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	<title>#conhecimento tradicional | Science Arena</title>
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	<description>Science Arena - Ciências da saúde &#124; Para quem vê o mundo através da ciência</description>
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		<title>Sidarta Ribeiro: “Psicodélicos podem revolucionar clínica médica”</title>
		<link>https://www.sciencearena.org/entrevistas/sidarta-ribeiro-psicodelicos-podem-revolucionar-clinica-medica/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Daniel Punto Comunicação]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 28 Aug 2024 13:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[#conhecimento tradicional]]></category>
		<category><![CDATA[#medicina psicodélica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Neurocientista explica por que este campo de pesquisa abre oportunidades na saúde mental, na neurologia e na troca de saberes com povos originários</p>
<p>O post <a href="https://www.sciencearena.org/entrevistas/sidarta-ribeiro-psicodelicos-podem-revolucionar-clinica-medica/">Sidarta Ribeiro: “Psicodélicos podem revolucionar clínica médica”</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.sciencearena.org">Science Arena</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>“A ideia de que a saúde mental é algo que pode ser gerado por substâncias independentemente do contexto é um equívoco.” A afirmação é do neurocientista Sidarta Ribeiro, professor titular e cofundador do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).</p>



<p>Considerado um dos principais expoentes do chamado “renascimento psicodélico” (a retomada de estudos científicos para uso medicinal de substâncias psicodélicas), Sidarta Ribeiro defende que a nova onda de pesquisas nessa linha configura “uma revolução científica com potencial de se tornar também uma revolução clínica.”</p>



<p>Doutor pela Universidade Rockefeller com estágio de pós-doutorado na Universidade Duke, ambas nos Estados Unidos, Ribeiro publicou artigos em importantes periódicos científicos como <a href="https://neuro.ufrn.br/blog/index.php/2023/11/06/ciencia-psicodelica-e-xamanismo-indigena-necessitam-dialogar-propoe-neurocientista-sidarta-ribeiro-em-artigo-publicado-na-revista-nature-mental-health/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Nature Mental Health</a> e <a href="https://journals.plos.org/mentalhealth/article?id=10.1371/journal.pmen.0000028" target="_blank" rel="noreferrer noopener">PLoS Mental Health</a>, além da revista digital <a href="https://sumauma.com/coisas-da-nossa-gente-em-nossa-mente/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Sumaúma.</a> Esses trabalhos focam na ciência psicodélica e no uso terapêutico de substâncias tradicionalmente utilizadas por culturas originárias.</p>



<p>Sua pesquisa abrange diversas áreas, incluindo sono, sonhos, memória, aprendizado, comportamento animal, plasticidade neuronal, psiquiatria computacional, cannabis e psicodélicos.</p>



<p>Além de sua carreira científica, Ribeiro ganhou reconhecimento como escritor após a publicação de <em>O oráculo da noite</em> (2019), que explora a história e a ciência dos sonhos. Seu livro mais recente, <em>As flores do bem</em> (2023), aborda a história e a ciência da cannabis, combinando seu papel de cientista com o de divulgador e pensador da evolução científica.</p>



<p>Em entrevista ao <strong>Science Arena</strong>, o pesquisador discute a evolução da ciência psicodélica e suas aplicações terapêuticas. Aborda questões cruciais que surgem com o avanço desses conhecimentos e práticas, considerando os impactos para pesquisadores, profissionais de saúde, órgãos regulatórios e a sociedade em geral.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Science Arena – Qual é o atual panorama da ciência psicodélica e de suas aplicações na área da saúde mental?</strong></h2>



<p><strong>Sidarta Ribeiro –</strong> É importante lembrar que o chamado “renascimento psicodélico”, que começou há aproximadamente duas décadas, é, na verdade, a terceira onda. A primeira está em curso há milhares de anos e envolve todas as descobertas, invenções e construções culturais em torno de substâncias psicodélicas feitas por povos originários – incluindo, por exemplo, o peiote no México, a ayahuasca na América do Sul e outras substâncias na África e na Ásia.</p>



<p>A segunda onda aconteceu entre as décadas de 1950 e 1970, em ambientes urbanos, em contato com ciência, e mapeou muitas coisas interessantes, até que foi interrompida com o acirramento da &#8220;guerra às drogas&#8221;.</p>



<p>A terceira onda começou a ganhar corpo na primeira década deste século, quando os caminhos de pesquisa abertos pela segunda onda foram retomados, com o auxílio de metodologias mais poderosas, tecnologia mais avançada e estatísticas mais robustas. Hoje, a terceira onda já configura uma revolução científica com potencial de se tornar também uma revolução clínica.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Qual é a situação do Brasil no cenário dessa terceira onda?</strong></h2>



