
Localização influencia produtividade de cientistas nas ciências da vida
Pesquisadores que migram para instituições com maior desempenho tendem a publicar mais, aponta análise com milhares de cientistas dos EUA

Mais de 50% da produtividade de cientistas da área de ciências da vida pode ser atribuída à instituição em que atuam, segundo estudo publicado em julho no repositório do National Bureau of Economic Research (NBER), nos Estados Unidos.
No trabalho, os economistas Amitabh Chandra e Connie Xu, ambos da Universidade Harvard, analisaram dados de cerca de 300 mil cientistas vinculados a instituições de ensino e pesquisa estadunidenses, com artigos publicados entre 1945 e 2023.
Concluíram que pesquisadores de instituições localizadas na região de Boston, em Massachusetts, apresentavam maior produtividade, publicando de duas a três vezes mais artigos por ano do que colegas de outras regiões metropolitanas.
Eles também observaram que, ao se transferirem de uma instituição menos produtiva para outra com desempenho médio superior, os cientistas tendiam a aumentar sua própria produtividade.
Fatores institucionais permanecem indefinidos
Os autores não conseguiram identificar com precisão quais características institucionais estariam relacionadas ao aumento da produtividade. No entanto, levantam a hipótese de que isso possa estar ligado a recursos, infraestrutura laboratorial e à presença de estudantes de pós-graduação.
Pesquisas anteriores reforçam essa ideia: docentes de universidades de ponta nos Estados Unidos atuando em áreas em que a colaboração e a coautoria são comuns tendem a ser mais produtivos. É o que sugere artigo publicado em 2022 na revista Science Advances.
Ou seja, seria o trabalho coletivo que impulsiona a produtividade dos cientistas, e não exatamente características inerentes às instituições.
Produtividade versus equidade no fomento científico
O estudo publicado no repositório do NBER se insere em um debate político que já dura décadas nos Estados Unidos: como distribuir os recursos federais de fomento à pesquisa?
Os financiadores devem buscar maximizar a produção científica — o que levaria à concentração de verbas em poucas instituições de elite — ou distribuir os recursos de forma mais ampla?
A pesquisa de Chandra e Xu evidencia as vantagens de priorizar as instituições mais produtivas:
“Se os financiadores tiverem de escolher entre dois pesquisadores igualmente produtivos, sendo que um deles está em uma instituição cuja produção média é o dobro da outra, poderão obter mais de 50% de retorno adicional ao priorizar o cientista da instituição mais produtiva”, sugerem os autores do estudo.
Concentração de recursos reforça desigualdades históricas
Alguns pesquisadores argumentam que as instituições de elite poderiam tornar seus cientistas mais produtivos justamente por receberem grandes volumes de apoio à pesquisa ao longo de muitas décadas — e que destinar recursos a elas desproporcionalmente apenas refletiria as desigualdades históricas que criaram essas diferenças.
Atualmente, cerca de 94% do orçamento dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), principal agência de pesquisa biomédica dos Estados Unidos, é destinado a pesquisadores de apenas 27 estados norte-americanos.
No entanto, evidências sugerem que, quando as bolsas são concedidas a pesquisadores de estados menos financiados, eles também são produtivos e publicam artigos de qualidade.
Um estudo de 2023, publicado na revista PLOS One, verificou que, em estados com menos financiamento, a comunidade científica publica mais artigos e recebe mais citações por milhão de dólares em financiamento federal do que aquelas em estados com maior apoio.
Iniciativas tentam corrigir desequilíbrios regionais
Chandra e Xu reconhecem que é perfeitamente válido basear as decisões de financiamento em prioridades que vão além da produção científica, como reduzir as desigualdades na distribuição de recursos.
Os NIH adotaram algumas medidas para tentar atender a essas e outras preocupações. Em janeiro, modificaram seus procedimentos de avaliação de bolsas visando reduzir o peso atribuído à expertise do pesquisador e aos recursos da instituição, priorizando a qualidade da proposta em si.
Tanto os NIH quanto a National Science Foundation (NSF) também mantêm, há anos, dois programas —Institutional Development Award (IDeA) e Established Program to Stimulate Competitive Research (EPSCoR)— que destinam parte de seus orçamentos a projetos desenvolvidos em estados que tradicionalmente recebem menos financiamento.
Contudo, diante da possibilidade de cortes orçamentários expressivos na atual administração do presidente Donald Trump, cresce a preocupação com o futuro dessas iniciativas.
*
É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).