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28.08.2025 Saúde Pública

Diagnóstico e manejo do HIV estão ligados à renda dos países

Médica infectologista Fernanda Fonseca, da AIDS Healthcare Foundation, comenta estudo que expõe desigualdades no acesso a diagnóstico e tratamento rápido do HIV

Mulher de cabelos cacheados e escuros sorri para a câmera em um ambiente externo com vegetação ao fundo. Ela veste uma camisa mostarda sobre uma roupa azul claro e posa com uma das mãos no bolso, transmitindo simpatia e confiança. Fernanda Fonseca, médica infectologista e coordenadora da AIDS Healthcare Foundation no Brasil, alerta sobre os impactos das desigualdades no acesso ao diagnóstico e tratamento do HIV em países de baixa e média renda | Imagem: Senhoritas Fotografia

Um estudo publicado no HIV Medicine analisou 643 serviços de tratamento do HIV em 37 países de quatro continentes e revelou disparidades significativas na disponibilidade de diagnóstico, tratamento e manejo de comorbidades em pacientes com HIV avançado. 

As lacunas mais evidentes foram encontradas na África, Ásia e América Latina/Caribe, onde a baixa renda nacional bruta per capita é um fator determinante.

Em entrevista ao Science Arena, a médica infectologista Fernanda Fernandes Fonseca, coordenadora da AIDS Healthcare Foundation no Brasil e coautora do estudo, discute os riscos do diagnóstico tardio, as desigualdades regionais e como essas informações podem subsidiar políticas públicas mais eficazes.

Science Arena: Há exemplos de países que superaram desafios de recursos de forma eficiente?

Fernanda Fonseca – A única região que tem acesso adequado a esses recursos é a Europa, com maior renda per capita, e menor necessidade desses recursos, dada a menor prevalência de pessoas com HIV avançado/AIDS e apresentadores tardios. As possíveis recomendações para atenuar esses desafios incluem a implementação de programas direcionados (inclusive aqueles apoiados por recursos externos) para populações carentes, incluindo a capacitação local. Além disso, entender e fechar as lacunas que restringem o atendimento médico para essa população pode ajudar a reduzir a carga geral de HIV e AIDS.

Quais são as principais consequências para pacientes que não têm acesso a testes diagnósticos e tratamentos rápidos, como contagem de células CD4 e profilaxia de infecções oportunistas?

As pessoas recém-diagnosticadas com HIV em estágios avançados/AIDS/apresentadores tardios têm maior risco de resultados clínicos desfavoráveis do que as pessoas diagnosticadas com HIV em estágios anteriores. Nos países de baixo e médio rendimento, os estudos sugerem que 30% a 40% das pessoas com HIV que iniciam o tratamento antirretroviral têm HIV avançado/AIDS. É fundamental que todas as pessoas que iniciem ou retomem o cuidado ao HIV tenham acesso à sua contagem basal de CD4. Dessa forma, serão identificadas aquelas que apresentam contagem de CD4 mais baixa, e que irão se beneficiar de recursos adequados para prevenir e/ou tratar doenças oportunistas nos primeiros meses de tratamento antirretroviral, antes do estabelecimento da recuperação imunológica. O cuidado adequado pode atenuar a morbidade e a mortalidade associadas ao HIV avançado/AIDS.

Como o estigma, a discriminação e a falta de conscientização influenciam as altas taxas de diagnóstico tardio?

Estudos científicos sugerem que os fatores associados com a apresentação tardia incluem justamente idade mais avançada, gênero masculino, etnia latina, orientação heterossexual, status de migrante, menor escolaridade, maior estigma externalizado e acesso limitado ao teste de HIV.

Como os resultados desse estudo podem ser utilizados para influenciar políticas públicas e resultar em uma melhor alocação de recursos em saúde?

Compreender e investigar em políticas públicas que mitiguem as lacunas que limitam os cuidados em saúde para as pessoas vivendo com HIV que estão chegando mais tardiamente ao cuidado pelos inúmeros desafios pessoais, comunitários e estruturais que enfrentam, ajudará a atenuar os impactos negativos da epidemia global do HIV/AIDS. Os resultados dessa análise foram usados para projetar e implementar estratégias para melhorar os serviços dentro das instalações apoiadas pela AHF, incluindo a disponibilidade ampliada de testes rápidos de HIV, insumos para execução de CD4 basal para as pessoas que iniciem ou retornem ao tratamento, além de alocação de recursos para prevenção e tratamento de infecções oportunistas e educação continuada para o manejo clínico de pessoas com HIV avançado/AIDS Por fim, nossas descobertas podem ser usadas para informar futuras políticas de saúde pública e outros programas de melhoria da qualidade voltados para o atendimento abrangente ao HIV.

Disponibilidade de recursos está ligada à renda nacional:

• Contagem de células CD4: Disponível em 54% dos serviços em países de baixa renda, 50% em países de renda média-baixa, 66% em países de renda média-alta e 100% em países de alta renda.

• Exame de carga viral no local: Presente em 60%, 49%, 67% e 100%, respectivamente.

• Genotipagem para falhas de tratamento: Disponível em 15%, 17%, 63% e 100%, respectivamente.

Nas regiões mais afetadas:

Na América Latina, o exame BAAR, essencial para diagnosticar tuberculose, está disponível em apenas 67% dos serviços.

Na África, apenas 24% dos serviços oferecem radiografia de tórax, crucial para manejar tuberculose.

O manejo de hipertensão intracraniana com punção lombar é realizado em apenas 18% dos serviços na África, 56% na Ásia e 38% na América Latina.

A fundoscopia para diagnóstico de citomegalovírus não está disponível em mais da metade dos serviços nessas regiões.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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