<p>O campo da pesquisa biomédica de psicodélicos está crescendo rapidamente, mas ainda é relativamente pequeno. O Brasil foi um dos poucos países que entraram na terceira onda quando ela estava começando. Hoje, temos pelo menos dez grupos independentes fazendo pesquisas relevantes na área e estamos na vanguarda da produção de conhecimento sobre algumas substâncias, como a ayahuasca, que, além de ser usada por vários povos indígenas brasileiros, tem seu uso religioso liberado no país – o que incentiva e facilita a pesquisa.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Quais substâncias e suas aplicações clínicas se destacam nos resultados de pesquisa?</strong></h2>



<p>As substâncias complexas utilizadas por povos ameríndios na forma de produtos naturais, como peiote, ayahuasca e cogumelos &#8220;mágicos&#8221; (que contêm, respectivamente, os psicodélicos mescalina, DMT e psilocibina), foram validadas pela pesquisa acadêmica por suas propriedades medicinais.</p>



<p>Substâncias sintéticas descobertas em laboratório no século XX, como o LSD, também estão validadas. Esses são os chamados “psicodélicos clássicos”, triptaminas e feniletilaminas.</p>



<p>Outras substâncias psicodélicas, como a ibogaína, descoberta e usada por povos originários africanos, e o MDMA e a ketamina, sintetizadas em laboratório, também têm propriedades valiosas para a área da saúde mental.</p>



<p>As psicoterapias com auxílio de psicodélicos são muito promissoras em relação a diversos quadros clínicos, incluindo casos extremos de trauma, desespero e suicídio iminente, depressão, tratamento de adições, melhoria da qualidade de vida de pacientes sob cuidados paliativos.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Há uma propriedade fundamental dos psicodélicos que se destaca pelo potencial terapêutico?</strong></h2>



<p>Sim, os psicodélicos produzem plasticidade neural, e de um tipo especial, chamada de metaplasticidade, que tende a ser mais equilibrada, mais homeostática que a plasticidade produzida por outras substâncias indutoras desse tipo de processo neurofisiológico.</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>Isso pode ajudar muito em quadros marcados pela ruminação de memórias e comportamentos viciosos, como nos traumas persistentes, nos transtornos do humor e nas adições.</p></blockquote></figure>



<p>Em termos de aplicações para a medicina, essa produção de metaplasticidade é promissora também para tratamentos neurológicos, para reparo, regeneração e manutenção da saúde do tecido neural.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Por que as experiências psicodélicas são importantes?</strong></h2>



<p>Há duas questões principais. A primeira, mais básica, é a compreensão da importância do <em>setting</em>, que é o contexto ambiental e relacional no qual acontecem as experiências e o processo terapêutico. Essa compreensão, que o conhecimento sobre psicodélicos traz com muita força, aliás, vale também para outras substâncias.</p>



<p>Resultados experimentais mostram, por exemplo, que o medicamento antidepressivo fluoxetina tende a ter efeito contrário, de agravamento de depressão, quando o <em>setting </em>é hostil ou adverso. E podemos supor que ele seja para parte considerável da população brasileira e mundial.</p>



<p>Então, a ideia de que saúde mental é algo que pode ser gerado por substâncias independentemente do contexto é um equívoco. E os povos e culturas que descobriram psicodélicos e souberam usá-los como poderoso recurso de cura ensinam que a interação dessas substâncias com o <em>setting</em> é uma dimensão fundamental da sua ação.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>E quanto à experiência psicodélica em si?</strong></h2>



<p>O que tanto os saberes originários quanto uma grande quantidade de pessoas e comunidades não-indígenas que usam psicodélicos de diversas maneiras – como medicina, sacramento religioso ou instrumento de exploração de diferentes dimensões da consciência – nos dizem é que eles propiciam aventuras, epopeias interiores, subjetivas que são fundamentais nesses processos.</p>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1000" height="667" src="https://www.sciencearena.org/wp-content/uploads/2024/08/Ayahuasca.jpg" alt="" class="wp-image-4474" style="width:685px;height:auto" srcset="https://www.sciencearena.org/wp-content/uploads/2024/08/Ayahuasca.jpg 1000w, https://www.sciencearena.org/wp-content/uploads/2024/08/Ayahuasca-800x534.jpg 800w, https://www.sciencearena.org/wp-content/uploads/2024/08/Ayahuasca-400x267.jpg 400w, https://www.sciencearena.org/wp-content/uploads/2024/08/Ayahuasca-768x512.jpg 768w, https://www.sciencearena.org/wp-content/uploads/2024/08/Ayahuasca-150x100.jpg 150w" sizes="(max-width: 1000px) 100vw, 1000px" /><figcaption class="wp-element-caption">Chá de ayahuasca, produzido a partir do cozimento de folhas do arbusto Psychotria viridis e da casca do cipó Banisteriopsis caapi | Imagem: Shutterstock</figcaption></figure>



