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27.01.2026 Pesquisa clínica

“Não se faz boa ciência nas horas vagas”, diz autor de estudo destacado em congresso europeu de cardiologia

Cardiologista Pedro Lemos revela os meandros de amplo estudo multicêntrico com mais de 3 mil pacientes e resultados aplicáveis ao SUS

O médico Pedro Lemos, de terno, fala ao microfone durante um painel ou conferência, sentado em uma poltrona no palco. O ambiente é profissional, com iluminação cênica e cenário típico de evento científico Reconhecido por sua atuação em intervenções cardíacas minimamente invasivas, Pedro Alves Lemos Neto é o investigador principal do ensaio clínico NEO-MINDSET, estudo multicêntrico brasileiro | Imagem: 

Diretor do Programa de Cardiologia do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo, o médico Pedro Alves Lemos Neto é o investigador principal de um estudo multicêntrico brasileiro que foi destaque no European Society of Cardiology (ESC 2025), o maior congresso de cardiologia do mundo, realizado no ano passado em Madri, na Espanha. 

Publicado em agosto passado no The New England Journal of Medicine, o ensaio clínico NEO-MINDSET avaliou a monoterapia com inibidor de receptores P2Y12 em comparação com a terapia antiplaquetária dupla (DAPT) em pacientes com síndrome coronariana aguda submetidos a stents de nova geração.

A monoterapia com inibidor de P2Y12 utiliza apenas um medicamento para inibir a função das plaquetas e tem menor potencial de induzir sangramentos. O tratamento padrão – DAPT, associa um inibidor de P2Y12 à aspirina, promovendo uma ação antiplaquetária mais intensa, mas elevando o risco de hemorragias

“O NEO-MINDSET mostrou que suspender a aspirina logo após o infarto aumenta o risco de novos eventos cardíacos, reforçando a necessidade de mantê-la por pelo menos um mês”, explica Lemos, que também é professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e doutor em ciências pela Universidade Erasmus, na Holanda. 

O estudo – que contou com apoio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADI-SUS) – envolveu 50 centros de pesquisa em diversos estados do país e incluiu 3.400 pacientes.

Foi conduzido com metodologia robusta: randomizado e com avaliação cega dos desfechos, para verificar se a monoterapia com inibidor de P2Y12 seria não-inferior em eficácia e superior em segurança em comparação à DAPT tradicional.

Reconhecido por sua atuação em intervenções cardíacas minimamente invasivas, Pedro Lemos conversou com a reportagem do Science Arena sobre os meandros do estudo e os desafios de reunir milhares de pacientes e dezenas de centros brasileiros.  

Na entrevista a seguir, o cardiologista também detalha os processos logísticos e científicos de coordenar um ensaio clínico tão complexo e garantir qualidade, padronização e integridade em todas as etapas do estudo.

Science Arena: Quais foram os principais desafios logísticos e científicos para coordenar um estudo multicêntrico dessa magnitude?

Pedro Alves Lemos Neto – Um estudo dessa natureza só é possível se for multicêntrico. Nenhuma instituição isolada conseguiria o volume necessário de pacientes em tempo razoável. É importante ressaltar que, além disso, o caráter multicêntrico de um estudo aumenta a sua representatividade, que não fica limitada a um único perfil populacional. 

O Brasil é extremamente heterogêneo, então quanto mais centros participam, mais os resultados refletem a realidade nacional. Isso traz desafios enormes. É preciso coordenar protocolos, padrões de qualidade e ações regulatórias em cerca de 50 centros simultaneamente. 

Fazer pesquisa de alta qualidade exige profissionalismo. Não se faz boa ciência “nas horas vagas”. 



No Einstein, a pesquisa é um pilar estruturado. O hospital organizou o estudo por meio da Academic Research Organization (ARO), divisão dedicada exclusivamente a pesquisas clínicas. Temos médicos, enfermeiros e coordenadores contratados para cuidar de todas as etapas, da coleta de dados aos processos éticos e regulatórios, passando pelo envio e controle das medicações, de forma padronizada e profissional.

Como foi possível garantir que essa padronização se mantivesse entre tantos centros e dados diferentes?

Com várias frentes. Primeiro, rigor científico absoluto no desenho metodológico. Depois, uma estrutura operacional que acompanha cada etapa do processo – desde a aprovação ética até o monitoramento contínuo dos dados. 

