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	<title>#dengue | Artigos, Pesquisas e Estudos - Science Arena</title>
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	<description>Science Arena - Ciências da saúde &#124; Para quem vê o mundo através da ciência</description>
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	<title>#dengue | Artigos, Pesquisas e Estudos - Science Arena</title>
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		<title>Vacina da dengue do Butantan: por que testes rigorosos não preveem todos os efeitos raros</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daniel Punto Comunicação]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Jun 2026 22:03:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[#Anvisa]]></category>
		<category><![CDATA[#dengue]]></category>
		<category><![CDATA[#farmacovigilância]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Após suspensão preventiva pelo Ministério da Saúde, pesquisadora do Einstein explica como funcionam ensaios clínicos randomizados e a vigilância pós-aprovação</p>
<p>O post <a href="https://www.sciencearena.org/noticias/vacina-da-dengue-do-butantan-por-que-testes-rigorosos-nao-preveem-todos-os-efeitos-raros/">Vacina da dengue do Butantan: por que testes rigorosos não preveem todos os efeitos raros</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.sciencearena.org">Science Arena</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O <strong>Ministério da Saúde</strong> suspendeu, em 8 de junho de 2026, a aplicação da vacina contra a dengue desenvolvida pelo <strong>Instituto Butantan</strong>, em São Paulo. A decisão é preventiva: o sistema de monitoramento identificou 42 casos de reações raras e inesperadas entre as 501 mil doses aplicadas desde janeiro em profissionais de saúde da atenção primária, que atuam no Sistema Único de Saúde (SUS), e em pessoas de 15 a 29 anos dos municípios de Nova Lima (MG), Maranguape (CE) e Botucatu (SP), além da região de Araguaína (TO). Deste total, foram registrados dois óbitos que estão sendo investigados. Por enquanto, não há como afirmar que a vacina causou essas mortes.</p>



<p>A Butantan-DV é a primeira vacina do mundo contra a dengue aplicada em dose única e o primeiro imunizante inteiramente desenvolvido no Brasil. O Instituto Butantan levou cerca de 20 anos para criá-la, a partir de uma tecnologia licenciada dos <strong>Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH)</strong>.&nbsp;</p>



<p>Antes de ser aprovado pela <strong>Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)</strong> em dezembro de 2025, o imunizante passou por estudos clínicos com mais de 11 mil voluntários acompanhados por até cinco anos. Os resultados mostraram eficácia de 65% contra a doença e de 80,5% contra os casos mais graves, <a href="https://butantan.gov.br/noticias/vacina-da-dengue-do-butantan-mantem-805-de-eficacia-contra-casos-graves-e-com-sinais-de-alerta-apos-cinco-anos" target="_blank" rel="noreferrer noopener">segundo informações do Instituto Butantan</a></p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O que foi encontrado</strong></h2>



<p>De janeiro a 30 de maio de 2026, o sistema de farmacovigilância (o conjunto de mecanismos que monitora vacinas e medicamentos depois que chegam ao mercado) registrou 42 reações que não haviam aparecido nos estudos que levaram à aprovação da vacina.&nbsp;</p>



<p>Os episódios incluíram sintomas como dor abdominal intensa, vômitos persistentes e sangramentos. Três foram classificados como graves, e dois resultaram em morte.</p>



<p>Os casos fatais envolvem uma mulher de 48 anos que desenvolveu comprometimento neurológico grave 19 dias após a vacinação, e um homem de 58 anos que evoluiu rapidamente para um quadro severo da doença cinco dias depois de receber a dose.&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>Em ambos os casos, a investigação ainda precisa verificar se há outras causas que possam ter contribuído para os óbitos — como doenças preexistentes ou outros fatores de risco.</p></blockquote></figure>



<p>Os 42 casos representam 0,008% do total de vacinados — uma proporção muito pequena, mas suficiente para acionar os protocolos de segurança. A decisão de suspender foi tomada em conjunto pelo Ministério da Saúde e pela Anvisa, com respaldo de dois comitês técnicos de especialistas.</p>



<p>“Essa descontinuidade tem um objetivo”, alertou Alexandre Padilha, ministro da Saúde, em pronunciamento nesta segunda-feira, 08/06. “Primeiro, trata-se de uma ação de precaução que deve sempre orientar quem respeita a vida e quem respeita a ciência”, disse Padilha.</p>



<p>“Segundo, ela permite que o Ministério da Saúde, a Anvisa e o Instituto Butantan aprofundem a investigação dos casos, em especial dos óbitos registrados, para os quais ainda não há informações suficientes que permitam estabelecer uma relação de causalidade com a vacina.”</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Quem já tomou a vacina está protegido</strong></h2>



