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	<title>#imprensa | Artigos, Pesquisas e Estudos - Science Arena</title>
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	<description>Science Arena - Ciências da saúde &#124; Para quem vê o mundo através da ciência</description>
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		<title>Imprensa disseminou práticas de higiene no século XIX</title>
		<link>https://www.sciencearena.org/entrevistas/imprensa-disseminou-praticas-de-higiene-no-seculo-xix/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Clóvis Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Apr 2024 19:09:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[#comunicação]]></category>
		<category><![CDATA[#higiene]]></category>
		<category><![CDATA[#história da medicina]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Com chegada da Corte portuguesa ao Brasil, veículos jornalísticos exerceram papel destacado na promoção da saúde</p>
<p>O post <a href="https://www.sciencearena.org/entrevistas/imprensa-disseminou-praticas-de-higiene-no-seculo-xix/">Imprensa disseminou práticas de higiene no século XIX</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.sciencearena.org">Science Arena</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Durante boa parte do século XIX, os meios de comunicação médicos e de interesse geral tiveram um papel decisivo na mudança da rotina da população brasileira. Antes, cuidar do corpo, se preocupar com medidas de higiene e ir à praia eram temas proibidos. Mas eles passaram a fazer parte da rotina nas últimas décadas do Império.&nbsp;</p>



<p>É isso o que mostra a pesquisa <a href="https://www.scielo.br/j/hcsm/a/GyVGM3PjQWd56WhdpMNprYD/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">“Do cuidado do corpo: imprensa e higiene no Rio de Janeiro oitocentista”</a>, de Vinicius Cranek Gagliardo, doutor em história pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e professor da rede municipal de ensino de Araras, interior de São Paulo. O recorte temporal do estudo compreende o período que vai da chegada da Corte portuguesa ao Brasil, em 1808, até as vésperas da Proclamação da República em 1889. </p>



<p>De acordo com Gagliardo, dentre os temas que entraram no debate público por conta da imprensa, estavam o uso ou não do espartilho e a prática da medicina indígena.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Science Arena &#8211; Como surgiu sua pesquisa? A escolha do tema partiu de qual processo?</strong></h2>



<p><strong>Vinicius Gagliardo</strong> &#8211; Esse trabalho é resultado do meu projeto de doutorado, que, na verdade, é também um desdobramento do que havia pesquisado no mestrado, ambos realizados na Unesp, sob orientação do historiador Jean Marcel Carvalho França. Antes, também havia estudado a cidade do Rio de Janeiro, com um recorte temporal parecido. No mestrado, o foco foi nos aspectos físicos da cidade, na estrutura urbana mesmo, que estava sendo transformada naquele período. </p>



<p>Procurei entender a questão do lixo na rua e investigar como as construções em si deveriam ter sido feitas. No momento de decidir pelo doutorado, me veio a ideia de analisar também a população. Foi quando comecei a pensar em como aquele novo modelo de civilização foi implantado no século XIX.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O que o surpreendeu na pesquisa?</strong></h2>



<p>O mais interessante, quando observei toda a proposta pedagógica construída pelos jornalistas ao longo do século XIX, é a mudança radical que ocorreu na concepção de higiene, de cuidado com o corpo e nas questões de saúde, algo totalmente natural atualmente.</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>É bem interessante perceber o processo de construção da história, porque ele nos mostra que nem sempre tudo foi tão &#8220;natural&#8221; como hoje. Isso é surpreendente.</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Quais tipos de publicação você analisou?</strong></h2>



<p>Além dos periódicos escritos por médicos, também havia os jornais de circulação geral, que falavam de moda, moral e vestimentas. Eram publicações dos mais variados gêneros que, de algum modo, traziam reflexões sobre o cuidado com o corpo e com a higiene. Existiam publicações específicas, por exemplo, para o público feminino, e produzidos não necessariamente por médicos. Nesses jornais, era possível encontrar reportagens a respeito de como a mulher deveria se vestir e se alimentar, além de textos sobre saúde e higiene.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Isso acontecia apenas no Brasil?</strong></h2>



<p>No Brasil do século XIX, a medicina começou a ser pensada como uma &#8220;medicina preventiva&#8221;, ou o que se chamava também de &#8220;medicina social&#8221;. A ideia era que, em vez de simplesmente curar uma doença emergente, caberia investir na sua prevenção, a fim de conter seu alastramento na população. </p>



