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Citações em diretrizes clínicas nem sempre refletem o real impacto das pesquisas
Estudo identifica padrões ocultos e simbólicos de citação que distorcem a medição do impacto científico em políticas de saúde
Citações formais em documentos oficiais podem superestimar ou invisibilizar o real papel de uma pesquisa na formulação de políticas de saúde | Imagem:
No meio acadêmico, contar citações virou sinônimo de medir impacto. A lógica é simples: se um estudo é citado, significa que influenciou outros pesquisadores. O mesmo raciocínio foi levado ao campo das políticas públicas: referências a artigos científicos em diretrizes clínicas passaram a ser tratadas como evidência de impacto social da ciência.
No entanto, um novo estudo desenvolvido por um grupo internacional de pesquisadores da Alemanha, da Dinamarca e dos Países Baixos sugere que essa relação é mais complexa do que parece. Publicado em fevereiro na revista Research Policy, o trabalho criou uma ferramenta de processamento de linguagem natural para analisar diretrizes clínicas sobre diabetes e identificar menções a artigos científicos.
Esses documentos são essenciais na tomada de decisão baseada em evidências para diagnóstico, tratamento e manejo de doenças. Em geral, são elaborados por grupos nacionais e internacionais sob a coordenação de organismos como a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Três formas de citar, três funções distintas
Os pesquisadores identificaram três padrões de citação a artigos científicos em diretrizes clínicas:
- Citação com atribuição textual: o artigo é formalmente referenciado e suas conclusões embasam as recomendações do documento. É o padrão com maior associação a impactos concretos na prática clínica e na vida dos pacientes.
- Citação simbólica: o estudo aparece nas referências, mas não influencia diretamente o conteúdo das diretrizes. Tende a conferir credibilidade científica ao documento ou a reconhecer atores influentes no campo.
- Citação oculta: a pesquisa orienta as recomendações, mas não é formalmente citada. Pode ocorrer por ser considerada conhecimento consolidado, por cortes editoriais ou pelo uso de estudos ainda não publicados.
Ao analisar esses padrões em detalhe, a equipe verificou que eles se relacionam de formas distintas com as características dos artigos e das diretrizes, sugerindo funções diferentes para os estudos dentro desses documentos.
“Pressões institucionais influenciam não apenas se a evidência é adotada, mas também como esse uso aparece — ou deixa de aparecer — nos documentos oficiais”, dizem os autores do estudo.
Credibilidade versus utilidade
Citações com atribuição textual estavam fortemente associadas a impactos concretos na vida dos pacientes e nas práticas de saúde. As demais, em especial as simbólicas, refletiam sobretudo o impacto acadêmico dos artigos, funcionando como sinalizadores de prestígio, não de relevância prática.
Já as citações ocultas apontam para evidências de alta relevância clínica: pesquisas que orientam decisões sem aparecer nas referências, seja por serem tratadas como conhecimento consolidado, seja por cortes editoriais nas listas bibliográficas. Em alguns casos, são estudos ainda não publicados ou de circulação restrita, mas já incorporados à prática.
Os autores também observaram que estudos de pesquisa básica raramente apareciam como citações ocultas e costumavam levar mais tempo para embasar recomendações clínicas. Apenas pesquisas básicas com alto número de citações na literatura acadêmica eram usadas de forma simbólica nas diretrizes.
Para aprofundar a interpretação dos resultados, os autores entrevistaram responsáveis pela elaboração de diretrizes clínicas de alto nível na área do diabetes. Os relatos indicam que comitês às vezes incluem citações simbólicas para atender a expectativas de abrangência ou para reconhecer atores influentes, mesmo quando o estudo citado não orienta diretamente as recomendações.
Prazos apertados e atrasos na atualização das diretrizes também podem favorecer o uso informal de evidências que ainda aguardam publicação.
Implicações para o financiamento da ciência
Os resultados têm implicações diretas para os sistemas de avaliação e financiamento que medem impacto com base em citações e registros formais de engajamento.
“Esses critérios podem não captar formas menos visíveis de uso da pesquisa, como as citações ocultas, e ainda superestimar o impacto social de determinados estudos”, dizem os pesquisadores.
Artigos publicados em periódicos de alto impacto ou assinados por autores influentes, por exemplo, podem ser citados para conferir credibilidade a um documento sem necessariamente orientar sua elaboração, um viés que os indicadores tradicionais de impacto não capturam.
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