<p>Para quem já foi vacinado, a proteção está garantida, esclareceram as autoridades. &#8220;Quem já tomou a vacina pode ficar absolutamente descansado. Todos aqueles que já receberam a vacina podem contar com a proteção que ela promete, de 65% de não pegar a doença cinco anos após a aplicação e 80% para não desenvolver dengue grave&#8221;, disse <strong>Esper Kallás</strong>, médico infectologista e diretor do Instituto Butantan, em entrevista ao canal GloboNews.</p>



<p>Quem recebeu a vacina há menos de 21 dias, no entanto, deve ficar atento a sintomas como febre, dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramentos, tontura ou sonolência excessiva.&nbsp;</p>



<p>Se aparecer qualquer um desses sinais, a orientação é procurar atendimento médico imediatamente. Após 21 dias, não há mais componente ativo da vacina no organismo.</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>A suspensão não afeta a vacina <strong>Qdenga</strong>, produzida no Japão e disponível gratuitamente no SUS desde 2024 para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos. Até agora, cerca de 8 milhões de doses foram aplicadas no país. </p></blockquote></figure>



<p>O cenário epidemiológico atual é positivo: em 2026, até o fim de maio, o Brasil registrou queda de 94% no número de casos de dengue e de 97% nos óbitos em relação ao mesmo período de 2024, segundo dados do Ministério da Saúde.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Por que testes rigorosos não garantem que tudo seja previsto</strong></h2>



<p>A situação da vacina do Butantan ilustra um limite real da pesquisa clínica, — e não uma falha dela. Em <a href="https://www.sciencearena.org/entrevistas/karla-espirito-santo-por-que-a-ciencia-nao-pode-pular-etapas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">entrevista ao Science Arena publicada em abril de 2026</a>, a cardiologista e pesquisadora clínica <strong>Karla Espírito Santo</strong>, do Einstein Hospital Israelita, explicou como esse processo funciona e por que ele não pode ser abreviado.</p>



<p>Antes de qualquer vacina ou medicamento chegar ao mercado, ele precisa passar por quatro fases de testes. Na primeira, o produto é testado em voluntários saudáveis para verificar se é seguro.&nbsp;</p>



<p>Na segunda, avalia-se a dose certa e os primeiros sinais de que funciona. Na terceira — a mais extensa —, o teste é feito com milhares de pessoas para confirmar tanto a eficácia quanto a segurança.&nbsp;</p>



<p>É só depois de aprovado que começa a quarta fase: o monitoramento contínuo de quem já está usando o produto na vida real.</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>&#8220;Sem comparação adequada entre grupos, não há como provar a eficácia de um novo medicamento.&#8221; — Karla Espírito Santo, cardiologista e pesquisadora clínica do Einstein Hospital Israelita</p></blockquote></figure>



<p>O problema é que estudos clínicos, por mais rigorosos que sejam, testam um número limitado de pessoas. Efeitos adversos muito raros — que acontecem em 1 a cada 10.000 ou 100.000 casos — simplesmente não aparecem nessa escala.&nbsp;</p>



<p>Só ficam visíveis quando a vacina é usada por centenas de milhares de pessoas ao mesmo tempo. É exatamente por isso que a fase 4 existe.</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>Karla Espírito Santo explica que, para que os resultados de um estudo sejam confiáveis, é preciso comparar grupos equivalentes. A randomização — isto é, o sorteio de quem recebe o tratamento e quem fica no grupo de controle — existe justamente para evitar que diferenças entre os participantes contaminem os resultados. </p></blockquote></figure>



<p>Sem esse mecanismo, é impossível saber se um efeito observado foi causado pelo medicamento ou por alguma característica prévia do grupo estudado.</p>



<p>Na hierarquia das evidências científicas, os ensaios clínicos randomizados ocupam o topo entre os estudos individuais. Acima deles estão apenas as revisões sistemáticas e as meta-análises, que combinam os resultados de vários estudos para chegar a conclusões mais robustas.&nbsp;</p>



<p>Na base da pirâmide ficam os relatos de casos isolados — úteis para levantar hipóteses, mas insuficientes para provar que um tratamento funciona.</p>



<p>Karla também abordou os riscos de pular etapas sob pressão. O Brasil tem casos emblemáticos nesse sentido: a fosfoetanolamina sintética, distribuída por pesquisadores da <strong>Universidade de São Paulo (USP)</strong> sem registro na Anvisa, gerou milhares de ações judiciais de pacientes com câncer, mesmo sem evidências de segurança ou eficácia. O Supremo Tribunal Federal (STF) declarou inconstitucional a lei que autorizava seu uso.&nbsp;</p>



