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08.06.2026 Formação

Doutorandos em saúde são preparados para pesquisar, mas pouco para liderar

Levantamento internacional expõe a falta de iniciativas consistentes de formação em liderança nos programas de doutorado da área

Grupo de pessoas sentadas ao redor de uma mesa de madeira em reunião. Em primeiro plano, mãos seguram uma caneta sobre um caderno aberto. Ao fundo, outros participantes com cadernos e materiais sobre a mesa. Ambiente iluminado por luz natural. Todos vestem roupas casuais. A mentoria, bem alinhada ao contexto e às necessidades do aluno, destacou-se como a prática mais efetiva nos programas analisados | Imagem: Unsplash

A liderança é amplamente reconhecida como competência essencial para a transformação dos sistemas de saúde, mas os programas de doutorado da área dispõem de poucas iniciativas para desenvolvê-la. 

É o que aponta uma revisão de escopo publicada na revista Health Policy por pesquisadores do Swiss Tropical and Public Health Institute, da Universidade de Basel, da Columbia University e da Universidade de Maastricht.

De uma amostra de 394 artigos levantados em três bases bibliográficas internacionais (Medline, PsycInfo e ERIC), publicados entre 2000 e 2024, os pesquisadores encontraram apenas 7 estudos que abordavam o tema.

O que é liderança transformacional?

1. Orientação coletiva

inspira seguidores a superar interesses pessoais em favor de um objetivo comum.

2. Estímulo à inovação

encoraja o questionamento de premissas estabelecidas e o pensamento criativo.

3. Foco no longo prazo

prioriza desenvolvimento sustentável — não resultados imediatos —, aumentando motivação e engajamento.

4. Decisão baseada em evidências

favorece ambientes em que dados orientam escolhas, mesmo em cenários de crise ou incerteza.

5. Distinção conceitual

contrasta com a liderança transacional (baseada em recompensa/punição) e com modelos puramente hierárquicos.

Escassez de evidências e de padrões

Os 7 estudos foram conduzidos em contextos bastante diferentes: quatro nos Estados Unidos, um na Nova Zelândia e Bangladesh, um na Irlanda e um no Irã e Oriente Médio. 

Apenas um deles utilizou uma ferramenta validada para medir competências de liderança: o Multifactor Leadership Questionnaire (MLQ). Os demais recorreram a avaliações reflexivas ou descritivas, o que limita a comparabilidade e a transferência dos resultados.

Os autores reconhecem que as evidências ainda são escassas e heterogêneas, e que é necessário desenvolver ferramentas de avaliação mais robustas, além de ampliar as pesquisas para diferentes contextos populacionais, sociais e geográficos.

Liderança transformacional e modelos alternativos

Quatro dos sete estudos focaram especificamente na liderança transformacional, estilo de gestão que busca inspirar, motivar e engajar equipes em torno de objetivos coletivos. 

Os três restantes adotaram modelos alternativos, sem base teórica única:

A diversidade de abordagens, sem um modelo dominante fora do contexto da liderança transformacional, reforça a conclusão dos autores de que o campo ainda carece de consenso sobre as melhores práticas.

Apesar das diferenças de abordagem, o conteúdo dos programas convergiu em algumas áreas centrais. As técnicas de ensino mais utilizadas foram discussões em grupo, aprendizado colaborativo e aprendizado experiencial, todas presentes nos 7 estudos

As áreas de conteúdo mais frequentes foram:

Mentoria: a prática com maior efeito mensurável

Entre todas as intervenções analisadas, a mentoria foi a que produziu a evidência mais robusta. O programa M³ (Multi-Modality Mentoring), aplicado a 54 bolsistas de saúde pública, farmácia e medicina em universidades dos Estados Unidos, mostrou melhora estatisticamente significativa em liderança transformacional em apenas 9 semanas.

O escore médio dos participantes no MLQ subiu de 61,88 para 65,59 (em uma escala total de 80 pontos). O tamanho do efeito calculado foi de Cohen’s d = 0,49, classificado pelos próprios autores como “alto e desejável” — especialmente considerando a curta duração do programa.

“Reforçar o ensino de liderança transformacional nos programas de doutorado é a chave para preparar a força de trabalho na área da saúde para o futuro”, afirmam os autores.

A mentoria se destaca, segundo os autores, por sua capacidade de adaptação ao contexto e às necessidades individuais de cada aluno. O doutorado seria o momento ideal para esse tipo de formação: os alunos estão próximos de entrar no mercado, mas ainda assimilam facilmente modelos inovadores.

O que é preciso saber para liderar grupos de pesquisa?

Um alerta que não é novo

A ausência de formação em liderança na área da saúde não é um problema recente. Em 1988, o Institute of Medicine (IOM) publicou o relatório The Future of Public Health com uma frase que mantém a atualidade: “Today the need for leaders is too great to leave their emergence to chance” (“A necessidade de líderes é grande demais para deixar seu surgimento ao acaso”).

Quase quatro décadas depois, a escassez de estudos sobre o tema sugere que o problema permanece estrutural. A revisão de 2025 é, ela própria, um sinal disso: em 24 anos de literatura científica, apenas 7 estudos relevantes.

A revisão não permite conclusões claras sobre quais abordagens são mais efetivas — as evidências ainda são escassas. Mas abre uma discussão necessária sobre como incluir o desenvolvimento de liderança transformacional nos programas de doutorado em saúde.

Próximos passos para a pesquisa

Os autores sugerem que pesquisas futuras verifiquem se determinadas competências de liderança são especialmente relevantes em contextos sociais, geográficos e populacionais específicos, e qual é a melhor forma de desenvolvê-las. 

Estudos comparativos e longitudinais são recomendados para identificar modelos adaptáveis e medir o impacto de longo prazo de egressos treinados em liderança.

Uma vez identificadas as competências mais cruciais em cada contexto, a educação em liderança transformacional pode ser inserida como elemento central em estratégias educacionais voltadas a fortalecer sistemas de saúde resilientes e igualitários — incluindo lideranças para mudanças climáticas, segurança alimentar, proteção ambiental e políticas sociais.

Como se preparar para a liderança durante o doutorado

1. Busque um programa de mentoria estruturada: É a intervenção com maior evidência de efeito. Programas de até 9 semanas com mentoria individualizada mostraram ganhos mensuráveis em liderança transformacional (Cohen’s d = 0,49). Procure fellowships, programas de pós-graduação ou redes institucionais que ofereçam esse formato.

2. Participe de metodologias ativas: Discussões em grupo, resolução de problemas reais e feedback colaborativo estavam presentes em todos os 7 estudos analisados. São práticas que desenvolve autoconhecimento, comunicação e tomada de decisão — competências centrais da liderança transformacional.

3. Procure experiências práticas intersetoriais: Os autores recomendam estágios e projetos em contextos fora da academia — governo, ONGs, comunidades. Essas experiências constroem competências difíceis de desenvolver no ambiente exclusivamente acadêmico, como adaptação a cenários complexos e mobilização coletiva.

4. Cultive uma rede de colaboração: O aprendizado colaborativo foi identificado como um dos principais drivers de desenvolvimento de liderança. Cultivar pares, participar de redes internacionais e engajar-se em publicações conjuntas são formas de desenvolver essa competência ao longo do doutorado.

5. Invista em autoconhecimento e reflexão: Todos os programas analisados incluíram alguma forma de reflexão sobre o próprio estilo de liderança. O conhecimento das próprias forças e limitações é apontado pelos autores como pré-requisito para exercer influência positiva sobre equipes e sistemas.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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