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07.04.2026 Farmacologia

Agonistas e antagonistas: os medicamentos que modulam os sinais do corpo

Da bombinha de asma aos anticorpos monoclonais: como os fármacos “conversam” com as células

Ilustraçãomostrando moléculas interagindo com estruturas proteicas em superfície celular, representando a ligação entre fármacos e receptores. Agonistas ativam receptores celulares; antagonistas os bloqueiam — juntos, esses mecanismos regulam desde a pressão arterial até a respiração | Imagem: Pexels

Imagine que o corpo humano seja um carro e que cada órgão tenha um responsável por uma função essencial: acelerar, frear, regular a respiração, controlar o ritmo do coração. Em cada veículo, há botões e controles específicos; esses são os receptores celulares, estruturas que recebem comandos para fazer o organismo funcionar. Os medicamentos são as chaves desse sistema.

Alguns são feitos para ligar o motor. Os chamados agonistas entram na ignição correta, ativam o receptor e fazem a função acontecer. É o caso da bombinha de asma: ela aciona o “modo respiração livre” nos brônquios, vias que conduzem o ar até os pulmões, provocando sua dilatação e facilitando a passagem do oxigênio.

Outros têm um papel oposto, mas igualmente necessário. Os antagonistas também se encaixam no receptor, mas não o ativam. Eles apenas ocupam o espaço, impedindo que outra molécula o acione. Um exemplo clássico são os anti-hipertensivos, que bloqueiam o “modo aceleração” do coração e ajudam a reduzir a pressão arterial.

Na prática clínica, porém, essa lógica vai além da metáfora do liga-desliga.

Tratar não é forçar o corpo, é ajustar seus controles

Compreender essa diferença é essencial para entender por que muitos tratamentos não “forçam” o organismo, segundo o cardiologista José Eduardo Krieger, professor da Universidade de São Paulo (USP) e diretor do Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do Instituto do Coração (InCor/FMUSP).

“O medicamento não cria uma função nova. Ele atua sobre sistemas de controle que já existem, regulando a intensidade e a duração das respostas”, explica. Para ele, a ideia central é simples: “Os medicamentos não agem, eles interagem.”

Na cardiologia, bloquear receptores não significa enfraquecer o coração. “Os betabloqueadores protegem o músculo cardíaco da estimulação excessiva da adrenalina, que a longo prazo é tóxica para o coração”, afirma Krieger.

O tratamento cardiovascular moderno é, em grande parte, uma estratégia de modulação.

“Em muitas doenças, o problema não é a falta de estímulo, mas o excesso. O papel do medicamento é restaurar o equilíbrio desses sinais”, diz Krieger

Como uma mesma molécula pode gerar efeitos distintos

A farmacologia moderna vai além da ideia de um medicamento para um único alvo. Daniela Trivella, pesquisadora do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio) do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP), aponta o crescente interesse por moléculas capazes de interagir com mais de um receptor, produzindo efeitos terapêuticos complementares.

“Isso não é necessariamente um problema. Em alguns casos, é justamente o que torna o fármaco mais eficaz”, afirma.

Um exemplo é a tirzepatida (conhecida pelo nome comercial Mounjaro), agonista dual aprovado para o tratamento do diabetes tipo 2 que atua em dois receptores com funções sinérgicas (os receptores GIP e GLP-1), resultando em maior eficácia e menores efeitos adversos em comparação às terapias anteriores, segundo os estudos disponíveis até agora.

Trivella reforça que efeitos indesejados não podem ser generalizados por classe terapêutica. “O que determina os efeitos adversos não é a área em que o remédio é usado, mas a própria molécula e a forma como ela interage com o organismo”, diz a pesquisadora.

“Há fármacos muito seletivos, que atuam em um único receptor, com poucos efeitos indesejados; isso é o que se busca geralmente, por promover melhor controle da ação do fármaco — e outros que se ligam a múltiplos sistemas, às vezes de forma benéfica, às vezes não.”

“Desenvolver um medicamento envolve química, biologia, medicina e, cada vez mais, ferramentas computacionais. É um processo contínuo de aprendizado, inclusive depois que o fármaco chega ao mercado”, explica Trivella.

