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Pesquisadores brasileiros alertam G20 sobre “tríplice monotonia” que coloca sistema alimentar em colapso
Sistema que reduziu a fome no século 20 agora alimenta epidemia de obesidade e superbactérias, alertam cientistas
Trigo, milho, arroz, batata, soja e cana-de-açúcar respondem por 75% das calorias consumidas globalmente, criando um sistema alimentar vulnerável a crises climáticas e prejudicial à saúde | Imagem: Unsplash
A Força-Tarefa 4 do G20 da África do Sul — grupo dedicado ao cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável — incorporou em seu documento final o conceito de “tríplice monotonia”, um alerta sobre três crises interligadas no sistema alimentar global. A primeira crise é a dependência excessiva de poucas culturas agrícolas. A segunda envolve a produção intensiva de animais, que favorece o uso massivo de antibióticos. A terceira é a monotonia alimentar: o aumento do consumo de ultraprocessados com custos ocultos para a saúde.
O conceito foi proposto em documento de 2025 elaborado por pesquisadores da Cátedra Josué de Castro e do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), do Instituto Comida do Amanhã, do Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento (CIRAD), da França, e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Da Revolução Verde aos limites planetários
Os pesquisadores argumentam que a fome global diminuiu nas últimas seis décadas, mas essa conquista se apoiou em métodos de produção, formas de industrialização, políticas públicas e programas de pesquisa científica que já não correspondem às necessidades atuais. Ao contrário: extrapolam os limites planetários.
Um número decrescente de culturas vegetais responde por uma parcela crescente da produção agrícola mundial, intensificando a dependência do uso de água, fertilizantes nitrogenados e agrotóxicos.
Paralelamente, as criações intensivas de aves e suínos concentram grandes contingentes de animais em espaços reduzidos, favorecendo a disseminação de microrganismos. Para conter esse problema, produtores recorrem crescentemente ao uso massivo de antibióticos, uma dinâmica que pode levar ao surgimento de superbactérias resistentes aos tratamentos convencionais.
Seis culturas alimentam três quartos do mundo
Os efeitos desse sistema extrapolam o campo e se refletem diretamente na alimentação das populações, marcada por uma crescente monotonia.
Globalmente, 75% das calorias consumidas no mundo provêm de apenas seis culturas: trigo, milho, arroz, batata, soja e cana-de-açúcar.
Nesse contexto, os alimentos ultraprocessados se destacam com formulações industriais que oferecem uma diversidade artificial de cores e sabores, mas se baseiam em um número cada vez menor de espécies vegetais.
A redução da diversidade alimentar, o aumento do consumo de ultraprocessados e a erosão das culturas culinárias tradicionais compõem um quadro preocupante. Os impactos nutricionais, econômicos e sanitários se refletem no aumento da incidência de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e diferentes tipos de câncer.
Diante desse cenário, os pesquisadores recomendam ações prioritárias aos países do G20:
- Serviços ecossistêmicos na agricultura: governos e agentes financeiros devem fazer da provisão de serviços ecossistêmicos, como preservação de solos, ciclos de água e biodiversidade, componente central da oferta de produtos agrícolas.
- Regeneração de solos degradados: estabelecer metas claras para que a recuperação de terras hoje exauridas contribua para a segurança alimentar e nutricional.
- Redução no uso de antibióticos: definir objetivos quantitativos e sistemas transparentes de monitoramento para reduzir o uso de antibióticos na produção animal.
- Menos ultraprocessados, mais alimentos frescos: reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados e ampliar a ingestão de uma maior variedade de alimentos frescos e minimamente processados.
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