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Risco ignorado: o alerta do NEJM sobre o tabaco sem fumaça
Uso de tabaco não fumado responde por parcela significativa de casos de câncer oral no mundo, adverte influente revista médica
Artigo publicado no The New England Journal of Medicine (NEJM) emite alerta sobre os riscos do chamado “tabaco sem fumaça”, correlacionando este tipo de consumo ao aumento de casos de câncer oral no mundo, especialmente em países de baixa e média renda | Imagem gerada por IA
O QUE RECOMENDAMOS?
O artigo Smokeless Tobacco and Oral Cancer in Global Perspective, publicado na seção Perspective do The New England Journal of Medicine em janeiro de 2026. O texto é assinado por Mark Parascandola (Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos); Suzanne T. Nethan (Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, na França); e Kamran Siddiqi (Escola de Medicina de Hull York, no Reino Unido), que alertam para o aumento do uso de produtos de tabaco sem fumaça, especialmente no Sudeste Asiático, correlacionando-os diretamente ao crescimento dos casos de câncer bucal.
POR QUE ESTE ARTIGO É RELEVANTE?
O texto discute como o tabaco sem fumaça contribui de maneira significativa para câncer oral e mortes em todo o mundo. A categoria abrange uma ampla gama de produtos industrializados e ou feitos sob encomenda, incluindo tabaco de mascar, rapé, gutka, khaini, toombak e iqmik.
Embora mais de 360 milhões de pessoas usem esses produtos, em especial em países de baixa e média renda (como na Ásia do Sul, incluindo Índia, Bangladesh e Paquistão), sua discussão em políticas públicas e pesquisas é muito menor que a do tabaco fumado.
A relevância do artigo consiste no fato de ele dar visibilidade a um importante problema de saúde pública global que permanece subestimado: o impacto do tabaco sem fumaça.
Ao reunir evidências epidemiológicas e clínicas, o texto demonstra que uma parcela expressiva dos casos de câncer oral no mundo — sobretudo em países de baixa e média renda — está associada a produtos muitas vezes percebidos como menos nocivos do que o cigarro comum. Essa percepção equivocada contribui para a manutenção do consumo e para lacunas em políticas de prevenção, vigilância e regulação.
Além disso, o artigo é relevante por reposicionar o tema no debate clínico e político, chamando a atenção de profissionais de saúde, gestores e formuladores de políticas para a necessidade de integrar o tabaco sem fumaça às estratégias globais de controle do tabagismo.
O QUE FAZ DESTE ARTIGO UMA LEITURA IMPERDÍVEL?
Ao destacar desigualdades regionais, barreiras culturais e falhas regulatórias, o texto reforça que o câncer oral associado a esses produtos é amplamente prevenível, desde que haja maior prioridade em comunicação em saúde e ações regulatórias baseadas em evidências.
O artigo também apresenta dados concretos sobre o tamanho do problema:
- 389.846 novos casos de câncer oral foram registrados no mundo em 2022, com a incidência crescendo em países onde o uso desses produtos é comum.
- Estimativas epidemiológicas relacionadas (embasadas em dados como os do Global Cancer Observatory) sugerem que aproximadamente 120.200 casos de câncer oral (aproximadamente 30% do total) em 2022 podem ser atribuídos ao uso de tabaco sem fumaça ou noz de areca — um fator crítico de risco prevenível.
- A maior parte desses casos atribuíveis ao tabaco sem fumaça ocorreu em Sul-Central e Sudeste da Ásia, refletindo padrões regionais de uso e risco.
Esses números ajudam a dimensionar a magnitude global do problema que o artigo discute: milhões de usuários, centenas de milhares de novos casos de câncer oral por ano e uma grande proporção desses casos diretamente atribuíveis a um fator de risco que, apesar de preveníveis, tem recebido atenção insuficiente em políticas de saúde pública.
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