<p>Mais recentemente, a polilaminina, proteína desenvolvida pela <strong>Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)</strong> para tratar lesões na medula espinhal, <a href="https://www.sciencearena.org/entrevistas/sem-grupo-controle-nao-podemos-afirmar-que-a-polilaminina-funciona-diz-coautor-de-estudo-sobre-a-substancia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">também foi alvo de pedidos judiciais antes de concluir a fase 1 dos testes,</a> voltada exclusivamente à avaliação de segurança.</p>



<p>&#8220;Mesmo em contextos de urgência, como ocorreu com as vacinas contra a Covid-19, os estudos necessários foram realizados antes da aprovação&#8221;, afirmou Karla. &#8220;Seguir esse processo é uma forma de proteger a população.&#8221; No caso da vacina do Butantan, é exatamente esse processo que está em curso: o sistema funcionou ao identificar o sinal, e agora a ciência precisa de tempo para entender o que ele significa.</p>
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		<title>&#8220;A ciência é um programa de Estado, não de governo&#8221;, diz cientista entre os 107 brasileiros mais influentes do mundo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daniel Punto Comunicação]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 06 May 2026 19:57:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>De vacinas às grandes epidemias, Maurício Nogueira levou descobertas do laboratório às políticas públicas e está entre os 107 cientistas brasileiros mais influentes do mundo</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>No Brasil, são raros os cientistas que conseguem levar uma descoberta da bancada do laboratório até uma política pública capaz de impactar milhões de pessoas. Mais raro ainda é fazer isso repetidas vezes, em diferentes epidemias. O virologista Prof. Dr. Maurício Lacerda Nogueira, docente e diretor-adjunto de Pós-Graduação da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), é uma dessas exceções — e acaba de ajudar a inscrever seu nome em mais um marco da ciência brasileira com o lançamento da vacina contra a dengue do Instituto Butantan.</p>



<p>Essa capacidade de transformar evidência científica em decisão concreta de saúde pública colocou Nogueira em um grupo altamente seleto. Seu nome integra a lista dos 107 cientistas brasileiros que mais influenciam decisões no mundo, <a href="https://abori.com.br/politicas-publicas/bori-overton-pesquisadores-politicas-publicas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">segundo relatório divulgado pela Agência Bori</a> em parceria com a plataforma Overton, que mapeou pesquisadores cujos estudos foram citados em documentos oficiais, diretrizes e políticas públicas globais. Ele figura em um grupo restrito de 22 especialistas em doenças infecciosas e vacinas que tiveram papel decisivo em respostas a surtos de zika, dengue e COVID-19, além de influenciar decisões relacionadas ao <a href="https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/svsa/pni" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Programa Nacional de Imunizações (PNI)</a>.</p>



<p>O reconhecimento internacional se soma a outra distinção recente: o título de <em>Distinguished International Fellow,</em> concedido pela <a href="https://www.astmh.org/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">American Society of Tropical Medicine and Hygiene (ASTMH)</a> — uma das mais altas honrarias em medicina tropical e saúde global. Maurício Nogueira também figura em um levantamento da Universidade de Stanford (EUA) entre os cientistas mais influentes do mundo, reforçando a projeção internacional de sua produção científica e a relevância de sua atuação no campo da virologia e da saúde pública.</p>



<p>Com uma trajetória marcada pela interface entre pesquisa, assistência e políticas públicas, Maurício Nogueira teve papel central no enfrentamento de grandes epidemias no Brasil e no exterior. Atuou em estudos durante as crises de zika e COVID-19, contribuiu para o desenvolvimento de novas técnicas diagnósticas e participou do desenvolvimento da vacina contra a dengue produzida pelo Instituto Butantan — lançada recentemente e considerada um dos principais marcos da ciência brasileira em saúde pública.</p>



<p>Em entrevista ao <strong>Science Arena</strong>, ele reflete sobre como a ciência produzida no Brasil pode influenciar decisões globais em saúde, os gargalos estruturais que ainda limitam a inovação no país e os caminhos para transformar evidência científica em políticas públicas capazes de salvar vidas.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Science Arena: Você construiu uma trajetória rara no Brasil, combinando ciência de ponta e influência em políticas públicas. Em que momento percebeu que a pesquisa precisava extrapolar o laboratório para gerar impacto real na saúde coletiva?</strong></h2>



<p><strong>Maurício Lacerda Nogueira &#8211;</strong> Isso é mais consequência do que um processo ativo. Foi consequência de um trabalho que sempre esteve muito próximo do serviço de saúde aqui de Rio Preto. Há 20 anos estamos trabalhando muito próximos do sistema de saúde local, da Secretaria de Saúde local, fornecendo informações e transferindo o que descobrimos no laboratório para saúde pública. Com o tempo, os projetos vão se tornando mais complexos e passam a ter influências em políticas, como as políticas de vacina. Foi mais uma consequência natural de trabalhar próximo ao sistema de saúde.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Na sua experiência, qual é hoje o principal gargalo para que evidências científicas se transformem em decisões concretas em saúde pública no Brasil?</strong></h2>