<p>As experiências psicodélicas se relacionam com sistemas de crenças e com processos conscientes das pessoas durante e depois dos efeitos das substâncias. Os resultados de pesquisa confirmam isso.</p>



<p>Uma experiência psicodélica bem conduzida é capaz de gerar efeitos benéficos de longo prazo. Por isso, os protocolos terapêuticos que incluem experiências psicodélicas preveem não o uso contínuo da substância, mas somente algumas sessões combinadas à psicoterapia.</p>



<p>Creio que a evolução das pesquisas vai demonstrar, com crescente clareza, que a tentativa de reduzir os psicodélicos a mais um tipo de comprimido que não produz experiência significativa de introspecção e alteridade leva à redução do potencial dessas substâncias.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Isso tem relação com a dificuldade de aprovação de alguns desses protocolos terapêuticos por órgãos regulatórios como a Food and Drug Administration (FDA), que regula alimentos e remédios nos Estados Unidos?</strong></h2>



<p>Sim. Primeiro, devemos lembrar que o atual renascimento psicodélico começou há pouco tempo, depois de décadas de inviabilização das pesquisas no contexto da chamada “guerra às drogas”. Preconceitos em relação a substâncias que, lamentavelmente, foram associadas ao crime e a riscos exagerados ou inventados ainda estão muito presentes.</p>



<p>Como qualquer substância, os psicodélicos têm seus grupos de risco, contraindicações, e requerem conhecimento e cuidado para serem bem utilizados em pacientes, mas podem ser usados com segurança por muita gente.</p>



<p>Além de superar preconceitos, os desafios para órgãos como a FDA e a Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] têm a ver com o fato de que a aprovação de terapias com auxílio de psicodélicos não requer somente a análise da segurança e da eficácia do uso médico de um princípio ativo.</p>



<p>Trata-se de avaliar, além da própria substância, cada modelo terapêutico que se submete ao processo de avaliação dessas agências. Mas o que hoje pode parecer uma complexidade excessiva poderá se mostrar, futuramente, uma etapa necessária para um conhecimento mais completo e aprofundado da saúde mental e dos meios de promovê-la.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Há também a questão do “desmascaramento” do placebo nos ensaios clínicos, não é?</strong></h2>



<p>No caso dos psicodélicos, é fácil para os participantes de testes clínicos saberem quando tomaram a substância ou um placebo. Isso também requer uma perspectiva um pouco diferente na avaliação de resultados. Esse tipo de novidade pode suscitar resistências em estruturas de regulação conservadoras.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Você defende a valorização dos saberes e o reconhecimento dos direitos dos povos originários nas várias frentes do renascimento psicodélico. Explique o que isso significa.</strong></h2>



<p>Precisamos fazer valer o <a href="https://www.cbd.int/abs/default.shtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Protocolo de Nagoia</a> para garantir que haja uma justa <a href="https://www.cbd.int/abs/default.shtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">repartição de benefícios</a>. Além disso, é hora de reconhecer que a gente está em apuros, precisando da ajuda de homens e mulheres portadores de conhecimentos e sabedorias diferentes dos nossos.</p>



<p>Devemos olhar para os lados e perceber que temos muito a aprender com outros povos, culturas e experiências humanas. Especialmente quando estamos lidando com medicinas que eles apresentaram para nós, junto dos saberes construídos e apurados ao longo de milhares de anos.</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>O desenvolvimento do campo de estudos sobre psicodélicos requer um processo paritário, de troca de saberes, em que a gente possa coletivizar essa experiência de cura.</p></blockquote></figure>



<p>Não entender isso, além de apropriação predatória, seria grossa ignorância e desperdício de oportunidades que precisamos perceber e aproveitar com inteligência e justiça. Estamos em boa posição para fazer isso. Mas precisamos fazer mesmo, e mais.</p>



<p>Para dar um exemplo, como aponta o psiquiatra e professor Ricardo Moebus [da Universidade Federal de Ouro Preto, em Minas Gerais], entre as <a href="https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/pics" target="_blank" rel="noreferrer noopener">terapias integrativas</a> acolhidas pelo SUS [Sistema Único de Saúde] há uma grande diversidade de práticas vindas de outros países e continentes, como acupuntura, reiki e homeopatia, mas ainda não há medicina quilombola nem indígena.</p>
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