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24.02.2026 Oncologia

Câncer de mama, ciência e autonomia: por que ler “Quando a Vida Pede Coragem”

Historiadora transforma sua experiência com câncer em reflexão crítica sobre medicina baseada em evidências, excesso de informação e protagonismo do paciente

A escritora Tamara Prior aparece sentada em um estúdio com iluminação amarela ao fundo e segura o livro “Quando a Vida Pede Coragem”. Ela veste blusa marrom e sorri levemente enquanto exibe a capa da obra para a câmera. A historiadora Tamara Prior, autora de ‘Quando a Vida Pede Coragem – Uma jornada contra o câncer com consciência, esperança e ação’: livro combina experiência clínica, história da ciência e análise de evidências para discutir como pacientes podem tomar decisões responsáveis em meio à sobrecarga de informações | Imagem: Arquivo Pessoal

O QUE RECOMENDAMOS?

O livro Quando a Vida Pede Coragem – Uma jornada contra o câncer com consciência, esperança e ação (GM Editora, 2025), de Tamara Prior, historiadora formada pela Universidade de São Paulo (USP), com trajetória acadêmica voltada para história da saúde e história das ciências e mestrado em medicina preventiva pela Faculdade de Medicina da USP.

Após ser diagnosticada com câncer de mama aos 29 anos, a autora passou a integrar grupos de pacientes, aprofundar-se no estudo da oncologia e dialogar ativamente com evidências científicas, desenvolvendo uma postura crítica e participativa diante das decisões terapêuticas.

Essa vivência, atravessada por sucessivos desafios clínicos, resultou no livro Quando a Vida Pede Coragem, no qual Prior articula experiência pessoal, reflexão histórica e análise científica para discutir saúde, autonomia e enfrentamento do adoecimento.

POR QUE ESTE LIVRO É RELEVANTE?

O livro é relevante porque procura romper dicotomias fáceis — por exemplo, entre ciência e sensibilidade, entre medicina convencional e autonomia do paciente, entre esperança e realidade concreta.

No prefácio, o divulgador científico Abner Santos descreve como Tamara ampliou sua “caixa de ferramentas” terapêuticas sem negar os protocolos médicos.

Essa postura — nem de rejeição da medicina baseada em evidências, nem de submissão acrítica — é um dos eixos centrais da obra.

Trata-se, nesse sentido, de uma defesa do pensamento crítico aplicado à própria saúde.

Em entrevista concedida ao Science Arena, Prior enfatizou justamente a importância de “construir filtros” diante do excesso de informação na era digital.

O livro materializa essa proposta: mostra como curiosidade e criticidade, cultivadas desde sua formação em história da ciência, tornaram-se ferramentas práticas na tomada de decisões clínicas.

Para um público interessado nos desafios contemporâneos da produção e circulação do conhecimento, o livro oferece um estudo de caso vivo sobre autonomia informacional, protagonismo do paciente e os limites (e potencialidades) dos paradigmas científicos em contextos de alta incerteza.

Mulher de cabeça raspada, usando brincos dourados e batom vermelho, olha para o horizonte com expressão serena e determinada. Ao fundo, a luz natural atravessa a vegetação verde, criando um clima acolhedor e contemplativo.
Para a historiadora Tamara Prior, que enfrentou um câncer de mama metastático, controvérsias não são defeitos: “é a própria pulsação da ciência com hipóteses testadas, refutadas e refinadas”| Imagem: Arquivo Pessoal

O QUE FAZ DESTE LIVRO UMA LEITURA IMPERDÍVEL?

Primeiro, a coragem intelectual de Tamara Prior – que não escreve como quem entrega uma narrativa de superação pronta e confortável. Ela problematiza o imaginário geralmente fatalista e romântico que cerca o câncer, discute a vergonha que atravessa pacientes e profissionais, e questiona discursos simplificadores sobre causalidade (“Tudo causa câncer ou nada causa?”).

Em segundo lugar, há uma integração entre experiência e pesquisa. Ao longo da obra, cada capítulo combina, de forma equilibrada, relato pessoal com análise crítica e revisão de evidências — da resposta imune adaptativa à imunonutrição — culminando em um diálogo franco “entre a ciência e a vida.”

“Não se trata de um manual, nem do relato de um milagre; trata-se de método, postura e responsabilidade”, disse Prior ao Science Arena.

“Costumamos ouvir que basta buscar o que é científico, ou seja, ‘a medicina baseada em evidências’. Mas dentro desse próprio território também existem armadilhas, interesses e até equívocos travestidos de promessas.”, alerta a autora.

O livro também contempla a dimensão política do cuidado.

A autora ilumina as desigualdades de acesso ao diagnóstico e tratamento e aponta que a luta contra o câncer não é apenas biológica, mas também coletiva e institucional.

Essa consciência ecoa o que Prior afirma na entrevista: informação sem discernimento pode confundir; mas informação aliada à criticidade pode transformar decisões.

Trata-se de uma obra que dialoga diretamente com um tema caro à comunidade científica: como navegar entre incertezas sem abandonar o rigor?

Em tempos de excesso informacional e disputas de narrativa sobre saúde e ciência, Quando a Vida Pede Coragem é um convite a praticar algo raro — lucidez com esperança.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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