SOBRE
#Entrevistas
08.04.2026 Pesquisa clínica

Sem testes rigorosos, não há prova: por que a ciência não pode pular etapas

Karla Espírito Santo, do Einstein, fala da importância dos ensaios clínicos e alerta para riscos da pressão social sobre pesquisas em andamento

Karla Espírito Santo posa em ambiente corporativo, com blazer e expressão confiante. Pesquisadora clínica do Einstein atua na área de ensaios clínicos e modelos inovadores de pesquisa. Para Karla Espírito Santo, cardiologista e pesquisadora do Einstein, o ensaio clínico randomizado com grupo controle é o padrão-ouro para testar a eficácia de novos tratamentos — e pular suas etapas pode colocar populações inteiras em risco | Imagem: Arquivo

“Sem comparação adequada entre grupos, não há como provar a eficácia de um novo medicamento.” A frase da cardiologista Karla Espírito Santo resume o argumento central que ela defende — com rigor e sem concessões ao clima de urgência que, vez ou outra, pressiona a ciência a pular etapas.

Pesquisadora clínica, Karla Espírito Santo é head de Estudos Clínicos Descentralizados e Modelos Inovadores de Trials da Academic Research Organization (ARO) do Einstein Hospital Israelita.

Sua trajetória atravessa tanto a metodologia clássica dos ensaios randomizados quanto as fronteiras mais recentes da pesquisa descentralizada — aquela que, com apoio de tecnologia, leva parte do processo científico para fora dos centros tradicionais.

Nesta entrevista ao Science Arena, ela percorre a lógica dos ensaios clínicos fase a fase, explica por que a randomização funciona como um sorteio que protege a ciência de si mesma e avalia os riscos da pressão social sobre a pesquisa clínica. 

O Brasil tem histórico recente de casos emblemáticos nesse campo. A fosfoetanolamina sintética, substância distribuída por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) sem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), foi alvo de milhares de ações judiciais de pacientes oncológicos que buscavam acesso ao composto, mesmo sem evidências científicas de segurança e eficácia.

O Supremo Tribunal Federal (STF) declarou inconstitucional a lei que autorizava seu uso, por entender que a liberação sem testes clínicos comprometia o direito à saúde. 

Mais recentemente, a polilaminina, proteína sintética desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para o tratamento de lesões na medula espinhal, tornou-se tema estratégico do Comitê de Inovação da Anvisa, enquanto dezenas de pacientes já recorreram à Justiça para obter acesso à substância via uso compassivo, antes do estudo clínico de fase 1 — voltada exclusivamente à avaliação de segurança — ser concluído.

Para Karla Espírito Santo, situações assim ilustram com precisão por que o rigor metodológico não é burocracia: é proteção.

Science Arena — O fato de esse desenho ser considerado padrão-ouro significa que ele é a única possibilidade para testar a segurança e a eficácia de um novo tratamento ou existem outros desenhos possíveis?

Karla Espírito Santo — Para a aprovação de novos medicamentos, o ensaio clínico randomizado de fase 3 é o modelo mais aceito e normalmente exigido pelas agências regulatórias. Existem exceções regulatórias, como em doenças raras, quando não há pacientes suficientes para estudos tradicionais e poucos tratamentos disponíveis, mas não existe aprovação sem dados clínicos.

Também podem ser utilizados dados de mundo real, obtidos de pacientes que já usam medicamentos aprovados, geralmente para ampliar indicações ou atualizar bulas.

No desenvolvimento de um medicamento, os estudos seguem etapas: a fase 1 testa a segurança inicial do medicamento em humanos (geralmente voluntários saudáveis); a fase 2 avalia doses, segurança e sinais de eficácia em pacientes com a doença-alvo; a fase 3, que costuma ser randomizada, envolve mais pacientes e avalia os riscos e benefícios do novo medicamento, comprovando a eficácia definitiva e expandindo as informações de segurança; e a fase 4 monitora eventos adversos após a aprovação.

Para ajudar as pessoas a visualizar esse caminho, poderia citar um exemplo de medicamento em sua área, a Cardiologia, que tenha passado por todas essas fases?

Um exemplo recente são os inibidores da PCSK9, usados para reduzir o colesterol. Eles são indicados principalmente para pacientes com alto risco cardiovascular, como aqueles que já tiveram infarto ou AVC. Tradicionalmente utilizamos estatinas, mas alguns pacientes não atingem as metas terapêuticas ou apresentam efeitos adversos.

Nesses casos, os inibidores da PCSK9 são uma alternativa. Eles foram aprovados na última década após passarem por todo o processo de pesquisa clínica, incluindo as fases 1, 2 e 3.