<p>O principal gargalo ainda é a dissociação do serviço de saúde da academia. A pandemia de COVID-19 mostrou que essa era uma dicotomia absurda e que precisávamos trabalhar juntos. Isso tem melhorado muito nos últimos anos no Brasil.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Epidemias como a da dengue, zika e COVID-19 colocaram o país no centro da ciência global. O que essas crises revelam sobre nossas capacidades e fragilidades institucionais e científicas?</strong></h2>



<p>A zika colocou o Brasil no centro da ciência global, e nossas capacidades são muito grandes. O Brasil tem corpo científico altamente qualificado, juventude que participa da ciência, alunos voluntariosos que correm atrás, acesso à informação e infraestrutura. Mas temos fragilidades enormes, e a maior delas é a total falta de previsibilidade de financiamento. Dependemos muito de momentos e humores de governo e transições políticas. Respondemos muito bem à zika num momento de grande financiamento, mas respondemos muito mal à febre amarela logo em seguida, porque estávamos num momento de muito baixo financiamento.&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p><em>Falta um compromisso dos políticos brasileiros em todos os níveis com a manutenção da ciência. É preciso entender que a ciência é um programa de Estado, não de governo.</em></p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A resposta brasileira à epidemia de zika foi internacionalmente reconhecida. Que aprendizados desse período ainda não conseguimos transformar em políticas estruturantes permanentes?</strong></h2>



<p>Esse é exatamente o ponto: não conseguimos transformar em política permanente porque não fazemos planejamento de longo prazo — é tudo resposta, é tudo mobilização. Quando começou a zika, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), nossas grandes agências de fomento, fizeram programas e mobilizaram recursos. Com o tempo, esses programas vão diminuindo. Veio a COVID-19, mobilizou tudo novamente, criou novos programas — inclusive com financiamento privado —, mas isso também vai sumindo. Não temos planejamento estratégico de longo prazo em ciência no Brasil.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Durante a pandemia de COVID-19, a ciência enfrentou forte politização. Como isso impactou o diálogo entre pesquisadores, gestores e sociedade?</strong></h2>



<p>A politização da ciência na COVID-19 foi o pior momento de todos. Em meus 30 anos de vida acadêmica no Brasil, esse foi o ponto mais baixo que chegamos. Houve perseguição a cientistas, mistura da figura pessoal e da política pessoal do pesquisador com o trabalho que ele desenvolve. Cientistas foram perseguidos nas redes, vítimas do gabinete do ódio. Isso prejudicou muito a comunicação e a resposta brasileira, causou impacto em vidas com atrasos de vacina.</p>



<p>O tempo, como dizem os políticos, é o senhor da razão. Vemos agora a notícia de que o doutor Marcus Lacerda, provavelmente o cientista mais atacado na pandemia, <a href="https://fiocruz.br/noticia/2026/01/marcus-lacerda-e-nomeado-diretor-de-programa-especial-sobre-doencas-tropicais-da" target="_blank" rel="noreferrer noopener">foi nomeado</a> [em 15 de janeiro de 2026] diretor do Programa de Pesquisa em Doenças Tropicais (TDR) da Organização Mundial de Saúde — um cargo importantíssimo que mostra a importância da ciência brasileira no mundo. Quem mais apanhou hoje ocupa uma das posições mais importantes para cientistas brasileiros.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Atuar com virologia em um país tropical é mais um desafio constante ou uma oportunidade estratégica para o Brasil se afirmar como liderança global?</strong></h2>



<p>Atuar no Brasil é uma oportunidade enorme. As doenças tropicais fazem parte do nosso dia a dia, da nossa vida. É um desafio porque as demandas são mais urgentes, mas também é uma oportunidade: temos a capacidade de estar muito próximos dos problemas e de responder claramente a essas demandas.&nbsp;</p>



<p>Lembro de um jantar há alguns anos na Sociedade Americana de Medicina Tropical, com pesquisadores da área de dengue. Um dizia &#8220;faço minha pesquisa na Indonésia&#8221;, outro &#8220;vou sempre para a Colômbia&#8221;, outro &#8220;vou sempre para a África&#8221;. Brinquei: &#8220;Eu atravesso a rua — o hospital fica do outro lado do meu laboratório&#8221;. Isso é uma facilidade.</p>



<p>Temos os problemas inerentes do Brasil: falta de financiamento de longo prazo, volumes muito mais baixos do que pesquisadores de outros países têm acesso. Mas temos nossas vantagens estratégicas, sim.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O senhor participou do desenvolvimento da vacina contra dengue do Instituto Butantan. O que essa experiência revela sobre o potencial — e os limites — da inovação em saúde no país?</strong></h2>



