SOBRE
#Carreiras
01.06.2026 Formação

Vocação, colaboração e família: o que motiva médicos a continuar ou abandonar a pesquisa

Com metade dos especialistas doutores, a Holanda revela por que tão poucos continuam pesquisando e o que separa os que ficam dos que saem

Médica negra de cabelos curtos, vestindo jaleco branco, sentada diante de dois monitores que exibem software de planejamento de radioterapia com imagens de tomografia computadorizada e mapas de distribuição de dose em cores. Expressão concentrada, olhar voltado para as telas. Sobre a mesa, teclado, mouse e tablet. Pesquisar e atender pacientes exige não apenas tempo; exige motivação genuína para sustentar as duas atividades ao longo de uma carreira | Imagem: Unsplash

Na Holanda, 48% dos médicos especialistas têm doutorado, proporção muito acima da observada em países como os Estados Unidos, onde apenas 4% dos médicos possuem o título, segundo levantamento da Associação Americana de Faculdades de Medicina (AAMC) de 2023. 

Ainda assim, apenas um quarto desses médicos holandeses efetivamente manteve uma carreira que combina pesquisa e prática clínica, definida como dedicar ao menos 20% do tempo a cada uma das duas atividades. É o que revela estudo publicado recentemente na revista PLOS ONE

Um retrato de quatorze anos

O estudo avaliou retrospectivamente todos os médicos holandeses que obtiveram o doutorado em 2008. Em 2022, catorze anos depois, os pesquisadores localizaram 479 médicos-doutores dessa coorte e conseguiram contatar 424 deles. Desse total, 240 responderam ao questionário, taxa de resposta de 56,6%. A idade média no momento da pesquisa era de 48,7 anos, o que significa que os participantes tinham em média 34 anos quando concluíram o doutorado.

Na Holanda, há oito Centros Médicos Universitários (UMCs), cada um com média anual de cerca de 200 doutoramentos em ciências médicas e biomédicas. Quase metade desses graduados são médicos. A maioria inicia o doutorado logo após a graduação em medicina, antes ou durante a residência, um caminho que, além da vocação científica, serve como credencial de acesso a programas de especialização mais competitivos.

Para entender as motivações envolvidas nessa trajetória, os pesquisadores aplicaram a teoria da autodeterminação (TDA), que distingue decisões guiadas por motivação autônoma (como curiosidade e interesse pessoal) daquelas movidas por recompensas externas, obrigação ou culpa, classificadas como motivação controlada. A TDA postula que a motivação autônoma leva a melhores resultados em termos de desempenho acadêmico, persistência e bem-estar.

Os participantes responderam a perguntas sobre formação, trajetória profissional, motivações para o doutorado, fatores que facilitaram ou dificultaram a continuidade na pesquisa e satisfação com a escolha. Os resultados mostraram que os respondentes eram movidos predominantemente por motivação autônoma, com mediana de 3,88 em escala Likert de 1 a 5, em contraste com a motivação controlada, cuja mediana foi de apenas 2,00.

O funil da carreira científica

Os dados revelam um progressivo afunilamento entre a intenção declarada e a prática efetiva. Logo após o doutorado, 82,8% dos respondentes planejavam continuar fazendo pesquisa. Na prática, 73,6% de fato continuaram com alguma atividade científica, mas, desse grupo, 32,9% dedicavam 5% ou menos do tempo à pesquisa, o equivalente a menos de três horas por semana. Ao aplicar o critério mais estrito da carreira médico-científica (ao menos 20% do tempo tanto em pesquisa quanto na clínica), apenas 25,2% dos respondentes se qualificaram.

Ao todo, 67,5% relataram envolvimento simultâneo em pesquisa e atendimento clínico, mas, para a maioria, a pesquisa ocupa uma fração marginal da jornada. Apenas 3,5% dedicavam entre 50% e 80% do tempo à ciência, em adição a pelo menos 20% ao atendimento. Dos 60 médicos-cientistas identificados, 78,3% trabalhavam em hospitais universitários.

67,5% dos médicos com doutorado relataram envolvimento simultâneo em pesquisa e clínica, mas apenas 25,2% dedicavam tempo suficiente a ambas para serem considerados médicos-cientistas de fato.

A motivação autônoma foi o principal preditor de carreira médico-científica: médicos com escores mais altos nessa dimensão tinham quase quatro vezes mais chances de seguir nessa trajetória. Redes científicas e colaborações acadêmicas foram os fatores institucionais mais citados como incentivo à permanência na pesquisa.

