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Carreira científica: como o ambiente da pós-graduação pode acabar se tornando hostil?
As pressões que cercam os alunos no meio acadêmico pode transformar o espaço de atuação em um local prejudicial à saúde mental
De acordo com a neurocientista Elisa Kozasa, orientadores acadêmicos precisam ter competência emocional para saber lidar com orientandos que se encontram ansiosos, estressados ou deprimidos | Imagem: Unsplash
A trajetória na carreira científica é marcada por diversos desafios, capazes de afetar a saúde mental dos alunos, especialmente os que fazem mestrado e doutorado. As pressões que cercam um projeto e os ambientes acadêmicos pouco amigáveis podem gerar angústia e aumentar os níveis de estresse.
Ainda, alguns hábitos de consumo prejudicam o bom funcionamento do organismo, como a ingestão excessiva de café. Muitos podem pensar que essa é uma estratégia para combater o estresse, mas o impacto no corpo acaba sendo negativo.
A falta de propósito na atividade
Cada acadêmico tem uma rotina e um perfil diferente. Muitos têm filhos e, até mesmo, outros empregos além da pesquisa para complementar a renda. Por isso, em entrevista ao Science Arena, a neurocientista Elisa Harumi Kozasa, pesquisadora do Einstein Hospital Israelita, destacou que é preciso observar qual projeto se adequa melhor à vida do pesquisador em início de carreira.
Além de fazer essa análise antes de tomar uma decisão, é importante ter clareza sobre o que será feito no projeto. A falta desse direcionamento pode fazer com que o aluno de pós-graduação não veja propósito na atividade, perdendo até mesmo o prazer de realizá-la.
Para evitar esse problema, Kozasa reforça a necessidade do aluno dimensionar as coisas. “Existem projetos em que você precisa realmente estar full time, talvez um laboratório ou fazendo cultura de células, e você não sabe exatamente quando poderá parar, precisando estar lá todo dia, vendo o que está acontecendo”, exemplificou.
Quem também ajuda o acadêmico a estabelecer o seu objetivo no programa é o orientador. A neurocientista comenta que o profissional precisa entender o contexto do aluno que está chegando antes de aceitá-lo, e explicar o tema da pesquisa com mais profundidade.
Confira na íntegra a entrevista de Elisa Kozasa ao Science Arena:
As consequências de um ambiente hostil
De acordo com Kozasa, escolher um orientador vai além de suas competências técnicas. Para ela, as instituições também devem levar em consideração as competências emocionais do profissional para evitar um ambiente hostil.
“Muitas vezes, o aluno chega feliz de poder estar em uma instituição para fazer um mestrado ou doutorado. De repente, ele vai se iludir, se entristecer, desistir, deprimir, ficar ansioso e, até mesmo, ter ideação suicida”, destacou.
Além disso, em meio ao foco nas pesquisas, muitos estudantes acabam se isolando de seu círculo social.
Esse hábito pode ser ainda mais intensificado se o local onde a pessoa atua é competitivo e pouco amigável.

No entanto, o isolamento não é bom para o psicológico, uma vez que a socialização é importante para buscar apoio.
Kozasa explicou que os relacionamentos são uns dos maiores fatores que protegem a saúde mental de jovens pesquisadores.
Por isso, mesmo que a pessoa seja mais tímida, é necessário ter entre duas e três pessoas de confiança para compartilhar as dificuldades durante esse processo.
Cuidado com hábitos de consumo é essencial
Aqueles que enfrentam uma rotina estressante, com prazos apertados e muitas demandas, acabam recorrendo a bebidas como café e energéticos.
Conforme a neurocientista, o consumo em excesso dessas bebidas significa que a pessoa já está cansada ou exausta. “A solução é descansar”, ressaltou.
Outra prática saudável que ajuda o corpo e a mente a relaxarem é a atividade física. “Nós temos um mecanismo de feedback do corpo para o cérebro. Então, o seu cérebro percebe o seu corpo mais relaxado e ele também vai entender que existe uma possibilidade da mente relaxar”, completou Kozasa.
Essa atividade auxilia, até mesmo, nos momentos em que o aluno esteja se sentindo travado com as suas demandas.
Para ler o conteúdo completo sobre saúde mental na pós-graduação, veja a entrevista completa nesta matéria do Science Arena.
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