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19.01.2026 Perfil

Carreira médica: como transitar entre clínica, pesquisa e indústria

Com experiência em endocrinologia, pesquisa clínica e farmacovigilância, Sonia Mansoldo Dainesi compartilha conselhos para médicos que avaliam mudanças de área

Retrato de Sonia Mansoldo Dainesi, uma mulher sentada em um sofá, em ambiente interno, com postura relaxada e expressão serena. Ela veste roupas em tons claros e azul, transmitindo profissionalismo e acolhimento. Ao fundo, elementos decorativos discretos reforçam um clima sóbrio e contemporâneo. A médica endocrinologista Sonia Mansoldo Dainesi: Curiosidade, redes profissionais e compromisso com o paciente estão entre os princípios destacados pela profissional ao refletir sobre sua própria trajetória na medicina e na pesquisa | Imagem: Arquivo Pessoal

A medicina, para muitos, pode ser um chamado precoce, quase um sonho de criança. Para Sonia Mansoldo Dainesi, no entanto, a escolha não foi tão óbvia. “Eu era muito estudiosa e fazia aquilo com naturalidade, mas também por necessidade: precisava manter as notas altas para não perder a bolsa no cursinho”, relembra.

Seu objetivo inicial era cursar psicologia ou até mesmo educação física, já que era apaixonada por esportes. Mas o bom desempenho nos simulados a levou para a medicina – escolha que assustou seus pais pela longa duração do curso.

Filha de uma costureira e de um operário, foi a primeira das três irmãs a buscar o ensino superior. Entrou nas universidades Federal de São Paulo (Unifesp) e de São Paulo (USP), escolhendo estudar nesta última, onde se formou em 1982.

Após a residência em endocrinologia, seguiu o caminho tradicional: abriu consultório e trabalhou em centros de saúde. Até que, em um domingo, um anúncio de classificados mudaria tudo.

“Na sessão de empregos, havia um classificado pedindo médico para a indústria. Eu não tinha ideia do que se fazia na indústria, não conhecia ninguém, mas pensei: ‘Ah, sei lá, eu sempre fui muito curiosa, vamos mandar um currículo e ver o que acontece’. E foi exatamente assim que começou a minha carreira na indústria farmacêutica”, recorda.

Na antiga Rhodia Farma, conciliou a clínica com o novo emprego. De dia, trabalhava na área regulatória da empresa, preparando dossiês para submissão a agências. No final do dia, atendia no consultório e em centros de saúde.

A experiência se ampliou em 1990, quando foi morar por dois anos na Holanda. No estágio na Free University of Amsterdam, combinou sua especialidade em endocrinologia com a pesquisa clínica.

Essa vivência acabou consolidando sua escolha por deixar a clínica e seguir carreira na indústria.

Pesquisa clínica e novos horizontes

De volta ao Brasil, ingressou em outra farmacêutica, na área hoje conhecida como medical affairs, oferecendo suporte a setores de marketing e comercial. “Qualquer coisa que você for dizer referente a um medicamento, tem que ser baseado em evidência, não é simples fazer propaganda”, explica.

Gradualmente, ampliou sua atuação para a farmacovigilância — área dedicada a monitorar medicamentos após a comercialização. “Tudo sempre foi acontecendo de forma muito natural. A farmacovigilância é mais um desses exemplos, onde tenho, inclusive, artigos publicados sobre o tema”, conta.

Mais tarde, entrou no campo de pesquisa clínica em oncologia, repleto de desafios e alta demanda por inovação. “Foi um desafio enorme. Mas, por outro lado, foi uma área que acabou me dando uma oportunidade boa, porque a oncologia tinha e continua tendo uma necessidade de novos medicamentos muito grande, surgem novas drogas a todo tempo. Pude presenciar a evolução de tratamentos usados até hoje, incluindo imunobiológicos e ‘drogas alvo’”, relembra.

O retorno à academia e ao Sistema Único de Saúde (SUS)

Em 2005, após sair de uma farmacêutica em decorrência de uma fusão, Dainesi foi convidada a estruturar centros de pesquisa clínica no Hospital das Clínicas da USP. “Foi delicioso voltar à academia”, diz.

A experiência a levou a um doutorado em medicina preventiva, relacionado à pesquisa clínica e concluído em 2011.

Esse percurso acadêmico lhe deu clareza sobre os diferentes papéis de cada setor. Participou ainda da criação da Rede Nacional de Pesquisa Clínica do Ministério da Saúde, que ampliou os investimentos nos centros de pesquisa.

“A academia gera conhecimento, muitas vezes ainda sem valor agregado imediato. O setor privado desenvolve medicamentos e busca lucro. E o governo conecta tudo isso em larga escala.” resume.

Estigma e integração entre mundos

Migrar da clínica para a indústria, nas décadas de 1980 e 1990, não era bem-visto. “Antigamente, um médico que migrava era visto como alguém que ‘traiu a medicina’ ou não gostava de cuidar de pacientes – prática que eu mais senti saudades na migração”, conta.

Hoje, acredita que o cenário é diferente, em parte devido à pandemia. “Brinco que, por exemplo, a pandemia foi uma coisa, entre muitas aspas, útil, para as pessoas entenderem a metodologia e importância da pesquisa. O preconceito diminuiu”, avalia. Ainda assim, defende mudanças de mentalidade.

“É fundamental acabar com a ideia de que um profissional da iniciativa privada não é ‘bom’ ou não tem ‘boa índole’. É necessário divulgar mais sobre as oportunidades existentes na indústria para profissionais de saúde e como essa transição pode acontecer”, afirma Dainesi.

Ela sugere maior aproximação entre os setores: “Tanto a academia deve abrir espaço para profissionais da indústria, como aconteceu comigo no HC, quanto o mundo corporativo deve valorizar PhDs e pesquisadores técnicos, mesmo que não entendam de negócios inicialmente, pois seu conhecimento científico é crucial”.

Conselhos de carreira

Ao olhar para trás, Sonia afirma que cada mudança a moldou como profissional. Para jovens médicos e pesquisadores, deixa recomendações práticas:

Acredite em você

Dê vazão à sua vontade de migrar ou experimentar novas áreas. E saiba que pode voltar.

Mantenha conexões

Deixe boas relações por onde passar, elas abrem portas.

Teste possibilidades

Experimente novas funções sem abandonar totalmente a clínica.

Não perca o paciente de vista

Independentemente do setor, o objetivo do médico é cuidar de pessoas.

Dedicação e estudo

Persistência e preparo são fundamentais para vencer preconceitos.

“A minha própria experiência, desde a infância humilde até todas as mudanças que a vida me proporcionou, me moldaram e me fizeram acreditar na importância dos meus princípios e valores, independentemente do ambiente de trabalho”, avalia.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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