<p>O desenvolvimento da vacina do Butantan é, no meu entendimento, um dos maiores avanços da ciência brasileira de toda a história. É um estudo que custou muitos recursos públicos, mas mostrou a capacidade do Brasil de desenvolver a vacina, de realizar um estudo clínico de alta complexidade e longa duração. O Butantan coordenou esse trabalho com todos os centros participantes, e tivemos o prazer de fazer parte disso. Esse investimento vai causar um impacto enorme em saúde pública nos próximos anos, com a vacina chegando à população brasileira e diminuindo o impacto da dengue no Brasil.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A partir da sua atuação internacional, como a ciência brasileira é percebida nos fóruns globais de virologia e saúde pública?</strong></h2>



<p>O Brasil é muito reconhecido nas áreas de virologia, saúde pública e medicina tropical. A prova disso está na nomeação do Marcus Lacerda como diretor do TDR. Até o ano passado, eu era presidente do Comitê Americano de Arbovirose — ou seja, um brasileiro presidindo um comitê da Sociedade Americana de Medicina Tropical. O Brasil está sempre representado em órgãos como a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA).&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p><em>O Brasil e os cientistas brasileiros são respeitados internacionalmente. Precisamos de uma política de longo prazo que nos permita devolver isso com maior frequência à sociedade brasileira.</em></p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O senhor atua ativamente em instituições internacionais, como a University of Texas Medical Branch. Como a ciência brasileira é vista/recebida nesses espaços?</strong></h2>



<p>Ela é muito bem vista e reconhecida nas universidades do exterior. Por outro lado, eles também conhecem nossas deficiências, principalmente as irregularidades de financiamento. Trabalhar na interseção entre os sistemas brasileiro e internacional nos dá alguma vantagem.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Qual tipo de colaboração internacional o senhor acha mais estratégica hoje: grandes consórcios globais ou redes mais horizontais entre países com desafios semelhantes?</strong></h2>



<p>Ambas são importantes, cada uma com características próprias. Os grandes consórcios globais nos permitem acessar recursos e tecnologias que não estão disponíveis nas redes horizontais. Já as redes horizontais nos conectam com países que enfrentam desafios e problemas semelhantes — mas, por outro lado, também enfrentam as mesmas limitações de recursos que nós.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>As mudanças climáticas tendem a ampliar o alcance das arboviroses. O Brasil está se preparando adequadamente para esse novo cenário epidemiológico?</strong></h2>



<p>O aquecimento global e as mudanças climáticas têm impactado significativamente a distribuição dessas arboviroses. Tivemos circulação de dengue na Califórnia, chikungunya em Nova York e na França, dengue na França e no Japão — o aumento das temperaturas está levando a uma maior dispersão do mosquito e, consequentemente, dos casos dessas doenças.</p>



<p>Isso também está acontecendo no Brasil. Nos últimos dois anos tivemos uma epidemia muito importante de dengue em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, numa área onde não existia circulação. O que estamos fazendo é ajudar a capacitar uma geração de pesquisadores, cientistas e agentes de saúde pública que não estavam preparados para trabalhar com essas doenças porque historicamente elas não existiam lá.</p>



<p>Por sorte, temos infraestrutura, cientistas e profissionais de saúde pública que podem capacitar — e é isso que tem sido feito.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A vigilância brasileira é suficiente para antecipar surtos ou ainda operamos reativamente?</strong></h2>



<p>Ainda somos muito reativos. Temos uma boa vigilância, mas por vários motivos ainda é reativa. Uma demonstração disso é que tanto o Sabiá [vírus brasileiro de alta letalidade] quanto o SARS-CoV-2 [vírus causador da COVID-19] foram identificados primeiro na rede privada, não na rede pública. Isso mostra que há uma defasagem na vigilância pública em alguns momentos, especialmente pela falta de recursos. A COVID-19 nos trouxe recursos e treinamento, mas essa vigilância ainda precisa ser expandida.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Que lições dessas grandes epidemias ainda não foram plenamente incorporadas às políticas de vigilância e preparação para emergências sanitárias?</strong></h2>



<p>As lições foram incorporadas. O problema é que são esquecidas ou deixam de ser prioridades. Todo o trabalho feito em conjunto entre sistema público de saúde e universidades durante a pandemia foi abandonado. Esse é um problema no Brasil: não é criar os planos, é dar continuidade a eles.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Como equilibrar pesquisa de excelência com demandas urgentes do sistema sem comprometer a qualidade científica?</strong></h2>