A especialidade médica também se mostrou determinante: médicos de clínica médica tinham três a quatro vezes mais chances de seguir carreira médico-científica do que os de especialidades cirúrgicas. Vale notar que, entre os que fizeram o doutorado antes da especialização, 55,1% admitiram que a possibilidade de conseguir vaga na residência influenciou a decisão, mas esse fator não se associou à permanência na pesquisa. A taxa de carreira médico-científica foi idêntica (23,2%) entre quem teve ou não essa motivação instrumental.

As principais barreiras foram a falta de tempo dedicado à pesquisa e o desejo de dedicar mais tempo à família ou ao parceiro. Não se trata apenas de financiamento ou infraestrutura: o equilíbrio entre vida profissional e pessoal pesa decisivamente, e os resultados foram similares entre homens e mulheres.

Vantagens práticas do título de doutor na clínica

De 220 respondentes ativos na clínica, 152 (69%) relataram vantagens práticas decorrentes do doutorado. As mais citadas foram: aplicar medicina baseada em evidências (44% dos respondentes), desenvolver protocolos e diretrizes clínicas (41%) e melhorar o atendimento cotidiano (30%). Outros benefícios mencionados incluíram pensamento crítico, perseverança e capacidade de gerenciar situações complexas.

Apenas 13,6% dos respondentes apontaram desvantagens. A principal foi a sobrecarga de conciliar doutorado, residência e vida familiar simultaneamente. A segunda foi financeira: a bolsa de pesquisa paga menos do que o trabalho clínico, atrasando a estabilidade econômica e os próprios respondentes reconheceram que esse déficit não foi inteiramente recuperado ao longo da carreira.

Quando perguntados se fariam o doutorado de novo, 223 respondentes (95,3%) disseram que sim. E 46,1% consideraram improvável que ocupassem o mesmo cargo sem o título — seja por ser pré-requisito formal para tenure acadêmica, seja por abrir portas em centros universitários.

Mesmo diante das barreiras relatadas, 95,3% dos participantes afirmaram que fariam o doutorado novamente — e 46,1% avaliaram que sem o título não ocupariam o cargo que têm hoje.

Motivação autônoma além da pesquisa

O efeito da motivação autônoma vai além da carreira médico-científica. Dos respondentes, 22,7% atingiram cargo acadêmico permanente (professor assistente, associado ou titular). Médicos com escores mais altos de motivação autônoma tinham 2,57 vezes mais chance de alcançar tenure (OR 2,57; IC95% 1,23–5,39). O número de publicações também foi preditor relevante: dobrar a produção científica estava associado a aproximadamente 3,7 vezes mais chance de cargo permanente.

Homens tenderam a chegar ao posto de professor titular com mais frequência (13 de 126 vs. 5 de 105 mulheres). O estudo relaciona essa diferença à maior produção bibliográfica masculina no período — mediana de 21 artigos para homens contra 14 para mulheres nos 14 anos após o doutorado. Os autores apontam que carreiras científicas mais curtas entre as mulheres, e não necessariamente ritmo de publicação menor, podem explicar parte da diferença.

O cenário brasileiro: lacunas de dados e de estrutura

No Brasil, não há levantamento equivalente sobre médicos-pesquisadores. Uma revisão sistemática publicada em 2022 na Revista Brasileira de Educação Médica encontrou que a maioria das escolas médicas do país não possuía programas estruturados de iniciação científica, embora cerca de 60% dos estudantes declarassem intenção de seguir na pesquisa após a graduação.

Na prática, a combinação de docência e pesquisa aparecia como preferência de menos de 1,5% dos egressos, segundo a publicação “Demografia Médica no Brasil” de 2018. A distância entre a intenção declarada na graduação e a escolha efetiva de carreira aponta para um problema estrutural: a ausência de condições institucionais que tornem viável a permanência na ciência.

No Brasil, menos de 1,5% dos egressos de medicina escolheu carreira de pesquisa e docência, dado que contrasta com os 60% que, ainda na graduação, declaravam intenção de seguir na ciência.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

Carreiras

0 Comentários
Oldest
Newest Most Voted
Inline Feedbacks
View all comments
Receba nossa newsletter

Newsletter

Receba nossos conteúdos por e-mail. Preencha os dados abaixo para assinar nossa newsletter

Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!
Cadastre-se na Newsletter do Science Arena