<p>Este movimento que emergia no Brasil, nas páginas de algumas revistas e periódicos acadêmicos, já estava forte na Europa. O modelo social baseado na higiene era realidade em países como França e Inglaterra. No Brasil, as mesmas ideias vieram com a chegada da Corte portuguesa em 1808.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Existem estudos e relatos históricos que mostram um &#8220;choque cultural&#8221; entre as práticas de higiene dos europeus e dos indígenas. Esse tema apareceu na sua pesquisa? </strong>&nbsp;</h2>



<p>De fato, os indígenas aqui eram mais acostumados aos banhos de rio, o que não era uma prática tão percebida assim nas populações europeias. Meu estudo, entretanto, captou a relação entre europeus e indígenas sob outro aspecto. </p>



<p>Os periódicos médicos que analisei publicavam textos escritos por médicos que começavam a se instalar no Rio de Janeiro, e que combatiam a medicina praticada pelos indígenas, baseada em conhecimentos tradicionais. Naquela época, era o pajé da tribo quem normalmente manipulava uma série de plantas, pelo fato de conhecer muito da flora local e saber identificar propriedades medicinais delas. Todo o conhecimento era usado para a cura. </p>



<p>Contudo, os médicos europeus encaravam isso quase como uma concorrência. Isto é, uma intromissão em um campo d conhecimento que deveria ser exclusivo deles, na visão desses médicos. </p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>Algo que é muito presente nos periódicos analisados, principalmente nos médicos, é um combate às práticas indígenas e africanas de saúde. </p></blockquote></figure>



<p>Isso tudo para mostrar que o ofício da cura deveria permanecer apenas sob o cuidado dos europeus, sem ao menos se tentar aproveitar o conhecimento de outros grupos, como os povos indígenas.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Um dos exemplos de mudança no comportamento retratado pelos jornais era a questão do uso do espartilho. O que se dizia nos periódicos analisados?</strong></h2>



<p>Durante todo o século XIX, o espartilho [um tipo de cinta feita de tecido, que ia dos quadris aos seios da mulher, comprimindo a cintura e, em muitos casos, causando falta de ar] foi considerado a principal peça do vestuário feminino. </p>



<p>Isso não impediu que uma gama de médicos publicassem nos jornais textos que combatiam o uso da vestimenta. Para aqueles profissionais, era uma peça de vestuário que causava danos ao corpo da mulher, por forçar a alteração física dele. </p>



<p>Era muito comum que médicos afirmassem que o funcionamento interno dos órgãos femininos poderia sofrer alterações devido à compressão provocada pela peça. Também a maternidade, algo muito valorizado no século XIX como papel da mulher, poderia ser afetada, diziam os médicos. </p>



<p>A visão era de que determinadas tradições coloniais precisavam ser superadas, porque se isso não ocorresse o Brasil não conseguiria caminhar nos mesmos rumos que a Europa.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Além da questão da saúde, também houve uma mudança de visão em relação aos cuidados com o corpo. Como isso aparecia?</strong></h2>



<p>A prática esportiva era outro tópico que passou a ser muito valorizado pelos textos da imprensa de uma forma geral naquela época. Os banhos de mar – e hoje a gente vê que em qualquer feriado prolongado as pessoas lotam as praias brasileiras – era algo impensável até então. </p>



<p>As praias do Brasil, naquela época, eram usadas por navios ou para jogar lixo. Não havia nada parecido com uma rede de esgoto nas cidades. Tudo o que era produzido em termos de dejetos acabava parando nas praias. Os banhos de mar eram inviáveis. </p>



<p>Os periódicos, então, também tiveram o papel de defender que não se jogasse esgoto no mar para que, justamente, a população pudesse usufruir das praias e dos banhos de mar. Inclusive com o pretexto de que frequentar as praias faria bem à saúde das pessoas e contribuiria para a própria higiene da população. </p>



<p>É bem interessante perceber como processos e comportamentos foram se alterando ao longo do tempo, com a participação da imprensa.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Sua pesquisa mostra que a imprensa teve um papel determinante na promoção de saúde durante o século XIX. Podemos seguir o mesmo raciocínio em relação à pandemia de covid-19?</strong></h2>



<p>O paralelo é totalmente cabível. Da mesma forma que a imprensa tinha, naquela época, um campo de poder, que de alguma forma acabou prescrevendo algumas condutas ao selecionar o que publicar ou não, o mesmo comportamento a gente percebe em outros momentos históricos desde o século XIX.</p>



<p>O papel de difundir o conhecimento e as notícias, assim como também ocorreu na pandemia, é algo que a imprensa e o jornalismo conseguiram manter ao longo de todo esse tempo.&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>
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