<p>A forma de equilibrar excelência na pesquisa com demandas urgentes do sistema sem comprometer a qualidade científica é direta: financiamento. Precisamos ter recursos adequados para fazer um trabalho de que atenda às demandas locais. Mas isso depende de financiamento sustentado</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Como diretor-adjunto de pós-graduação, que tipo de pesquisador o Brasil precisa formar para enfrentar os desafios sanitários das próximas décadas e fortalecer a conexão entre ciência e políticas públicas?</strong></h2>



<p>É difícil termos receitas prontas. O pesquisador que devemos formar tem que ser absolutamente de alta qualidade, que saiba fazer perguntas e consiga responder às demandas de saúde pública. Os desafios sanitários são enormes, os nossos recursos são limitados, então temos que formar uma geração de pesquisadores que tenham compromisso com a saúde pública, com a boa ciência e com responder às necessidades do país.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Que conselhos o senhor daria para nós, jovens cientistas, que desejamos ver nossas pesquisas influenciar decisões concretas em saúde pública?</strong></h2>



<p>O jovem pesquisador não pode abrir mão da excelência do trabalho. Esse é um ponto-chave. Fazer as boas perguntas, trabalhar com demandas realistas e fazer uma ciência de qualidade é a saída correta.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Se o Brasil tivesse hoje uma política nacional robusta de ciência voltada à saúde pública, que áreas o senhor priorizaria para maximizar impacto social e influência internacional nos próximos 10 a 20 anos?</strong></h2>



<p>É difícil priorizar uma área, embora tenhamos que fazer isso porque os recursos são limitados. O Brasil tem uma característica muito própria: ao mesmo tempo que temos doenças tropicais — dengue, chikungunya — também enfrentamos problemas típicos de países desenvolvidos, como envelhecimento populacional e doenças cardiovasculares.&nbsp;</p>



<p>O Brasil precisa fazer o que faz de melhor: criar grandes infraestruturas de ciência que permitam mudanças importantes. Temos centros como o Laboratório Nacional de Computação Científica [LNCC], o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron [Sirius], o futuro Laboratório de Biossegurança Nível 4 [ORION] — estruturas muito fortes que vão dar ao cientista brasileiro a possibilidade de fazer trabalho de ponta em diversas áreas do conhecimento.</p>
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		<title>Jorge Kalil: fazer vacinas no Brasil é luta de Davi contra Golias</title>
		<link>https://www.sciencearena.org/entrevistas/jorge-kalil-fazer-vacinas-no-brasil-e-luta-de-davi-contra-golias/</link>
					<comments>https://www.sciencearena.org/entrevistas/jorge-kalil-fazer-vacinas-no-brasil-e-luta-de-davi-contra-golias/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniel Punto Comunicação]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Jun 2024 20:44:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[#dengue]]></category>
		<category><![CDATA[#imaunização]]></category>
		<category><![CDATA[#pandemia]]></category>
		<category><![CDATA[#pesquisa clínica]]></category>
		<category><![CDATA[#vacinas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>País não investe o suficiente em tecnologia para desenvolver e produzir imunizantes contra as principais ameaças à saúde pública, avalia ex-diretor do Butantan</p>
<p>O post <a href="https://www.sciencearena.org/entrevistas/jorge-kalil-fazer-vacinas-no-brasil-e-luta-de-davi-contra-golias/">Jorge Kalil: fazer vacinas no Brasil é luta de Davi contra Golias</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.sciencearena.org">Science Arena</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>No primeiro trimestre de 2020, o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) convidou dois cientistas para coordenar pesquisas para o desenvolvimento de imunizantes contra o vírus Sars-CoV-2, causador da covid-19.</p>



<p>Um deles era o imunologista Ricardo Gazzinelli, coordenador do Centro de Tecnologia de Vacinas (<a href="http://www.ctvacinas.ufmg.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">CTVacinas</a>) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), responsável por comandar o desenvolvimento da SpiN-Tec-MCTI-UFMG, formulação candidata à vacina conta covid-19.</p>



<p>O outro pesquisador era o também imunologista <strong>Jorge Kalil</strong>, da Universidade de São Paulo (USP), que optou por fazer uma vacina nasal, aplicada em forma de spray.</p>



<p>Em entrevista ao <strong>Science Arena</strong>, Kalil – que dirigiu o Instituto Butantan entre 2011 e 2017 – detalhou como está o processo de desenvolvimento da vacina nasal, explicou as razões e salientou as dificuldades de fazer ciência no Brasil. Uma delas é a chamada “fuga de cérebros”, classificada por ele como “uma vergonha.”</p>



<p>“Temos que ter cientistas e tecnólogos capazes de atuar em toda a cadeia produtiva, da descoberta da molécula ao desenvolvimento do produto”, afirma Kalil, que é professor da Faculdade de Medicina da USP e diretor do laboratório de imunologia do Instituto do Coração (InCor) da mesma universidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Science Arena – Em maio, o senhor participou do evento </strong><a href="https://www.ted.com/tedx/events/54956" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>TEDxUSP</strong></a><strong>, no qual destacou desafios para criar uma vacina nasal contra a covid-19. Como este trabalho começou? </strong></h2>



