SOBRE
#Notícias
09.02.2026 Saúde Pública

Crise climática eleva mortalidade materna e neonatal na África 

Ondas de calor e chuvas extremas agravam riscos na gestação e expõem fragilidades dos sistemas de saúde em regiões vulneráveis

Área residencial precária alagada, com casas simples, roupas penduradas para secar e cadeiras de plástico parcialmente submersas. A cena evidencia os impactos de enchentes e condições sanitárias frágeis no cotidiano da população Ondas de calor e inundações na República Democrática do Congo, na África, impactam a saúde materna e neonatal, indica estudo | Imagem: Wikimedia Commons

Eventos climáticos extremos, como ondas de calor e chuvas intensas fora do padrão histórico, estão associados ao aumento de mortes maternas, natimortos e óbitos neonatais na África.

É o que revela um estudo publicado no periódico Environment International, baseado na análise de 22,7 milhões de registros de nascimentos na República Democrática do Congo entre 2018 e 2023. 

A pesquisa avaliou dados do sistema nacional de informação em saúde DHIS2 (District Health Information System 2) e os cruzou com variáveis climáticas mensais de temperatura e precipitação, identificando associações estatisticamente significativas entre condições climáticas extremas e desfechos negativos para a saúde de gestantes e recém-nascidos.

Mesmo após ajustes para fatores espaciais e temporais, os impactos climáticos extremos continuam significativos. 

Calor acima de 34°C e risco para gestantes 

Entre os principais resultados da pesquisa, o estudo aponta que as temperaturas médias mensais superiores a 34 °C estão associadas a um aumento de 27,3 mortes maternas adicionais por 100.000 nascidos vivos a cada grau acima desse limiar.

O risco de natimortos também cresce significativamente: cerca de 2,3 óbitos fetais adicionais por 1.000 nascimentos para cada grau acima de 34°C. 

“Nossa descoberta de que as associações entre temperatura e precipitação foram mais fortes com natimortos e mortalidade materna, do que com mortalidade neonatal, sugere que a exposição ao calor como fator ambiental direto parece ter menor consequência após a sobrevivência da mãe e do bebê ao parto”, afirmam os pesquisadores. 

Os autores do estudo explicam que o calor intenso aumenta mais o risco de natimortos e de mortalidade materna do que o risco para bebês recém-nascidos, mostrando que o perigo é maior antes e durante o parto.

Com o aumento previsto de 1°C a 2,5°C na temperatura média na República Democrática do Congo até 2050, os meses com calor acima de 34°C serão mais frequentes, elevando a probabilidade de natimortos e mortes maternas caso não haja ações de adaptação e reforço do sistema de saúde

Chuvas anômalas: volumes fora do padrão histórico 

Chuvas anômalas são aquelas que se afastam da média histórica, seja para mais ou para menos, resultando em precipitações muito acima do esperado, como chuvas intensas e alagamentos – ou muito abaixo, como períodos de seca

No estudo, a precipitação intensa e fora do padrão histórico apresentou efeito ainda mais expressivo do que o calor extremo.

Os meses com volumes de chuva acima do percentil 95, classificados como eventos extremos, estiveram associados a um aumento de aproximadamente 120 mortes maternas por 100.000 nascidos vivos, superando o impacto observado para temperaturas elevadas. 

A caracterização dessas anomalias pluviométricas pode ser feita por meio do Índice de Anomalia de Chuva (IAC), que compara a precipitação observada com a média climatológica de 30 anos da região.

O índice identifica desvios positivos ou negativos em relação ao padrão histórico, permitindo classificar períodos de seca ou excesso de chuva.

Ferramentas como o IAC são essenciais para definir com precisão eventos hidrológicos extremos e compreender seus impactos sobre a saúde materna e neonatal. 

Por que o clima afeta a saúde materna? 

Os impactos do calor e das chuvas intensas ocorrem por mecanismos diretos e indiretos. Durante a gestação, alterações fisiológicas, como o aumento da massa corporal, mudanças no metabolismo placentário e a redução da resistência vascular sistêmica, dificultam a termorregulação materna.

A exposição ao calor pode causar estresse oxidativo, um desequilíbrio no organismo, reduzindo o fluxo sanguíneo uterino e ativando respostas inflamatórias e neuroendócrinas.

Isso aumenta o risco de complicações como hipertensão gestacional, diabetes, descolamento prematuro da placenta e morbidade materna grave.

Os impactos ambientais, como ondas de calor e inundações, na saúde materna e neonatal podem ser diretos, relacionados à fisiologia da gravidez, ou indiretos, refletindo a acessibilidade a cuidados oportunos ou mudanças nas condições sociais. 

As chuvas intensas tendem a comprometer o acesso aos serviços de saúde, especialmente em regiões com infraestrutura precária.

Estradas intransitáveis, dificuldades de transporte até unidades de parto, escassez de água potável, insegurança alimentar e maior exposição a doenças infecciosas agravam os riscos para gestantes e recém-nascidos.

A malária, por exemplo, é mais comum em períodos chuvosos e está associada ao aumento da mortalidade materna, de natimortos e de óbitos neonatais. 

Vulnerabilidade social amplifica impacto climático 

Os pesquisadores explicam que o clima afeta de maneira desigual populações com diferentes níveis de vulnerabilidade.

