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Países Baixos criam agência de inovação nos moldes da Darpa americana

Nova instituição prevê 500 milhões de euros para P&D de alto risco e pretende preencher o “vale da morte” entre pesquisa e mercado

Fotografia externa do complexo Binnenhof, sede do parlamento dos Países Baixos, em Haia. O conjunto arquitetônico histórico de tijolos escuros e telhados em estilo gótico holandês é visto às margens do lago Hofvijver, com uma fonte ao centro da água. Novo governo dos Países Baixos comprometeu-se a criar a NADI, agência inspirada no modelo da Darpa americana, para financiar projetos de alto risco | Imagem: CEphoto/Uwe Aranas

O governo dos Países Baixos comprometeu-se a criar uma agência de inovação nos mesmos moldes da Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa dos Estados Unidos (Darpa). No começo de 2026, uma coalizão de três partidos liderada por Rob Jetten, chefe do partido centrista D66, apresentou seu plano de governo e confirmou a intenção de instituir a chamada Agência Nacional para Inovação Disruptiva (NADI).

A proposta baseia-se em um conjunto de recomendações feitas por Peter Wennink, ex-CEO da ASML, empresa holandesa de alta tecnologia e líder no fornecimento de máquinas de fotolitografia para a indústria global de semicondutores. Em dezembro, ele publicou um relatório abrangente alertando que, “em tempos de tensões geopolíticas, rápidos avanços tecnológicos e crescente pressão sobre os serviços públicos, os Países Baixos correm o risco de ficar para trás”. Segundo ele, “somente investimentos direcionados e oportunos podem garantir que continuaremos a financiar serviços públicos essenciais e a assegurar a prosperidade das gerações futuras”.

Investimentos para viabilizar inovações

Para alcançar esses e outros objetivos, Wennink recomendou a criação de um Banco Nacional de Investimento, com capital inicial de pelo menos 10 bilhões de euros, e uma Agência Nacional para Inovação Revolucionária, com orçamento anual de 2 bilhões de euros. A ideia seria usar recursos públicos como alavanca para o investimento privado de forma mais eficaz. O novo acordo de coalizão neerlandês parece incorporar essas propostas: além de lançar uma instituição de investimento com apoio estatal e criar a NADI, irá retomar o Fundo Nacional de Crescimento (NGF) para impulsionar inovações disruptivas e oferecer um mercado inicial para esses produtos.

O governo neerlandês quer aumentar seu investimento em P&D para 3% do PIB nos próximos anos, e a NADI é vista como peça-chave para atingir esse objetivo. 

Apesar da sólida base científica, os Países Baixos enfrentam dificuldades para transformar conhecimento em inovação de grande escala. Muitas tecnologias promissoras ficam estagnadas no chamado “vale da morte”, entre a pesquisa e a aplicação prática. A NADI pretende preencher essa lacuna, com foco em projetos de alto risco e alto retorno voltados a problemas sociais complexos e capazes de gerar avanços tecnológicos.

A proposta da coalizão liderada por Jetten prevê 500 milhões de euros à futura nova agência para apoiar atividades de P&D de alto risco e alto impacto, incluindo aplicações na área de defesa, nos mesmos moldes da Darpa dos Estados Unidos.

Modelo inspirado na Darpa, dos EUA

Criada em 1958 com o objetivo de dar àquele país superioridade tecnológica em relação à extinta União Soviética, a Darpa foi muito além do mero financiamento de pesquisa básica: ajudou a direcionar recursos para áreas específicas, criando oportunidades e intermediando interações entre agentes públicos e privados envolvidos no processo de desenvolvimento tecnológico. A agência financiou a formação de departamentos de ciência da computação, apoiou startups com pesquisas iniciais, contribuiu para o desenvolvimento de semicondutores e supervisionou os primeiros estágios da internet, ajudando a estabelecer a indústria da informática nos anos 1960 e 1970.

A estratégia inspirou a criação de organizações semelhantes em todo o mundo, como a Agência Federal Alemã para Inovações Disruptivas (SPRIN-D), fundada em 2019 para financiar tecnologias de “deep tech” e inovações revolucionárias. Com orçamentos superiores a 220 milhões de euros, a agência funciona como um laboratório dinâmico para transformar ideias radicais em negócios, focando em áreas como saúde, energia e sustentabilidade.

Outro exemplo de sucesso é a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada e Inovação do Reino Unido (Aria), criada em 2023 para subsidiar pesquisas na fronteira do conhecimento com potencial de oferecer retorno sob a forma de descobertas inovadoras que resultem em novas tecnologias, produtos e serviços. O projeto consolidou-se em bases sólidas, tendo lançado nos últimos anos nove programas abrangendo áreas como segurança em inteligência artificial e biologia sintética, com investimentos da ordem de £ 400 milhões no ecossistema de P&D do Reino Unido.

A proposta é que a NADI funcione como uma organização independente. Para atrair talentos internacionais e fomentar a colaboração, adotará o inglês como idioma de trabalho, tendo liberdade para definir suas próprias políticas salariais para competir com instituições de pesquisa e empresas de tecnologia internacionais. 

Contará com um CEO e um CTO, além de diretores de inovação e pesquisadores associados. Os primeiros teriam autonomia para conceber e gerenciar programas, tomar decisões rápidas e alocar recursos. Já os pesquisadores associados, cientistas e engenheiros em início de carreira, seriam alocados de forma flexível em diversos programas.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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