Falta de tempo limita pesquisa de jovens oncologistas, mostra estudo
Levantamento internacional revela que três em cada quatro médicos enfrentam dificuldades para realizar e publicar pesquisas em oncologia
Falta de tempo protegido para pesquisa é apontada por 77% dos jovens oncologistas como principal barreira à ciência | Imagem gerada por IA
Mais de três quartos (75,8%) dos jovens pesquisadores em início de carreira em oncologia afirmam enfrentar dificuldades para desenvolver e publicar novos estudos. Entre os principais obstáculos estão:
- A falta de tempo protegido para a pesquisa;
- A limitação de recursos financeiros;
- O apoio insuficiente para submissão de projetos e pedidos de financiamento.
A conclusão é de um levantamento internacional sobre formação, necessidades e aspirações de oncologistas em início de carreira, conduzido pela comunidade de Young and Early-Career Investigators (Y-ECI) da European Organisation for Research and Treatment of Cancer (EORTC) e publicado no periódico ESMO Gastrointestinal Oncology, mantido pela editora Elsevier em nome da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO, na sigla em inglês).
Falta de tempo protegido para pesquisa é apontada por 77% dos jovens oncologistas como a principal barreira ao avanço científico.
Um campo cada vez mais complexo
O câncer continua sendo um dos principais desafios globais de saúde pública, com taxas de incidência em crescimento no mundo.
Ao mesmo tempo, o cuidado oncológico vem se tornando cada vez mais complexo, exigindo abordagens integradas, modelos multidisciplinares de atendimento e a participação de diversas especialidades médicas.
Nesse cenário, jovens médicos e pesquisadores ligados à oncologia desempenham papel central no avanço da pesquisa e no desenvolvimento de práticas clínicas inovadoras.
Apesar da ampliação das oportunidades de atuação em pesquisa nos últimos anos, cientistas em início de carreira ainda enfrentam dificuldades para permanecer no ambiente acadêmico a longo prazo.
Para compreender melhor esse cenário, pesquisadores de diferentes instituições europeias aplicaram um questionário online entre setembro e outubro de 2024, com 29 perguntas sobre perfil demográfico, trajetória profissional, experiência em pesquisa e dificuldades enfrentadas.
O levantamento recebeu 301 respostas, das quais 200 (66,7%) atendiam aos critérios de Early-Career Investigator da EORTC e tiveram seus dados efetivamente analisados no estudo.
É a esse grupo de 200 profissionais que se referem os percentuais apresentados a seguir.
Maioria feminina e forte interesse em pesquisa
A maioria dos participantes analisados era composta por mulheres (62,4%), com idade entre 31 e 35 anos (38,7%), nos primeiros anos após a conclusão da especialização — reflexo de um aumento da participação feminina na oncologia, mudança considerada positiva pelos autores, sobretudo diante dos desafios relacionados à liderança e à progressão na carreira.
Apesar de atuarem predominantemente em funções clínicas, quase todos os participantes demonstraram forte interesse em pesquisa, especialmente em ensaios clínicos (66,2%).
Segundo o estudo, esse interesse costuma surgir ainda durante a formação médica, embora isso nem sempre seja suficiente para garantir uma carreira científica estável.
Ao todo, 73,7% dos participantes já haviam publicado estudos científicos, o que indica participação ativa em atividades de pesquisa, dado considerado positivo não apenas para o avanço do conhecimento científico, mas também para o fortalecimento dos sistemas de saúde e a melhoria do cuidado por meio da adoção de práticas baseadas em evidências.
Rotina clínica deixa pouco espaço para pesquisa
O dado que mais chama atenção, no entanto, é que a maior parte dos entrevistados era formada por oncologistas clínicos (69,6%), atuando predominantemente em centros acadêmicos (58,8%) e desempenhando funções clínicas que ofereciam pouco ou nenhum tempo para o desenvolvimento de novos estudos (77% do total).
Segundo os autores, o dado chama atenção porque muitos participantes trabalhavam em instituições acadêmicas, onde seria esperado maior incentivo a atividades de pesquisa.
Esse problema foi relatado com mais frequência por pesquisadores mais experientes: 86% entre aqueles com 35 anos ou mais, contra 71% entre os mais jovens.
A diferença pode refletir tanto o aumento de responsabilidades administrativas quanto pressões familiares ao longo da carreira.
Limitação de recursos financeiros (48,2%) e apoio insuficiente para submissão de projetos e pedidos de financiamento (47,1%) também foram apontados como barreiras que dificultam o envolvimento em pesquisa oncológica.
Desigualdades de gênero persistem na pesquisa oncológica
O estudo também identificou desigualdades de gênero: mulheres pesquisadoras relataram, com frequência muito maior que os homens, que o fato de serem mulheres impactava negativamente sua produção científica, uma diferença estatisticamente significativa segundo os autores, que sugere a persistência de barreiras estruturais para a progressão feminina na pesquisa oncológica.
Pesquisadoras têm sete vezes mais chances de apontar o próprio gênero como barreira à produção científica em oncologia.
Os resultados reforçam a necessidade de:
- Iniciativas mais inclusivas, com melhor equilíbrio entre carga de trabalho e vida pessoal;
- Mais tempo dedicado à pesquisa;
- Programas de mentoria;
- Apoio ao desenvolvimento profissional;
- Investimentos em oportunidades mais equitativas, de modo a fortalecer redes de pesquisa mais diversas e inclusivas.
O que mais limita a pesquisa de jovens oncologistas
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1. Falta de tempo protegido
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77% dos respondentes afirmam que a rotina clínica deixa pouco ou nenhum espaço para o desenvolvimento de novos estudos — o obstáculo mais citado no levantamento.
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2. Recursos financeiros limitados
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48,2% apontam a escassez de financiamento como barreira à pesquisa.
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3. Apoio insuficiente para submissão de projetos
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47,1% relatam falta de suporte institucional para pedidos de financiamento e submissão de estudos.
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4. Desigualdade de gênero
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Mulheres têm sete vezes mais chances de identificar o próprio gênero como fator que prejudica sua produção científica.
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5. Concentração em funções clínicas
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69,6% dos respondentes são oncologistas clínicos atuando em centros acadêmicos (58,8%), com pouco tempo institucional reservado à pesquisa.
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