#Carreiras
Doutorandos em saúde são preparados para pesquisar, mas pouco para liderar
Levantamento internacional expõe a falta de iniciativas consistentes de formação em liderança nos programas de doutorado da área
A mentoria, bem alinhada ao contexto e às necessidades do aluno, destacou-se como a prática mais efetiva nos programas analisados | Imagem: Unsplash
A liderança é amplamente reconhecida como competência essencial para a transformação dos sistemas de saúde, mas os programas de doutorado da área dispõem de poucas iniciativas para desenvolvê-la.
É o que aponta uma revisão de escopo publicada na revista Health Policy por pesquisadores do Swiss Tropical and Public Health Institute, da Universidade de Basel, da Columbia University e da Universidade de Maastricht.
De uma amostra de 394 artigos levantados em três bases bibliográficas internacionais (Medline, PsycInfo e ERIC), publicados entre 2000 e 2024, os pesquisadores encontraram apenas 7 estudos que abordavam o tema.
O que é liderança transformacional?
-
1. Orientação coletiva
-
inspira seguidores a superar interesses pessoais em favor de um objetivo comum.
-
2. Estímulo à inovação
-
encoraja o questionamento de premissas estabelecidas e o pensamento criativo.
-
3. Foco no longo prazo
-
prioriza desenvolvimento sustentável — não resultados imediatos —, aumentando motivação e engajamento.
-
4. Decisão baseada em evidências
-
favorece ambientes em que dados orientam escolhas, mesmo em cenários de crise ou incerteza.
-
5. Distinção conceitual
-
contrasta com a liderança transacional (baseada em recompensa/punição) e com modelos puramente hierárquicos.
Escassez de evidências e de padrões
Os 7 estudos foram conduzidos em contextos bastante diferentes: quatro nos Estados Unidos, um na Nova Zelândia e Bangladesh, um na Irlanda e um no Irã e Oriente Médio.
Apenas um deles utilizou uma ferramenta validada para medir competências de liderança: o Multifactor Leadership Questionnaire (MLQ). Os demais recorreram a avaliações reflexivas ou descritivas, o que limita a comparabilidade e a transferência dos resultados.
Os autores reconhecem que as evidências ainda são escassas e heterogêneas, e que é necessário desenvolver ferramentas de avaliação mais robustas, além de ampliar as pesquisas para diferentes contextos populacionais, sociais e geográficos.
Liderança transformacional e modelos alternativos
Quatro dos sete estudos focaram especificamente na liderança transformacional, estilo de gestão que busca inspirar, motivar e engajar equipes em torno de objetivos coletivos.
Os três restantes adotaram modelos alternativos, sem base teórica única:
- Modelo de Visão Compartilhada de Peter Senge;
- Comunidades de aprendizagem;
- Framework Nine Best Practices for Leadership Training.
A diversidade de abordagens, sem um modelo dominante fora do contexto da liderança transformacional, reforça a conclusão dos autores de que o campo ainda carece de consenso sobre as melhores práticas.
Apesar das diferenças de abordagem, o conteúdo dos programas convergiu em algumas áreas centrais. As técnicas de ensino mais utilizadas foram discussões em grupo, aprendizado colaborativo e aprendizado experiencial, todas presentes nos 7 estudos.
As áreas de conteúdo mais frequentes foram:
- Desenvolvimento de liderança: abordado nos 7 estudos;
- Crescimento pessoal e profissional: presente em 6 dos 7 estudos;
- Trabalho em equipe e colaboração: presente em 6 dos 7 estudos;
- Modelos e frameworks de liderança: presente em 6 dos 7 estudos;
Mentoria: a prática com maior efeito mensurável
Entre todas as intervenções analisadas, a mentoria foi a que produziu a evidência mais robusta. O programa M³ (Multi-Modality Mentoring), aplicado a 54 bolsistas de saúde pública, farmácia e medicina em universidades dos Estados Unidos, mostrou melhora estatisticamente significativa em liderança transformacional em apenas 9 semanas.
