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Vocação, colaboração e família: o que motiva médicos a continuar ou abandonar a pesquisa
Com metade dos especialistas doutores, a Holanda revela por que tão poucos continuam pesquisando e o que separa os que ficam dos que saem
Pesquisar e atender pacientes exige não apenas tempo; exige motivação genuína para sustentar as duas atividades ao longo de uma carreira | Imagem: Unsplash
Na Holanda, 48% dos médicos especialistas têm doutorado, proporção muito acima da observada em países como os Estados Unidos, onde apenas 4% dos médicos possuem o título, segundo levantamento da Associação Americana de Faculdades de Medicina (AAMC) de 2023.
Ainda assim, apenas um quarto desses médicos holandeses efetivamente manteve uma carreira que combina pesquisa e prática clínica, definida como dedicar ao menos 20% do tempo a cada uma das duas atividades. É o que revela estudo publicado recentemente na revista PLOS ONE.
Um retrato de quatorze anos
O estudo avaliou retrospectivamente todos os médicos holandeses que obtiveram o doutorado em 2008. Em 2022, catorze anos depois, os pesquisadores localizaram 479 médicos-doutores dessa coorte e conseguiram contatar 424 deles. Desse total, 240 responderam ao questionário, taxa de resposta de 56,6%. A idade média no momento da pesquisa era de 48,7 anos, o que significa que os participantes tinham em média 34 anos quando concluíram o doutorado.
Na Holanda, há oito Centros Médicos Universitários (UMCs), cada um com média anual de cerca de 200 doutoramentos em ciências médicas e biomédicas. Quase metade desses graduados são médicos. A maioria inicia o doutorado logo após a graduação em medicina, antes ou durante a residência, um caminho que, além da vocação científica, serve como credencial de acesso a programas de especialização mais competitivos.
Para entender as motivações envolvidas nessa trajetória, os pesquisadores aplicaram a teoria da autodeterminação (TDA), que distingue decisões guiadas por motivação autônoma (como curiosidade e interesse pessoal) daquelas movidas por recompensas externas, obrigação ou culpa, classificadas como motivação controlada. A TDA postula que a motivação autônoma leva a melhores resultados em termos de desempenho acadêmico, persistência e bem-estar.
Os participantes responderam a perguntas sobre formação, trajetória profissional, motivações para o doutorado, fatores que facilitaram ou dificultaram a continuidade na pesquisa e satisfação com a escolha. Os resultados mostraram que os respondentes eram movidos predominantemente por motivação autônoma, com mediana de 3,88 em escala Likert de 1 a 5, em contraste com a motivação controlada, cuja mediana foi de apenas 2,00.
O funil da carreira científica
Os dados revelam um progressivo afunilamento entre a intenção declarada e a prática efetiva. Logo após o doutorado, 82,8% dos respondentes planejavam continuar fazendo pesquisa. Na prática, 73,6% de fato continuaram com alguma atividade científica, mas, desse grupo, 32,9% dedicavam 5% ou menos do tempo à pesquisa, o equivalente a menos de três horas por semana. Ao aplicar o critério mais estrito da carreira médico-científica (ao menos 20% do tempo tanto em pesquisa quanto na clínica), apenas 25,2% dos respondentes se qualificaram.
Ao todo, 67,5% relataram envolvimento simultâneo em pesquisa e atendimento clínico, mas, para a maioria, a pesquisa ocupa uma fração marginal da jornada. Apenas 3,5% dedicavam entre 50% e 80% do tempo à ciência, em adição a pelo menos 20% ao atendimento. Dos 60 médicos-cientistas identificados, 78,3% trabalhavam em hospitais universitários.
67,5% dos médicos com doutorado relataram envolvimento simultâneo em pesquisa e clínica, mas apenas 25,2% dedicavam tempo suficiente a ambas para serem considerados médicos-cientistas de fato.
A motivação autônoma foi o principal preditor de carreira médico-científica: médicos com escores mais altos nessa dimensão tinham quase quatro vezes mais chances de seguir nessa trajetória. Redes científicas e colaborações acadêmicas foram os fatores institucionais mais citados como incentivo à permanência na pesquisa.
