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Por que as mulheres avançam na ciência mas não chegam ao topo das academias
Pesquisa com 136 organizações revela que 60% têm políticas de equidade de gênero, mas menos de 10% têm orçamento para implementá-las
Mulheres representam 31% da força de trabalho científica global, mas apenas 19% dos membros das academias de ciência, aponta estudo do Conselho Internacional de Ciência | Imagem: Unsplash
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O que o estudo revelou
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1. Apenas 19% dos membros das academias científicas nacionais são mulheres, apesar de elas representarem 31% da força de trabalho científica global.
2. Mais de 60% das academias e das uniões científicas internacionais têm políticas formais de igualdade de gênero, mas menos de 10% das academias e apenas 30% das uniões destinam orçamento para implementá-las.
3. Mulheres são 4,5 vezes mais propensas do que homens a perder oportunidades profissionais por responsabilidades de cuidado.
4. Mulheres são 2,5 vezes mais propensas a relatar assédio dentro de organizações científicas — e expressam menor confiança nos mecanismos institucionais para denunciá-lo.
5. Não houve progresso nos últimos cinco anos na presença de mulheres nas presidências das academias nacionais — apenas 1 em cada 5 é liderada por uma mulher.
A presença de mulheres em academias de ciência e uniões científicas internacionais cresceu nos últimos dez anos, mas pouco, e ainda distante da paridade. Atualmente, elas representam, em média, 19% dos membros dessas instituições. Em 2015, eram 12%; em 2020, 16%. Segundo o estudo “Towards Gender Equality in Scientific Organizations: Assessment and Recommendations”, a representação feminina nas instituições analisadas varia de 2% a cerca de 40%, mas não alcança a paridade em nenhum caso.
A pesquisa foi conduzida pelo Conselho Internacional de Ciência (ISC), pelo Standing Committee for Gender Equality in Science (SCGES) e pela InterAcademy Partnership (IAP). Os três organismos analisaram respostas de 136 organizações científicas — academias de ciência e uniões científicas internacionais — sobre representação feminina em seus quadros, presença em posições de liderança e iniciativas de equidade. O estudo também coletou respostas individuais de cerca de 600 cientistas e realizou entrevistas qualitativas com representantes das organizações.
O trabalho partiu de um paradoxo já documentado: a presença feminina no ensino superior cresceu nos últimos anos, mas não se converteu em representação equivalente na força de trabalho científica nem em cargos de liderança acadêmica. Trata-se do leaky pipeline, fenômeno em que pesquisadoras abandonam a carreira científica à medida que sobem na hierarquia, mesmo quando a entrada é favorável.
Políticas sem orçamento
Os dados revelam um padrão: muitas iniciativas, pouco financiamento. Embora 62% das academias e 64% das uniões científicas internacionais afirmem ter iniciativas para reduzir a desigualdade de gênero, menos de 10% das academias e apenas 30% das uniões destinam orçamento para implementá-las.
O modelo de governança também influencia o resultado. Academias que usam comitês dedicados para eleger membros têm, em média, 34% de mulheres no quadro, o dobro das que realizam votação em assembleia geral, onde a média cai para 17%. Isso sugere que a barreira não está na seleção final, mas em quem chega a ser indicado.
Os dados do estudo são de respostas recebidas de forma voluntária, o que impõe limites à análise. A amostra não é representativa de todas as academias e uniões do mundo, pois a distribuição geográfica é desigual. Além disso, um indicador de problema está na própria coleta de dados das instituições analisadas, visto que muitas delas não coletam dados desagregados por gênero de forma sistemática.
As consequências da sub-representação vão além dos números. Mulheres são 4,5 vezes mais propensas do que homens a relatar que perderam oportunidades profissionais por responsabilidades de cuidado. São também 2,5 vezes mais propensas a relatar experiências de assédio dentro de organizações científicas e expressam menor confiança nos mecanismos institucionais para denunciá-lo.
Falta de progresso e o paradoxo brasileiro
Não houve progresso nos últimos cinco anos na presença de mulheres nas presidências das academias nacionais: atualmente, apenas 1 em cada 5 é liderada por uma mulher. Entre as uniões científicas internacionais, o índice é melhor: 40% são chefiadas por mulheres, mas ainda distante da paridade.
O estudo também identificou o que funciona. O Conselho Científico do Japão reformou seu processo de nomeação e chegou a 39% de mulheres no quadro, um dos índices mais altos entre todas as academias analisadas.
No Brasil, o paradoxo é ainda mais nítido. As mulheres já são maioria entre os titulados na pós-graduação: representam 57% das pessoas com título nesse nível, segundo o Plano Nacional de Pós-Graduação 2025-2029 e, ainda assim, ocupam apenas 43% das vagas no corpo docente.
A Academia Brasileira de Ciências (ABC), que participou do estudo do ISC, espelha esse cenário com precisão: dos 576 membros titulares, 107 são mulheres, 19% do total, índice idêntico à média global. A instituição teve sua primeira presidente mulher apenas em 2022, quando Helena Nader assumiu o cargo.
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