<p><strong>Jorge Kalil</strong> – No início da pandemia de Covid-19, o MCTI escolheu a mim e o Ricardo Gazzinelli, coordenador do CTVacinas, para o desenvolvimento de imunizantes contra o Sars-CoV-2. Gazzinelli foi comandar os estudos da SpiN-TEC, enquanto meu grupo optou por fazer uma vacina nasal. Reuni pessoas que poderiam me ajudar e que trabalhavam comigo no Incor e na Faculdade de Medicina da USP, assim como pessoas do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e da Universidade Federal de São Paulo [Unifesp].</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Por que o grupo escolheu este caminho, o de desenvolver uma vacina nasal? </strong><strong></strong></h2>



<p>Partimos de um conhecimento prévio com o vírus Sars-CoV-1, causador da Síndrome Respiratória Aguda Grave [Sars], que emergiu em 2002 e que, apesar da alta letalidade, foi controlado na China.</p>



<p>Houve uma resposta importante de anticorpos, chamados de neutralizantes, que impediam o vírus de entrar na célula para se multiplicar. Com isso, soube-se que a ação dos anticorpos ocorria na proteína spike, usada pelo vírus para invadir células.</p>



<p>Portanto, sabíamos que, em grande parte, os estudos seriam diretamente voltados para uma vacina que inibisse essa proteína. O vírus começou a mutar e surgiram variantes. Também foi importante observar que a CoronaVac [produzida pela empresa chinesa Sinovac e embalada pelo Instituto Butantan], uma vacina de vírus completo e inativado, é um imunizante ruim, com eficácia de cerca de 50% e sem ter sido testada em indivíduos mais velhos, que são os mais suscetíveis à doença.</p>



<p>Fomos então para as vacinas de RNA, que eram bem melhores.&nbsp; Com esse conhecimento, ainda no começo da pandemia, pensamos em desenvolver uma vacina intranasal, porque o vírus entra pelo nosso nariz.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Então foi o fato de o vírus entrar pelo nariz o principal motivador? </strong><strong></strong></h2>



<p>Sim. Com a nossa vacina, chegamos na célula da mucosa e induzimos a resposta, algo que não ocorre com as vacinas intramusculares. O segredo está, justamente, em inativar o vírus na entrada, antes que se multiplique na mucosa, que é algo que facilita a transmissão para outras pessoas. As vacinas intramusculares não impedem a infecção e a doença leve, justamente porque o vírus se multiplica.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Como foi a evolução das etapas já cumpridas e em que momento pré-clínico ou clínico se encontra o desenvolvimento da vacina nasal? </strong><strong></strong></h2>



<p>Durante a fase a pré-clínica, injetamos o vírus na narina de modelos animais e, rapidamente, o vírus desapareceu, por conta da imunoglobulina IgA secretória (um tipo de anticorpo) que há ali. Agora, estamos preparando o antígeno.</p>



<p>No Brasil, ainda não temos empresas com capacidade industrial de desenvolvimento. Mas investimos US$ 4 milhões para contratar uma empresa no exterior, que vai pegar o antígeno e colocá-lo em célula. Poderemos iniciar a fase clínica de pesquisa, com testes em humanos, até o final de 2024.</p>


<div class="wp-block-image">
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		</button><figcaption class="wp-element-caption">MultiCovax, vacina em formato de spray nasal contra a covid-19, em desenvolvimento pela equipe de Jorge Kalil | Foto: Divulgação</figcaption></figure></div>


<h2 class="wp-block-heading"><strong>Na fase pré-clínica, vocês descrevem que houve 100% de resposta. Há garantia de que o resultado se repetirá em humanos?</strong> </h2>



<p>Em camundongos, obtivemos 100% de resposta, mas, embora eles sejam geneticamente muito semelhantes aos humanos, há uma heterogeneidade genética, social, econômica e higiênica. São, portanto, muitos os fatores que podem alterar a resposta que iremos obter na fase clínica, com humanos.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Além desta heterogeneidade, quais são outros obstáculos?</strong> </h2>



<p>Até o momento, as primeiras dificuldades que enfrentamos são relacionadas ao subfinanciamento, ou seja, bolsas de pesquisa com valores muito baixos.</p>



<div style="height:4px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>É difícil atrair estudantes e pesquisadores com pós-doutorado, pois o investimento em pesquisa no Brasil está defasado.</p>



<p>Outro agravante é que, como reflexo da pandemia, os países não estavam exportando insumos de laboratório. No Brasil, não há produção de insumos e eles estavam demorando muito para chegar do exterior, pois existia uma regra de favorecer os laboratórios locais, no país produtor.</p>



