#Colunas
A Ivy League agora fica na China
Universidades chinesas nas primeiras posições dos rankings acadêmicos indicam que a liderança dos EUA foi superada na contribuição efetiva à ciência de ponta
Campus da University of Chinese Academy of Sciences (UCAS), em Pequim, na China: país lidera globalmente a produção de artigos científicos de alto impacto publicados nas revistas selecionadas pelo Nature Index, indicando forte protagonismo nas ciências naturais | Imagem: Wikimedia Commons
Que a China se tornou líder tecnológica global e a principal fábrica do mundo já é amplamente reconhecido. Também se sabe que, por anos, o país produziu artigos científicos em volume industrial, frequentemente desqualificados pelo Ocidente como carentes de qualidade.
Esse argumento, no entanto, deixou de se sustentar. A China não apenas completou seu processo de convergência tecnológica (catching up), como passou a definir a fronteira científica global.
A produção científica chinesa ganhou não só escala, mas qualidade e impacto. Em poucos anos, instituições acadêmicas do país passaram a substituir universidades tradicionais nas primeiras posições dos rankings que medem contribuição efetiva à ciência de ponta.
O aspecto mais impressionante não é apenas a conquista, mas a velocidade com que ela ocorreu. Indicadores clássicos de produção científica e tecnológica revelam curvas de crescimento abruptas, quase exponenciais.
Pela primeira vez, métricas de qualidade e não apenas de volume indicam que a liderança dos Estados Unidos foi superada em diversos domínios.
O indicador mais contundente dessa transformação é o Nature Index. Diferentemente de rankings baseados em volume total de publicações, ele foca em um conjunto restrito de periódicos de alto impacto e que concentram a fronteira do conhecimento nas ciências naturais.
Além disso, o Nature Index utiliza uma métrica fracionada (Share), que atribui o crédito científico de acordo com a contribuição real de cada instituição ou país, evitando distorções causadas por grandes colaborações.
Em 2015, a China já ocupava a segunda posição no Nature Index, mas ainda muito distante dos Estados Unidos.
A liderança dos EUA era tão ampla que equivalia à soma de diversos países desenvolvidos. Em menos de uma década, essa geografia foi radicalmente redesenhada.
A China não apenas alcançou, mas ultrapassou os EUA, abrindo uma vantagem significativa. A distância atual entre os dois países comporta não apenas os Estados Unidos, mas também Alemanha e Reino Unido.
Trata-se de uma redistribuição de poder cognitivo sem precedentes recentes.
Dados consistentes
Esse desempenho é sustentado por liderança em múltiplos campos do conhecimento. A China já lidera a produção de ciência de alta qualidade em química, física e ciências da Terra. Em biologia e saúde, os Estados Unidos ainda mantêm a dianteira, mas sob pressão crescente.
Em 2015, universidades norte-americanas e britânicas dominavam amplamente os rankings. A Universidade de Pequim, melhor colocada entre as chinesas à época, apresentava menos da metade do índice da líder Harvard.
Menos de dez anos depois, houve uma verdadeira “blitzkrieg científica”: em 2024, nove das dez instituições mais relevantes para a ciência de elite são chinesas, restando Harvard como exceção resiliente de uma ordem anterior.
Argumentos sobre viés metodológico dos rankings perdem força diante da consistência dos dados. Independentemente da base utilizada (Scopus, Web of Science ou Nature Index), a tendência é inequívoca.
Usando a base Scopus, a China já produz o dobro de artigos dos Estados Unidos. No recorte mais restritivo do Nature Index, ainda assim supera os norte-americanos em cerca de 17%.
A Ivy League agora fica na China. “Ivy League” é como tradicionalmente se retrata o grupo de oito universidades privadas dos Estados Unidos, conhecido tanto pela excelência acadêmica quanto pelo prestígio histórico. Figuram na Ivy League dos EUA universidades como Harvard, Yale, Princeton e Columbia.
Liderança qualificada
Quando se analisa o impacto, medido por citações, o padrão se repete. A Academia Chinesa de Ciências (CAS) lidera globalmente em número de pesquisadores altamente citados.
Entre as cinco instituições com maior presença nesse grupo, figura também a Universidade Tsinghua, à frente do Massachusetts Institute of Technology (MIT). A liderança, portanto, não é apenas quantitativa, mas qualitativa.
Essa nova posição também se manifesta em realizações científicas concretas. A missão Chang’e 6 é um exemplo emblemático.
Pousar na face oculta da Lua já seria um feito extraordinário, dadas as exigências tecnológicas envolvidas, como sistemas autônomos e satélites de retransmissão.