Como os medicamentos ‘conversam’ com as células

Para Sérgio Araújo, doutor em bioquímica e docente de Farmacologia no Departamento de Farmácia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), entender o que significa “agir no receptor” ajuda a desfazer mitos sobre medicamentos.

“Na prática, o fármaco se liga a uma proteína específica na superfície ou no interior da célula e envia um sinal. Ele reorganiza sinais que já fazem parte da fisiologia da célula”, explica.

Essa ligação ocorre por forças intermoleculares que alteram a estrutura tridimensional do receptor, iniciando ou interrompendo cascatas de sinalização no interior celular.

A metáfora clássica da chave e da fechadura ainda ajuda a explicar a especificidade, mas já não descreve completamente o processo. Receptores são estruturas dinâmicas, capazes de assumir diferentes conformações. “A chave não apenas entra na fechadura; ela molda o receptor”, diz Araújo.

É por isso que diferentes fármacos podem se ligar ao mesmo receptor e gerar respostas biológicas distintas: ligação e ativação são fenômenos separados.

“O organismo responde ao estímulo contínuo, ajustando a sensibilidade dos receptores. Por isso, dose, tempo de uso e indicação correta são decisivos para a eficácia e a segurança do tratamento”, explica Araújo.

Agonistas parciais, seletividade e os limites do uso indiscriminado

Além dos agonistas e antagonistas clássicos, existe uma terceira categoria relevante: os agonistas parciais. Eles ativam o receptor sem produzir resposta máxima, funcionando como um regulador fino — estimulam quando há pouca atividade, reduzem quando há excesso.

Esse mecanismo é especialmente útil em psiquiatria e no tratamento de dependências. A buprenorfina, por exemplo, é usada no manejo da dependência de opioides: ativa os receptores de forma parcial, aliviando a abstinência sem provocar o efeito de euforia intensa associado aos opioides plenos.

Na psiquiatria, o aripiprazol age pelo mesmo princípio no tratamento de esquizofrenia e transtorno bipolar: estimula os receptores dopaminérgicos quando há déficit e os modera quando há excesso, reduzindo o risco de efeitos como a discinesia tardia, comum em antipsicóticos mais antigos.

Outro ponto central é a seletividade. Medicamentos pouco seletivos tendem a produzir efeitos indesejados em órgãos que não são o alvo do tratamento.

Por isso, a farmacologia contemporânea investe em modelagem molecular e inteligência artificial para desenvolver moléculas cada vez mais precisas.

Isso inclui os anticorpos monoclonais, proteínas produzidas em laboratório para reconhecer um único alvo molecular com alta especificidade. É o caso do trastuzumabe, usado no tratamento do câncer de mama HER2-positivo, e do adalimumabe, indicado para doenças inflamatórias como artrite reumatoide e doença de Crohn.

Apesar dos avanços, os especialistas alertam para os riscos do uso inadequado. O uso crônico ou sem indicação pode levar o organismo a reduzir o número de receptores disponíveis, um processo chamado de down-regulation, gerando tolerância e efeito rebote.

Em casos mais graves, erros de dosagem e automedicação podem provocar arritmias, alterações profundas no sistema nervoso central e eventos fatais.

Para onde caminha a farmacologia

Trivella, do CNPEM, destaca que os avanços da área apontam para maior precisão terapêutica. “A farmacologia está deixando de atuar apenas no liga-desliga dos receptores e passando a modular respostas específicas”, explica.

Com o apoio da inteligência artificial e de novas estratégias de desenho molecular, dia ela, a tendência é o desenvolvimento de terapias cada vez mais seletivas e personalizadas.

Araújo, por sua vez, insiste no papel dos parâmetros clínicos. “O organismo responde ao estímulo contínuo, ajustando a sensibilidade dos receptores. Por isso, dose, tempo de uso e indicação correta são decisivos para a eficácia e a segurança do tratamento”, pontua o professor da UFRN.

Entender como agonistas e antagonistas funcionam é compreender que os medicamentos são chaves químicas que conversam com as células — ajustando, quando bem utilizadas, o ritmo da vida.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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