<p>Ao todo, incluindo produção e escala industrial, recebemos R$ 40 milhões, ou seja, cerca de US$ 8 milhões. Enquanto isso, nos Estados Unidos, foi lançado um edital em que estão distribuindo, para cada grupo de pesquisa, aproximadamente US$ 500 milhões de dólares para desenvolver a vacina. É uma disputa de Davi contra Golias.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Caso essas etapas sejam superadas e a vacina nasal se mostre eficaz, o que podemos esperar dela?</strong></h2>



<p>Nossa vacina será definitiva, porque é de facílima administração, as pessoas não são resistentes a ela e este imunizante protege contra a infecção e a transmissão. Com isso, vamos controlar a doença. Para tanto, precisamos convencer os políticos a investir.</p>



<p>No Brasil, não temos a cultura de que podemos resolver os nossos problemas. Sempre se acha que precisamos de alguém de fora para isso.</p>



<p>Nós estamos com uma vacina da dengue, que eu comecei a trabalhar quando era diretor do Instituto Butantan, em São Paulo. Fizemos todo o desenvolvimento industrial, desenvolvimento clínico de fase 2 e começamos a fase 3 em 2016.</p>



<p>Porém, não foi dada a celeridade necessária. Essa vacina tinha que já estar pronta. O [médico] Dimas Covas, que foi o diretor do Butantan, não deu a prioridade necessária para o teste desta vacina [contra a dengue].</p>



<p>O imunizante do Butantan já tinha que estar aí protegendo os milhões de brasileiros que tiveram dengue, com grande número de mortes.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Como está o Brasil no contexto mundial de produção de vacina? Quais são nossos pontos fortes e fracos?</strong> </h2>



<p>Ainda não temos a capacidade de desenvolver e produzir as vacinas para vírus que representam grandes ameaças. Enquanto isso não ocorre, ficamos extremamente dependentes dos outros países. O Brasil não investe suficientemente para que seja tecnologicamente independente.</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>Temos que ter cientistas e tecnólogos capazes de atuar em toda a cadeia produtiva, da descoberta da molécula ao desenvolvimento do produto.</p></blockquote></figure>



<p>Nós fazemos muito poucos ensaios clínicos de fase 1 e 2. Todos os países desenvolvidos têm essa capacidade. Na China, não se desenvolve tecnologia porque a mão de obra é barata. Pensar isso é um erro que as pessoas cometem. O que tem na China é um eficiente sistema de educação e de capacitação de pessoal técnico-científico. Eles fazem qualquer coisa na China. E conseguem fazer ainda com preço barato, porque sabem utilizar direitinho os materiais.</p>



<p>O Brasil precisa aprender que um país grande – e que tem pretensões de ser uma grande nação – tem que ter ciência e desenvolvimento tecnológico.</p>



<p>Infelizmente, o que temos observado nos últimos tempos é que os nossos grandes cérebros cansaram do Brasil e foram embora. Eu tenho uma quantidade enorme de ex-alunos que estão concentrados em três lugares: região de Nova Iorque, região de Boston e no estado a Califórnia, especialmente em São Francisco e Los Angeles. É uma vergonha. Nós perdemos essas pessoas.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Os resultados preliminares do desenvolvimento da vacina nasal não foram publicados em revista científica? Em que momento isso vai ocorrer? </strong><strong></strong></h2>



<p>Não publicamos, porque queríamos que a vacina permanecesse brasileira. Se fossem dados fundamentais para que a gente pudesse conter a doença, teríamos divulgado.&nbsp; Porém, como existiam já outras vacinas, não era essencial apresentar os nossos resultados preliminares. Estamos terminando de fazer a patente para, assim, publicar o artigo científico, que está sendo escrito.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Qual precisa ser o olhar do mundo para a imunização de toda a população? </strong><strong></strong></h2>



<p>Existe um esforço mundial muito grande para que lugares na África e na Ásia também consigam produzir vacinas. O que se observou é que, na pandemia, pouco tempo depois de já existirem vacinas, nos países ricos tínhamos 90% da população imunizada com duas doses, enquanto nos países mais pobres esse percentual era de apenas 2%. E eram os 2% mais ricos daquela população.</p>



<p>Nós queremos que haja equidade na saúde. É fundamental que tenhamos várias plataformas de vacinas, que possam ser utilizadas com diferentes antígenos. Antígeno é superimportante, pois é o alvo da vacina. E somente se consegue isso fazendo pesquisa básica com vírus e entendendo como é a resposta protetora. Tem que haver continuidade nos investimentos de ciência e tecnologia, para que não caiamos no buraco de sempre.</p>



<p></p>
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