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10.04.2026 Saúde Coletiva

DATASUS: por que o Brasil coleta tantos dados em saúde — mas ainda decide pouco com eles

Bases abertas colocam o Brasil como referência global, mas fragmentação e lacunas dificultam transformar informação em decisões de saúde.

Mulher com cabelos presos e blusa vinho recebe atendimento com acesso venoso no braço esquerdo em unidade de saúde. Ela segura um celular azul com a mão direita. Ao fundo, outras pessoas sentadas recebem atendimento e uma profissional de blusa roxa circula pelo espaço amplo e bem iluminado. O DATASUS desenvolve dados de saúde desde 1991 e já registrou mais de 13 milhões de internações hospitalares em um único ano, mas a fragmentação entre suas bases ainda limita o uso estratégico das informações| Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O Brasil mantém uma das mais abrangentes infraestruturas públicas de dados em saúde. Qualquer pessoa pode acessar, sem cadastro ou autorização, informações sobre mortalidade, nascimentos, internações e notificações de doenças no país. 

Reunidas pelo DATASUS — Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde, vinculado ao Ministério da Saúde —, essas bases alimentam pesquisas que analisam políticas públicas e padrões de atendimento no SUS. Transformar esse volume de informação em decisões concretas de gestão, porém, ainda é um desafio.

Criado em 1991, o DATASUS reúne e padroniza dados enviados por estados e municípios. Em seus 34 anos de operação, o departamento desenvolveu mais de 440 sistemas de informação que apoiam diretamente a gestão federal, estadual e municipal do SUS. 

Apenas em 2023, o sistema registrou 13,067 milhões de internações hospitalares e 5,705 milhões de cirurgias — um retrato da escala de produção assistencial que o DATASUS captura mensalmente. 

As declarações de óbito e de nascidos vivos superam 95% de cobertura no país, o que permite comparações entre regiões. 

“A gente consegue unificar tudo isso no mesmo sistema, independentemente de o bebê ter nascido no sistema público ou privado”, explica Alexandre Chiavegatto Filho, professor de Machine Learning em Saúde na Universidade de São Paulo (USP) e diretor do Laboratório de Big Data e Análise Preditiva em Saúde (LABDAPS)

“Os dados do DATASUS são referência mundial. Em um país como o Brasil, com a diversidade e o tamanho que a gente tem, é impressionante a qualidade dos nossos dados em saúde”, afirma Chiavegatto Filho.

Hospitais, unidades básicas, serviços ambulatoriais e equipes de vigilância alimentam bases como o Sistema de Informações Hospitalares (SIH/SUS), o Sistema Ambulatorial (SIA/SUS) e o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). 

Após consolidação e validações técnicas, os dados anonimizados são disponibilizados em plataformas abertas como o TabNet. “O acesso é livre, o que não é uma realidade na maioria dos países”, afirma Chiavegatto.

A partir dessas bases, pesquisadores constroem indicadores, identificam desigualdades regionais e avaliam padrões de atendimento. A análise, no entanto, encontra limites estruturais no próprio design do sistema. 

Embora registre eventos — internações, procedimentos, óbitos —, o DATASUS não organiza automaticamente essas informações em trajetórias clínicas. Para transformar números em evidência sobre qualidade do cuidado ou eficiência do gasto, é preciso cruzar bases distintas e lidar com lacunas de preenchimento.

Dificuldades para uso estratégico dos dados

Um dos principais entraves é a fragmentação entre as bases de dados, que operam de forma paralela e com regras distintas de preenchimento. A lacuna foi identificada em estudo do Centro de Estudos e Promoção de Políticas de Saúde (CEPPS), do Einstein Hospital Israelita, publicado nos Cadernos de Gestão Pública e Cidadania em 2025. 

Ao analisar a produção cirúrgica registrada nos sistemas ambulatorial (SIA) e hospitalar (SIH), os pesquisadores encontraram problemas de completude, confiabilidade e especificidade.

Em 2023, 76,6% das cirurgias ambulatoriais foram registradas sem código CID-10 — a Classificação Internacional de Doenças, que identifica o diagnóstico associado ao procedimento. 

No sistema hospitalar, 10,6% das cirurgias apareceram registradas como procedimentos múltiplos, sem detalhamento individualizado. Segundo os autores, essas inconsistências dificultam análises assistenciais e gerenciais e limitam a organização do SUS em redes de atenção. 

“As bases não se conversam. Existem informações obrigatórias em um sistema que não são exigidas em outro”, afirma Lucas Hernandes Corrêa, pesquisador do CEPPS/Einstein.

A discrepância impede vincular procedimentos à condição que os motivou. Mesmo no sistema hospitalar, onde o CID é obrigatório, parte das cirurgias é registrada como procedimento múltiplo ou sequencial, sem detalhes suficientes para identificar o que foi realizado. 

Para gestores, pesquisadores e auditores do SUS, o efeito prático é direto: “A gente não faz ideia de quais cirurgias foram feitas naquele paciente. Isso dificulta avaliar se eram indicadas ou se a remuneração está adequada”, diz Corrêa.

