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Agências europeias remodelam avaliação científica com foco em qualidade
Estudo com 10 agências de fomento mostra adoção crescente de critérios qualitativos e abandono de métricas como fator de impacto
Relatório analisa práticas de avaliação de 10 agências europeias de fomento à pesquisa, incluindo fundações públicas e privadas da Dinamarca, Alemanha, Suécia e Reino Unido | Imagem: gerada por IA
As discussões sobre a reforma da avaliação da pesquisa ganharam força nos últimos anos, impulsionadas pelo avanço da ciência aberta e da avaliação responsável. Em diferentes países, instituições e áreas do conhecimento, cresce a defesa por mais transparência, equidade, inclusão, e por avaliações mais qualitativas, apoiadas (e não dominadas) por indicadores quantitativos. Essa é uma das conclusões do relatório “Emerging Practices in Research Assessment: Cross-Case Analysis of 10 International Funders”, elaborado por pesquisadores da Universidade de Aalborg, na Dinamarca, por ocasião da Conferência de Alto Nível da Presidência da União Europeia sobre a Reforma da Avaliação da Pesquisa (CeRRA, na sigla em inglês), realizada em Copenhague em dezembro.
Revisão qualitativa supera métricas tradicionais
O documento reúne estudos de caso de agências europeias públicas e privadas de fomento à pesquisa, entidades filantrópicas independentes e organizações orientadas por missões, com base em documentos públicos, como planos estratégicos, diretrizes, editais, formulários, políticas, entrevistas com gestores de financiamento e pesquisa complementar sobre cada financiador. O objetivo foi mapear como essas instituições estruturam e aplicam seus modelos de avaliação, identificar pontos de convergência e divergência e situar suas práticas no debate global sobre avaliação responsável.
As análises revelam tanto tendências compartilhadas quanto abordagens distintas para práticas e princípios de avaliação responsável. Todas mantêm a revisão por pares e a análise qualitativa de especialistas como principal mecanismo para avaliar propostas de financiamento. A estrutura varia de avaliações individuais a processos em múltiplas etapas com painéis. Em todos os modelos, o julgamento qualitativo permanece central. Alguns financiadores, como a Wellcome Trust, do Reino Unido, e a Deutsche Forschungsgemeinschaft (DFG, Fundação Alemã de Pesquisa), desestimulam explicitamente o uso de métricas baseadas em periódicos, como fator de impacto (que mede citações de uma revista) e h-index (que quantifica produtividade e citações de um pesquisador).
A crítica é que esses indicadores quantitativos não capturam a qualidade real da pesquisa e podem distorcer prioridades científicas.
O alinhamento com movimentos internacionais de reforma também varia entre os financiadores. A Wellcome Trust, a DFG, a Volkswagen Foundation, o Independent Research Fund Denmark e a Villum Fonden demonstram engajamento explícito com a CoARA (Coalition for Advancing Research Assessment, coalizão que promove avaliação responsável da pesquisa) e com a San Francisco Declaration on Research Assessment (DORA), que em 2012 propôs eliminar o uso do fator de impacto como indicador da qualidade de artigos
Vários financiadores dinamarqueses, embora reconheçam a importância da qualidade da pesquisa e de seu impacto social, não participam formalmente da CoARA. É o caso da Novo Nordisk Foundation e da Augustinus Foundation, que apesar disso incorporam elementos de avaliação responsável em seus processos, como análise qualitativa e reconhecimento de contribuições interdisciplinares e colaborativas.
Diversidade e equidade ganham espaço nas políticas
O levantamento da Universidade de Aalborg também verificou uma atenção crescente dessas instituições para com a diversidade, equidade e inclusão. Algumas agências adotam regras estruturadas de equilíbrio de gênero em seus painéis de avaliação, como a Riksbankens Jubileumsfond, da Suécia, a Wellcome Trust e a Volkswagen Foundation. Outras monitoram indicadores de diversidade ou os integram em estratégias institucionais, como ocorre com a Villum Foundation, a Velux Foundation, a Novo Nordisk Foundation, a DFG e o Independent Research Fund Denmark. Já algumas fundações menores ou orientadas por missões mencionam diversidade e inclusão apenas de forma limitada em suas diretrizes públicas.
Um grupo pequeno de agências de fomento permanece agnóstico em relação ao futuro da avaliação responsável. A maioria das instituições analisadas possui políticas ativas nesse sentido, atuando para promover culturas de pesquisa mais equitativas, abertas e colaborativas. O ecossistema resultante é heterogêneo, mas mostra convergência em torno de normas comuns, refletindo histórias institucionais, mandatos e prioridades estratégicas. “Ao reunir os estudos de caso em um mesmo quadro analítico, buscamos apoiar as discussões sobre a reforma da avaliação da pesquisa na Dinamarca e na Europa, oferecendo referências para o aprendizado contínuo e alimentando o debate emergente sobre o papel dos financiadores na configuração do ecossistema de pesquisa”, escreveram os autores.
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