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18.03.2026 Diversidade

Reino Unido exige diversidade como critério para financiamento de pesquisas

Diretriz obriga cientistas a considerarem inclusão em todas as etapas dos estudos; especialistas pedem que revistas científicas sigam o mesmo caminho

Multidão de pessoas caminha por uma avenida urbana larga em dia ensolarado. Ao fundo, prédios comerciais, semáforos e calçadas. Diretriz do Reino Unido exige diversidade em pesquisas científicas, garantindo que grupos historicamente sub-representados sejam considerados em todas as etapas dos estudos | Imagem: Unsplash

O National Institute for Health and Care Research (NIHR), agência britânica de fomento à ciência, determinou recentemente que a inclusão será um critério essencial para a aprovação de financiamento de pesquisas. A exigência se aplica a todas as etapas do estudo, desde a formulação da pergunta de pesquisa até a divulgação dos resultados.

Historicamente, estudos científicos frequentemente ignoram grupos vulneráveis, reforçando desigualdades no acesso à saúde, segundo o site da agência. Como consequência, certos segmentos populacionais não são contemplados nos estudos, o que impede o desenvolvimento e teste de novos serviços e tratamentos para toda a sociedade.

Impacto na equidade em saúde

Essa falta de representatividade foi evidenciada em um estudo publicado na revista BMC Medicine, que analisou como a distribuição geográfica dos participantes afeta os resultados da pesquisa. O estudo comparou dados de recrutamento de participantes coletados entre 2013 e 2018 na Inglaterra com a prevalência de doenças crônicas, como asma, doenças cardíacas e câncer, além de doenças mentais e diabetes.

Os pesquisadores observaram uma variação significativa nas taxas de recrutamento em diferentes regiões, revelando uma discrepância entre a prevalência de doenças e o número de participantes desses locais nos estudos clínicos.

Questão de justiça

A pesquisa apontou que, em 15 redes locais de pesquisas clínicas, cerca de 12% do recrutamento deveria ter sido redistribuído para torná-lo proporcional à prevalência das doenças estudadas. Além disso, constatou-se que, em 25% das localidades, o recrutamento foi um quarto da média nacional, enquanto em 10% foi o dobro.

Os pesquisadores destacam que a ciência desempenha um papel crucial na redução das desigualdades, pois contribui para a melhoria da qualidade dos serviços de saúde e para o desenvolvimento de tratamentos e políticas públicas baseadas em evidências.

Um dos problemas da falta de representatividade é que pesquisas que priorizam populações com melhores condições de saúde podem não ser generalizáveis — e muitos estudos aplicados avaliam intervenções cujo impacto varia de acordo com a região.

“Por uma questão de justiça, pesquisas financiadas com fundos públicos deveriam ser acessíveis a todos, de forma que os benefícios sejam distribuídos de forma equânime”, dizem os autores do artigo.

Os autores também apontam que a especialidade e a estrutura das instituições de pesquisa influenciam na inclusão. Algumas instituições tendem a focar populações mais fáceis de recrutar, e a variação geográfica no recrutamento sugere que o principal fator é a capacidade regional de pesquisa, e não necessariamente o perfil da população estudada.

Publicação inclusiva

O tema da desigualdade na saúde vem sendo discutido em conferências da Royal Society of Medicine.

“Somos 51% da população, mas há pouca pesquisa com mulheres em idade reprodutiva que desenvolva novos tratamentos. Isso é absurdo.”
Lesley Regan, ginecologista e obstetra do Imperial College London

Outro problema é a exclusão de idosos. “É inaceitável excluir pessoas mais velhas por causa de um limite arbitrário de idade”, afirmou Lucy Chappell, diretora do (NIHR). “Qual é a base científica para se excluir pessoas acima de 80 anos?”, questionou.

Uma das soluções propostas para garantir maior diversidade nos estudos científicos é tornar a inclusão um critério obrigatório para publicação de artigos em revistas científicas.

John James, diretor da Sickle Cell Society, defendeu que editores rejeitem pesquisas que não representem a diversidade da população. “Muitos pacientes negros me perguntam como podem saber se pessoas como eles participaram dos ensaios clínicos e se o tratamento será efetivo e seguro para eles”, relata James.

A adoção de critérios mais rígidos para inclusão em pesquisas científicas pode ser um passo essencial para garantir que os avanços da ciência beneficiem a todos — e não apenas uma parcela privilegiada da população.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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