Gestantes de baixa renda, residentes em áreas rurais, com menor escolaridade ou que realizam atividades agrícolas e trabalhos ao ar livre, enfrentam riscos significativamente maiores.

Na República Democrática do Congo, a estação chuvosa coincide com períodos de intenso trabalho no campo, quando muitas mulheres continuam a realizar esforço físico elevado enquanto recebem menos apoio familiar. 

A pesquisa indica que mesmo que cerca de 80% dos partos ocorram em unidades de saúde no país, muitas gestantes enfrentam atrasos no acesso à assistência adequada.

Além disso, fatores como insegurança, violência, deslocamento interno e doenças crônicas reduzem a capacidade de adaptação ao estresse térmico e às condições ambientais adversas. 

Fotografia em preto e branco de uma mulher grávida sentada em uma cadeira de vime, com as mãos apoiadas sobre a barriga em gesto de cuidado. A composição em close mostra o torso da gestante, evidenciando a barriga proeminente coberta por uma blusa clara. Ao fundo, folhagens desfocadas sugerem um ambiente doméstico com plantas, transmitindo uma atmosfera de intimidade e espera
Eventos climáticos extremos na África estão associados ao aumento de mortes maternas e neonatais, revelando fragilidades dos sistemas de saúde | Imagem: Unsplash

Impactos do clima podem se intensificar nas próximas décadas 

As projeções climáticas indicam que a temperatura média na região pode aumentar entre 1°C e 2,5°C até 2050.

Esse cenário ampliaria o número de meses com temperaturas acima de 34°C, elevando ainda mais os riscos de mortes maternas e natimortos associados ao calor, caso medidas de adaptação não sejam implementadas. 

O estudo também destaca o potencial do uso integrado de dados climáticos e de saúde pública.

Os dados do DHIS2 oferecem uma oportunidade acessível e robusta para avaliar as associações entre clima extremo e desfechos de saúde materna e neonatal em nível nacional, como demonstrado na análise da República Democrática do Congo.  

No Brasil, embora o principal sistema de informação de saúde seja o DATASUS (Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde), complementado pelo e-SUS APS (Atenção Primária à Saúde) na atenção primária, o DHIS2 também é utilizado como ferramenta de gestão e análise de dados agregados e individuais.

Ele sustenta diversas atividades do Sistema Único de Saúde (SUS), incluindo vigilância epidemiológica, gestão de programas de saúde, análise e visualização de dados, monitoramento e avaliação, integração de dados e elaboração de relatórios para doadores e parceiros.

Essa plataforma permite transformar dados brutos em informações acionáveis, apoiando o planejamento, a tomada de decisão e a avaliação de políticas de saúde, e pode ser usado para analisar os efeitos das mudanças climáticas sobre a saúde materna e neonatal, subsidiando estratégias direcionadas e eficazes. 

Estratégias para reduzir riscos e proteger gestantes 

Os autores da pesquisa defendem a adoção urgente de estratégias de adaptação, incluindo:

Também são necessárias intervenções no ambiente construído, como sombreamento, arborização e melhoria da ventilação domiciliar, que podem reduzir os impactos do calor – embora ainda sejam pouco avaliadas em países de baixa e média renda. 

Outros ajustes no ambiente construído foram propostos, mas ainda não avaliados em relação aos desfechos de saúde materna, como o plantio de árvores, o aumento da ventilação domiciliar e a melhoria do acesso à água. 

De acordo com os pesquisadores, os programas existentes voltados para a saúde materna e neonatal devem explorar oportunidades para proteger as mulheres dos efeitos do calor e se comprometer com a avaliação desses programas para aprimorar abordagens eficazes. 

Segundo os pesquisadores, diante da necessidade urgente de melhorar os resultados de saúde materna e neonatal frente às mudanças projetadas na temperatura e na precipitação, é essencial analisar a infraestrutura de dados disponíveis e avaliar associações climáticas, para compreender como os extremos de calor e as chuvas podem comprometer o progresso em saúde materna e perinatal ao nível populacional.

A construção de uma base de evidências com dados de regiões tropicais pode subsidiar políticas públicas mais eficazes, alertam os autores.

Eles ressaltam que mais investigações são necessárias para avaliar os impactos diretos e indiretos de precipitações intensas e ondas de calor, incluindo estratégias que garantam o acesso a serviços essenciais de saúde. Abordagens qualitativas podem ajudar a identificar mecanismos subjacentes e definir formas adequadas de mitigar riscos.

Além disso, enfatizam a importância de identificar e testar intervenções que protejam gestantes expostas a temperaturas extremas e chuvas intensas, adaptando medidas específicas a cada contexto.

Até o momento, poucas avaliações em países de baixa e média renda documentaram efeitos sobre os desfechos de saúde materna e neonatal em situações de calor extremo ou precipitação anômala. 

A pesquisa reforça que as mudanças climáticas não são uma ameaça futura ou abstrata: elas já afetam diretamente a saúde de mulheres e recém-nascidos em contextos de alta vulnerabilidade social e ambiental. Integrar evidências climáticas às políticas de saúde materna e neonatal é fundamental para proteger vidas em um mundo cada vez mais quente e instável. 

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

Notícias

0 Comentários
Oldest
Newest Most Voted
Inline Feedbacks
View all comments
Receba nossa newsletter

Newsletter

Receba nossos conteúdos por e-mail. Preencha os dados abaixo para assinar nossa newsletter

Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!
Cadastre-se na Newsletter do Science Arena