atribuível, legível, contemporâneo, original e acurado — além de completo, consistente, duradouro e disponível.
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Gerenciamento
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Na gestão, o foco está em garantir a execução adequada dos estudos, a capacidade operacional do centro de pesquisa e o alinhamento da equipe com o Investigador Principal, CROs e áreas de apoio. Em síntese: pessoas, prazos e qualidade.
Participar de protocolos pivotais — aqueles que mais tarde transformam a prática clínica — é uma experiência difícil de traduzir em números ou relatórios. Cada estudo concluído representa muito mais do que resultados estatísticos: envolve confiança dos participantes, decisões clínicas e a possibilidade de ampliar opções terapêuticas.
O Brasil vive hoje um momento importante nesse campo com a promulgação da nova Lei da Pesquisa Clínica no Brasil (Lei 14.874/24).
A nova legislação estabelece regras mais claras para aprovação e condução de estudos clínicos, trazendo maior previsibilidade e segurança jurídica ao setor.
Com processos potencialmente mais ágeis, o país tende a ganhar competitividade no cenário internacional, ampliando a participação em pesquisas globais e atraindo investimentos em inovação.
Isso significa mais oportunidades para centros de pesquisa, mais empregos qualificados e, sobretudo, maior acesso de pacientes a novas terapias.
Curva de aprendizado
Para quem deseja ingressar na área, a curva de aprendizado costuma ser intensa. Alguns pilares são fundamentais:
Ética e rigor. Dominar as Boas Práticas Clínicas (BPC) é indispensável. Mais do que uma exigência formal, elas orientam todas as decisões do cotidiano.
Organização e rastreabilidade. A rotina envolve múltiplos prazos, documentos regulatórios, treinamentos e amostras biológicas. Sistemas de controle e rotinas de conferência tornam-se ferramentas essenciais.
Comunicação e soft skills. Saber dialogar com investigadores, patrocinadores e pacientes — muitas vezes em contextos sensíveis — exige clareza, empatia e capacidade de traduzir termos técnicos.
Atualização regulatória constante. Acompanhar resoluções da Anvisa e do sistema CEP/Conep, além das mudanças legislativas recentes, é parte fundamental do trabalho.
No fim das contas, a pesquisa clínica é mais do que uma carreira. É um elo entre ciência e cuidado, entre dados e decisões médicas. Em cada protocolo conduzido há um compromisso silencioso: transformar conhecimento científico em melhores caminhos para a saúde das pessoas.
Patricia Monteiro Quintino é fisioterapeuta, especialista em Pesquisa Clínica e mestre em Medicina Translacional pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Atualmente é supervisora de Pesquisa Clínica no Centro de Estudos e Pesquisas de Hematologia e Oncologia da Faculdade de Medicina do ABC (CEPHO/FMABC), supervisionando ensaios clínicos em oncologia e hematologia. Atua com gerenciamento de cronogramas de projetos, treinamento de equipe, auditorias internas, estratégias de recrutamento, visitas de monitoramento e garantia da qualidade.
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