SOBRE
#Leitura Indicada
19.03.2026 Linguística

A história de seis milhões de anos que explica por que falamos

Linguista reconstrói as peças do quebra-cabeça evolutivo da linguagem humana e monólogo de Gregório Duvivier completa a experiência

Ilustração 3D de um cérebro humano formado por nós e linhas interconectadas, em tons de branco, azul e rosa, sobre um pedestal metálico. Ao fundo, superfície roxa com pequenas esferas coloridas dispersas e fundo escuro azulado. Livro do linguista Steven Mithen reconstrói em 15 peças a história de como a linguagem surgiu nos hominídeos — da anatomia vocal à explosão simbólica do Homo sapiens | Imagem: Unsplash

O QUE RECOMENDO?

Recomendo um livro e, ao mesmo tempo, um monólogo. Os dois sobre o mesmo tema: linguagem. O livro se chama The Language Puzzle: Piecing Together the Six-Million-Year Story of How Words Evolved, escrito pelo linguista Steven Mithen e publicado pela Basic Books (New York) em 2024.

A leitura reverbera na arte brasileira ao se assistir ao monólogo O céu da língua, de Gregório Duvivier, que esteve em cartaz em São Paulo. Eu li primeiro o livro de Mithen e depois assisti ao monólogo de Duvivier, que também escreveu um pequeno livro que pode ser comprado após o espetáculo.

POR QUE ESTE TEXTO É RELEVANTE?

Mithen adota uma estratégia empolgante para explicar como as palavras surgiram e evoluíram nos hominídeos. No início, ele explica o estado atual do conhecimento sobre como as espécies do gênero Homo, inclusive nós, os sapiens, desenvolveram essas habilidades. Em seguida, mergulha em um quebra-cabeça, mostrando 15 peças que nos levam a compreender como a linguagem deve ter surgido nos nossos ancestrais e nos trouxe até o estágio atual, em que usamos metáforas e nos comunicamos de forma complexa.

Entre as peças estão questões sobre como surgiram as palavras, se os outros símios também falam, se os neandertais falaram, se as ferramentas e o fogo auxiliaram no desenvolvimento da fala, como a fala influencia o pensar, como nos tornamos seres simbólicos e qual é a relação da fala com isso. Depois de colocar as peças “sobre a mesa”, Mithen elabora, no capítulo final, uma visão do que seria a nossa história. Não, isso não é um spoiler.

O livro precisa ser lido para ser apreciado, podendo ser abordado de diferentes formas. Para alguém que queira apenas ter uma amostra e não entender os meandros das peças, pode ler apenas o capítulo de conclusão. Para o leitor que deseja compreender as peças, o livro pode ser lido sem consultar as citações. E para aqueles, como eu, que gostam de ciência, vale muito a pena ler cada uma das citações, de alta qualidade científica, que atestam a solidez dos argumentos. Em certos pontos, o autor até indica se concorda ou não com alguma referência que cita ou se prefere alguma teoria. A língua central é, obviamente, o inglês e, para quem conhece a língua, é uma delícia entender ainda mais as origens de expressões e suas transformações ao longo do tempo.

Na minha indicação, coloquei também o monólogo de Duvivier porque ele, de certa forma, usa o capítulo 3 do livro de Mithen e outros fragmentos do livro como base para a sua peça, que é sobre o português. O monólogo é delicioso se visto sem a leitura do livro, mas fica muito mais rico se assistido após a leitura de Mithen.

O QUE FAZ DESTE TEXTO UMA LEITURA IMPERDÍVEL?

Para as pessoas que desejam compreender como nossa espécie chegou até aqui, entender como e por que falamos é essencial. Mesmo tendo lido vários livros sobre linguística, aprendi algumas coisas interessantes com Mithen.

Por exemplo, o desenvolvimento da nossa anatomia (nosso aparelho bucomaxilar e auditivo) é fundamental para a fala. Nosso cérebro arredondado e com uma área pré-frontal volumosa nos diferencia de outras espécies de Homo com as quais convivemos.

Uma das noções que, para mim, estão entre as mais impressionantes, é a ideia de que só quando o Homo sapiens aparece é que as redes neurais começam a se comunicar internamente, levando a uma explosão de conexões e à possibilidade de monólogos, como o de Duvivier, que encantam as pessoas por meio da arte. Mithen e Duvivier nos ajudam a entender melhor por que nosso sobrenome é sapiens.

Marcos Buckeridge é professor titular do departamento de botânica na Universidade de São Paulo. Foi diretor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (INCT Bioetanol de 2008 a 2025) e hoje é coordenador da mesma organização.

Os artigos opinativos não refletem necessariamente a visão do Science Arena e do Einstein.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

Leitura Indicada

0 Comentários
Oldest
Newest Most Voted
Inline Feedbacks
View all comments
Receba nossa newsletter

Newsletter

Receba nossos conteúdos por e-mail. Preencha os dados abaixo para assinar nossa newsletter

Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!
Cadastre-se na Newsletter do Science Arena