Mais desafios

Outra limitação é a impossibilidade de acompanhar a trajetória de um mesmo paciente ao longo do sistema. Não é possível saber, por exemplo, se um bebê que nasceu com baixo peso voltou a ser internado semanas depois, ou se uma gestante que realizou consultas pré-natais teve complicações no parto.

Sem essa linha do tempo individual, é mais difícil estabelecer relações entre fatores de risco, intervenções e desfechos clínicos e aplicar modelos preditivos. “Os bancos são independentes entre si, o que é uma grande limitação, inclusive para o uso de algoritmos de inteligência artificial”, explica Chiavegatto. 

“Se a gente tivesse esse tipo de dado, os algoritmos conseguiriam aprender as características que fazem um bebê ir a óbito e estimar uma probabilidade de risco, por exemplo.”

Ausência de canais formais dificulta incorporação de evidências à gestão

Mesmo quando os dados permitem identificar padrões assistenciais, a tradução dessas evidências em decisões de gestão não é automática. No CEPPS, por exemplo, um estudo em andamento examina as cirurgias para retirada de vesícula biliar (colecistectomia), procedimento de alta prevalência no SUS. 

Embora haja evidências consolidadas de que a técnica por laparoscopia esteja associada a melhores desfechos e menor tempo de permanência hospitalar, os dados indicam que a maioria das cirurgias ainda é realizada por via aberta.

“O DATASUS mostra que a gente ainda está longe da melhor prática assistencial, que seriam as cirurgias por vídeo. E isso faz com que a gente não entregue o melhor resultado para os pacientes”, diz Corrêa, do Einstein. 

“A gente pode estar pagando menos para cirurgia aberta, porque ela tem um valor menor, mas, ao mesmo tempo, gerando um custo que não necessariamente conseguimos enxergar.”

O caso ilustra outro desafio: a ausência de canais institucionais consolidados para que resultados de pesquisas sejam incorporados à gestão. Corrêa afirma que ainda não há metodologia estruturada para levar sistematicamente essas evidências aos tomadores de decisão. 

“O que tem acontecido é que os médicos envolvidos nessas pesquisas têm levado esses resultados para as sociedades médicas e outras instituições que de alguma forma discutem política pública, mas por esse viés mais técnico e assistencial, não pelo viés da gestão”, diz.

Em emergências e políticas estruturantes, dados orientam decisões

Ainda assim, há situações em que o uso das bases se tornou central para decisões administrativas. Um exemplo foi a pandemia de Covid-19, quando dados sobre a evolução diária de internações e óbitos embasaram decisões sobre abertura de leitos, restrições de circulação e alocação de recursos. 

“O número de óbitos e de internações foi um motivador muito grande para as medidas de controle da Covid-19. De uma semana para a outra, esses dados tiveram impacto direto no enfrentamento à pandemia”, afirma Chiavegatto, da USP.

Normas recentes também têm reforçado o vínculo entre financiamento e registro da produção assistencial. Em dezembro de 2025, a Portaria GM/MS nº 9.037 condicionou o monitoramento da execução dos recursos de emendas parlamentares para custeio da atenção especializada ao registro da produção em sistemas como o SIA e o SIH. 

Na prática, hospitais e serviços que não registrarem adequadamente os procedimentos realizados poderão ter seus repasses comprometidos, tornando o preenchimento correto das bases uma condição direta de financiamento.

Indicadores consolidados, por sua vez, orientam políticas estruturantes. Segundo Chiavegatto, o coeficiente de mortalidade infantil é um dos mais sensíveis da área da saúde, pois tende a refletir rapidamente desestruturações no sistema, como fechamento de maternidades, falhas no saneamento ou insegurança alimentar. 

“Todas as secretarias usam majoritariamente os dados do DATASUS como subsídio para tomada de decisão”, diz.

Em nota ao Science Arena, o Ministério da Saúde afirmou que vem adotando medidas para qualificar e integrar as informações nacionais, como o fortalecimento da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) e a implementação do programa SUS Digital, e que considera a produção científica e o acompanhamento das bases do SUS estratégicos para o aprimoramento das políticas públicas.

Conheça as principais bases do DATASUS

1. SIM — Sistema de Informações sobre Mortalidade: registra todas as declarações de óbito do país. Cobertura superior a 95% no território nacional. É a principal fonte para o cálculo de indicadores como a taxa de mortalidade infantil.

    2. SINASC — Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos: registra nascimentos, com dados sobre gestação, parto e condições do recém-nascido. Também com cobertura acima de 95%.

    3. SIH/SUS — Sistema de Informações Hospitalares: registra internações em hospitais públicos e conveniados ao SUS, coletando mais de 50 variáveis por internação — de diagnósticos a procedimentos e tempo de permanência. Em 2023, registrou 13,067 milhões de internações.

    4. SIA/SUS — Sistema de Informações Ambulatoriais: registra procedimentos realizados fora do ambiente hospitalar, como consultas e cirurgias ambulatoriais. Em operação desde 1994.

    5. SINAN — Sistema de Informação de Agravos de Notificação: registra doenças de notificação compulsória, como dengue, tuberculose e HIV.

    6. TabNet: plataforma de acesso aberto que permite consultar e tabular dados de todas as bases acima, sem necessidade de cadastro ou autorização.

    * É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
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