A especialidade médica também se mostrou determinante: médicos de clínica médica tinham três a quatro vezes mais chances de seguir carreira médico-científica do que os de especialidades cirúrgicas. Vale notar que, entre os que fizeram o doutorado antes da especialização, 55,1% admitiram que a possibilidade de conseguir vaga na residência influenciou a decisão, mas esse fator não se associou à permanência na pesquisa. A taxa de carreira médico-científica foi idêntica (23,2%) entre quem teve ou não essa motivação instrumental.
As principais barreiras foram a falta de tempo dedicado à pesquisa e o desejo de dedicar mais tempo à família ou ao parceiro. Não se trata apenas de financiamento ou infraestrutura: o equilíbrio entre vida profissional e pessoal pesa decisivamente, e os resultados foram similares entre homens e mulheres.
Vantagens práticas do título de doutor na clínica
De 220 respondentes ativos na clínica, 152 (69%) relataram vantagens práticas decorrentes do doutorado. As mais citadas foram: aplicar medicina baseada em evidências (44% dos respondentes), desenvolver protocolos e diretrizes clínicas (41%) e melhorar o atendimento cotidiano (30%). Outros benefícios mencionados incluíram pensamento crítico, perseverança e capacidade de gerenciar situações complexas.
Apenas 13,6% dos respondentes apontaram desvantagens. A principal foi a sobrecarga de conciliar doutorado, residência e vida familiar simultaneamente. A segunda foi financeira: a bolsa de pesquisa paga menos do que o trabalho clínico, atrasando a estabilidade econômica e os próprios respondentes reconheceram que esse déficit não foi inteiramente recuperado ao longo da carreira.
Quando perguntados se fariam o doutorado de novo, 223 respondentes (95,3%) disseram que sim. E 46,1% consideraram improvável que ocupassem o mesmo cargo sem o título — seja por ser pré-requisito formal para tenure acadêmica, seja por abrir portas em centros universitários.
Mesmo diante das barreiras relatadas, 95,3% dos participantes afirmaram que fariam o doutorado novamente — e 46,1% avaliaram que sem o título não ocupariam o cargo que têm hoje.
Motivação autônoma além da pesquisa
O efeito da motivação autônoma vai além da carreira médico-científica. Dos respondentes, 22,7% atingiram cargo acadêmico permanente (professor assistente, associado ou titular). Médicos com escores mais altos de motivação autônoma tinham 2,57 vezes mais chance de alcançar tenure (OR 2,57; IC95% 1,23–5,39). O número de publicações também foi preditor relevante: dobrar a produção científica estava associado a aproximadamente 3,7 vezes mais chance de cargo permanente.
Homens tenderam a chegar ao posto de professor titular com mais frequência (13 de 126 vs. 5 de 105 mulheres). O estudo relaciona essa diferença à maior produção bibliográfica masculina no período — mediana de 21 artigos para homens contra 14 para mulheres nos 14 anos após o doutorado. Os autores apontam que carreiras científicas mais curtas entre as mulheres, e não necessariamente ritmo de publicação menor, podem explicar parte da diferença.
O cenário brasileiro: lacunas de dados e de estrutura
No Brasil, não há levantamento equivalente sobre médicos-pesquisadores. Uma revisão sistemática publicada em 2022 na Revista Brasileira de Educação Médica encontrou que a maioria das escolas médicas do país não possuía programas estruturados de iniciação científica, embora cerca de 60% dos estudantes declarassem intenção de seguir na pesquisa após a graduação.
Na prática, a combinação de docência e pesquisa aparecia como preferência de menos de 1,5% dos egressos, segundo a publicação “Demografia Médica no Brasil” de 2018. A distância entre a intenção declarada na graduação e a escolha efetiva de carreira aponta para um problema estrutural: a ausência de condições institucionais que tornem viável a permanência na ciência.
No Brasil, menos de 1,5% dos egressos de medicina escolheu carreira de pesquisa e docência, dado que contrasta com os 60% que, ainda na graduação, declaravam intenção de seguir na ciência.
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