Como funciona a chamada hierarquia ou pirâmide de evidências na pesquisa clínica?

Na pirâmide de evidências, os ensaios clínicos randomizados são os estudos primários com maior nível de evidência. Acima deles estão revisões sistemáticas e meta-análises, que analisam resultados de vários estudos para produzir conclusões mais robustas.

Abaixo estão estudos observacionais, como os de coorte, nos quais pesquisadores acompanham pacientes ao longo do tempo sem interferir no tratamento. Também existem estudos caso-controle, comuns em doenças raras ou situações emergentes, como ocorreu nas investigações iniciais sobre Zika vírus e microcefalia.

Na base da pirâmide estão relatos ou séries de casos, que descrevem observações clínicas, mas têm menor capacidade de demonstrar relações causais.

“Mesmo em contextos de urgência, como ocorreu com as vacinas contra a Covid-19, os estudos necessários foram realizados antes da aprovação”, ressalta Karla Espírito Santo, cardiologista e pesquisadora clínica do Einstein Hospital Israelita | Imagem: Arquivo

Quais são alguns exemplos de vieses metodológicos que podem afetar a interpretação dos resultados de um estudo?

Um exemplo é o viés de seleção, que acontece quando as características dos participantes já são diferentes entre os grupos comparados desde o início, e isto pode influenciar os resultados do estudo. Para evitar isto, os estudos usam a randomização, ou seja, a escolha do tratamento que cada paciente vai receber é feita de forma aleatória.

Outro ponto importante é o sigilo de alocação: quem recruta pacientes não deve saber previamente para qual grupo o próximo participante será designado.

Além disso, quando a gente lê uma bula ou um artigo científico, geralmente encontra uma descrição detalhada da população estudada. Isso não evita o viés em si, mas ajuda muito a entender para quem aquele resultado realmente se aplica na prática clínica.

Também existem outros tipos de vieses importantes, como o viés de desempenho, que ocorre quando os grupos recebem cuidados diferentes além do tratamento em estudo, e o viés de detecção, quando os desfechos são avaliados de forma diferente entre os grupos.

Uma estratégia-chave para reduzir esses problemas é o cegamento, quando pacientes, e sempre que possível também pesquisadores e avaliadores, não sabem qual tratamento está sendo administrado, reduzindo a influência de expectativas tanto no cuidado quanto na avaliação dos resultados.

Há ainda o viés de mensuração, especialmente relevante em desfechos subjetivos, como qualidade de vida ou percepção de sintomas.

Nesses casos, o uso de instrumentos validados, avaliações padronizadas e, novamente, cegamento dos pacientes e avaliadores é fundamental para tornar os resultados mais confiáveis.

Você atua no Einstein no departamento de estudos clínicos descentralizados. O que são eles e como mudam a forma de conduzir pesquisas com humanos?

Tradicionalmente, os estudos clínicos são realizados em centros de pesquisa, como hospitais ou institutos.

Nos estudos descentralizados, parte das atividades pode ocorrer fora desses centros com apoio de tecnologia. O paciente pode assinar o termo de consentimento eletronicamente, participar de consultas virtuais ou realizar exames em casa.

Também podem ser usados dispositivos de monitoramento remoto que enviam dados diretamente aos pesquisadores. Isso facilita a participação e amplia o acesso de pacientes que vivem longe dos grandes centros. Muitos estudos hoje são híbridos, combinando etapas presenciais e remotas.

Pressões sociais e judicialização, como ocorreu em casos envolvendo substâncias como fosfoetanolamina, hidroxicloroquina e, atualmente, com a polilaminina, podem representar riscos para a condução adequada da pesquisa clínica?

Sim. Esse tipo de pressão pode comprometer o processo científico quando leva à adoção de tratamentos antes de haver evidência suficiente. No caso da hidroxicloroquina, por exemplo, o medicamento já era aprovado para outras doenças e passou a ser usado amplamente antes de existirem estudos conclusivos sobre sua eficácia contra a Covid-19. Situações assim podem levar à tentativa de pular etapas da pesquisa clínica. Por isso é fundamental manter o rigor científico. 

Mesmo em contextos de urgência, como ocorreu com as vacinas contra a Covid-19, os estudos necessários foram realizados antes da aprovação. Seguir esse processo é uma forma de proteger a população.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

Entrevistas

0 Comentários
Oldest
Newest Most Voted
Inline Feedbacks
View all comments
Receba nossa newsletter

Newsletter

Receba nossos conteúdos por e-mail. Preencha os dados abaixo para assinar nossa newsletter

Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!
Cadastre-se na Newsletter do Science Arena