A ARO criou uma base online exclusiva, padronizando o vocabulário usado pelos centros. Muitas vezes, dois hospitais registram a mesma informação de formas diferentes e isso precisa ser uniformizado antes da análise. 

Também há auditorias presenciais, com equipes do Einstein que visitam os centros e verificam 100% dos dados incluídos. Além disso, há comitês independentes, que garantem a integridade e a segurança do estudo sem interferência dos pesquisadores.

De que forma o estudo foi desenhado para contemplar a heterogeneidade da população brasileira?

Tivemos centros em múltiplos estados do Brasil, o que trouxe diversidade geográfica e demográfica. Durante toda a condução, o Einstein manteve contato constante com os centros, oferecendo suporte, reposição de medicamentos e ajustes de protocolo.

Como os infartos podem ocorrer a qualquer hora, o sistema de inclusão funcionou 24 horas por dia, sete dias por semana. 

Foram incluídos 3.400 pacientes, número calculado estatisticamente para garantir poder suficiente à análise e minimizar erros, tanto o de enxergar uma diferença inexistente (erro tipo I) quanto o de não enxergar uma diferença que existe (erro tipo II).

Auditório lotado acompanha uma apresentação científica em grande palco, com telas exibindo slides técnicos e transmissão ao vivo do palestrante. O cenário e a iluminação reforçam o caráter internacional e institucional do congresso
Estudo liderado pelo cardiologista Pedro Lemos, do Einstein Hospital Israelita, foi um dos destaques do congresso anual da European Society of Cardiology (ESC), que aconteceu em Madri, na Espanha, em 2025 | Imagem: Arquivo Einstein

Como o NEO-MINDSET abordou a diversidade étnica, racial e socioeconômica da população brasileira?

O estudo procurou refletir o dia a dia dos centros. Tivemos uma distribuição geográfica ampla e, consequentemente, uma diversidade natural de pacientes. 

Cerca de 30% dos participantes eram pretos ou pardos e 30% eram mulheres, um avanço importante, já que costumam ser sub-representadas em estudos de doença coronariana.

Como evitar vieses entre centros de tamanhos e capacidades diferentes?

Existem dois tipos de desenho. O “competitivo”, em que cada centro inclui o máximo possível de pacientes, e o “distributivo”, em que todos precisam incluir o mesmo número de participantes. 

Optamos pelo modelo competitivo, pois ele acelera o recrutamento. As instituições maiores naturalmente incluíram mais, mas isso reflete o tamanho real de suas populações. 

Para evitar vieses, controlamos o percentual de pacientes incluídos em relação ao total atendido por cada hospital. No fim, cerca de 70% dos pacientes elegíveis foram incluídos, um número excelente em termos de representatividade. 

Qual é a importância de estudos como esse, que revisitam protocolos já conhecidos, dentro de programas como o PROADI-SUS?

A boa medicina é baseada em evidências. Claro que o raciocínio clínico e a experiência são a base da prática médica, mas as decisões devem se apoiar em dados robustos. 

Normalmente fazemos estudos para validar o novo, mas é igualmente importante revisitar o que já é usado há muito tempo, até para identificar quando um tratamento se torna obsoleto. 

O PROADI-SUS é fundamental nesse sentido. Ele permite gerar evidências dentro do Sistema Único de Saúde, com tecnologias disponíveis no país e perguntas relevantes à nossa realidade.

O infarto é uma doença universal, mas precisamos entender como os resultados se aplicam ao contexto brasileiro. 

O NEO-MINDSET cumpre exatamente esse papel ao incluir 3.400 pacientes e mostrar, com evidências sólidas, que o tratamento continua eficaz e seguro.

Há outros exemplos de estudos dentro do PROADI-SUS que também tenham gerado impacto semelhante?

Sim. O PROADI-SUS é relativamente jovem, mas já tem papel central na construção de evidências no país. O estudo RIVER, feito no Hospital do Coração (HCor), é um exemplo importante. No Einstein, temos dois estudos em andamento que devem apresentar resultados no próximo ano, envolvendo milhares de pacientes hipertensos. 

Eles investigam qual é o nível ideal de pressão arterial para tratamento, uma pergunta simples, mas com enorme relevância clínica e impacto em políticas públicas.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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