O escore médio dos participantes no MLQ subiu de 61,88 para 65,59 (em uma escala total de 80 pontos). O tamanho do efeito calculado foi de Cohen’s d = 0,49, classificado pelos próprios autores como “alto e desejável” — especialmente considerando a curta duração do programa.
“Reforçar o ensino de liderança transformacional nos programas de doutorado é a chave para preparar a força de trabalho na área da saúde para o futuro”, afirmam os autores.
A mentoria se destaca, segundo os autores, por sua capacidade de adaptação ao contexto e às necessidades individuais de cada aluno. O doutorado seria o momento ideal para esse tipo de formação: os alunos estão próximos de entrar no mercado, mas ainda assimilam facilmente modelos inovadores.
O que é preciso saber para liderar grupos de pesquisa?
Um alerta que não é novo
A ausência de formação em liderança na área da saúde não é um problema recente. Em 1988, o Institute of Medicine (IOM) publicou o relatório The Future of Public Health com uma frase que mantém a atualidade: “Today the need for leaders is too great to leave their emergence to chance” (“A necessidade de líderes é grande demais para deixar seu surgimento ao acaso”).
Quase quatro décadas depois, a escassez de estudos sobre o tema sugere que o problema permanece estrutural. A revisão de 2025 é, ela própria, um sinal disso: em 24 anos de literatura científica, apenas 7 estudos relevantes.
A revisão não permite conclusões claras sobre quais abordagens são mais efetivas — as evidências ainda são escassas. Mas abre uma discussão necessária sobre como incluir o desenvolvimento de liderança transformacional nos programas de doutorado em saúde.
Próximos passos para a pesquisa
Os autores sugerem que pesquisas futuras verifiquem se determinadas competências de liderança são especialmente relevantes em contextos sociais, geográficos e populacionais específicos, e qual é a melhor forma de desenvolvê-las.
Estudos comparativos e longitudinais são recomendados para identificar modelos adaptáveis e medir o impacto de longo prazo de egressos treinados em liderança.
Uma vez identificadas as competências mais cruciais em cada contexto, a educação em liderança transformacional pode ser inserida como elemento central em estratégias educacionais voltadas a fortalecer sistemas de saúde resilientes e igualitários — incluindo lideranças para mudanças climáticas, segurança alimentar, proteção ambiental e políticas sociais.
Como se preparar para a liderança durante o doutorado
1. Busque um programa de mentoria estruturada: É a intervenção com maior evidência de efeito. Programas de até 9 semanas com mentoria individualizada mostraram ganhos mensuráveis em liderança transformacional (Cohen’s d = 0,49). Procure fellowships, programas de pós-graduação ou redes institucionais que ofereçam esse formato.
2. Participe de metodologias ativas: Discussões em grupo, resolução de problemas reais e feedback colaborativo estavam presentes em todos os 7 estudos analisados. São práticas que desenvolve autoconhecimento, comunicação e tomada de decisão — competências centrais da liderança transformacional.
3. Procure experiências práticas intersetoriais: Os autores recomendam estágios e projetos em contextos fora da academia — governo, ONGs, comunidades. Essas experiências constroem competências difíceis de desenvolver no ambiente exclusivamente acadêmico, como adaptação a cenários complexos e mobilização coletiva.
4. Cultive uma rede de colaboração: O aprendizado colaborativo foi identificado como um dos principais drivers de desenvolvimento de liderança. Cultivar pares, participar de redes internacionais e engajar-se em publicações conjuntas são formas de desenvolver essa competência ao longo do doutorado.
5. Invista em autoconhecimento e reflexão: Todos os programas analisados incluíram alguma forma de reflexão sobre o próprio estilo de liderança. O conhecimento das próprias forças e limitações é apontado pelos autores como pré-requisito para exercer influência positiva sobre equipes e sistemas.
*
É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).