Trazer de volta amostras físicas dessa região (quase dois quilos de rochas e solo) eleva ainda mais o patamar, colocando a China na vanguarda da “Big Science” (ciência produzida em larga escala, com equipes numerosas e grandes orçamentos).
Esse tipo de realização representa o ápice de uma longa cadeia de conhecimento acumulado. Por trás da missão, há décadas de pesquisa em áreas como engenharia aeroespacial, física de materiais, telecomunicações, geologia planetária e algoritmos de controle.
A missão Chang’e 6 materializa a articulação entre ciência básica, indústria de alta complexidade, planejamento estatal e estratégia nacional.
Para hoje haver foguetes, antes houve universidades, laboratórios, empresas, infraestrutura, talentos, financiamento estável e comando e controle eficientes.
Projetos dessa magnitude exigem:
- Infraestrutura científica robusta;
- Financiamento estável;
- Formação de talentos;
- Coordenação institucional eficiente.
Publicar artigos de impacto não é suficiente para alcançar esse nível; é necessário converter conhecimento em capacidade tecnológica e industrial. A China demonstra que já domina esse processo.
Por isso, a missão marca um ponto de inflexão: o país deixou de ser seguidor tecnológico para se tornar líder.
Sua ciência não busca apenas reconhecimento acadêmico, mas influência geopolítica. O objetivo é reconfigurar o equilíbrio tecnológico global no século XXI.
Estratégia chinesa
Diante desse cenário, surge uma questão inevitável: a que custo essa transformação foi alcançada?
Sabemos muito sobre a trajetória que levou à hegemonia científica dos Estados Unidos, mas ainda conhecemos pouco sobre os mecanismos internos do sistema científico chinês, sua governança, financiamento, avaliação e implicações éticas, ambientais e trabalhistas.
Outro ponto relevante é a viabilidade desse modelo em outros contextos políticos.
A velocidade observada parece estar associada a um sistema de comando e controle centralizado, distinto do modelo ocidental baseado em maior autonomia acadêmica e contestação contínua.
A ciência chinesa não parece depender dos mesmos pressupostos institucionais que historicamente sustentaram o avanço científico no Ocidente. A estratégia de formação de capital humano também difere significativamente.
Enquanto, após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos absorveram cientistas estrangeiros em larga escala (por meio de programas como a Operação Paperclip, que importou capital humano de alto nível, inclusive cientistas ligados ao esforço bélico alemão, como Wernher von Braun e sua equipe de foguetes), a China adotou uma abordagem distinta, enviando seus próprios estudantes ao exterior e, posteriormente, criando condições para repatriá-los.
Milhões de pesquisadores chineses foram formados em instituições como Stanford, MIT, Cambridge e Oxford. Nas últimas décadas, o país passou a oferecer infraestrutura, financiamento e estabilidade suficientes para atrair uma parcela significativa desses talentos de volta.
O foco não foi importar cérebros prontos, mas formar e reintegrar seu próprio capital humano.
Isso não exclui a atração de estrangeiros, que tende a crescer com a consolidação da liderança científica chinesa. No entanto, o núcleo da estratégia permanece centrado na diáspora e na formação interna massiva.
Enquanto os EUA combinaram liberdade acadêmica com forte atração de talentos globais, a China aposta em planejamento central e repatriação.
Trata-se de um experimento histórico de grande escala, a emergência de uma potência científica global em um contexto de baixa abertura política, limitado pluralismo institucional e reduzido espaço para dissenso público.
Esse modelo desafia teorias tradicionais que associam o avanço científico à democracia liberal e à liberdade acadêmica.
O lado escuro da lua
Dado que a ciência não é neutra, a questão central talvez não seja apenas quem lidera, mas que tipo de ciência está sendo produzida.
A ciência do século XX foi profundamente moldada pelo complexo industrial-militar norte-americano, gerando desde a bomba atômica até a internet, sempre em interseção com interesses estratégicos e corporativos.
Qual será, então, a natureza da ciência produzida sob o modelo chinês?
Um sistema baseado em planejamento central, fusão civil-militar, vigilância digital e repatriação em larga escala tende a definir prioridades específicas e também a produzir silêncios.
Se já compreendemos a ciência que emergiu de Los Alamos e do Vale do Silício, resta saber se estamos preparados para entender e lidar com a ciência que se consolida em Pequim, Shenzhen e, simbolicamente, no “dark side of the moon”?
André Tortato Rauen é economista, doutor em política científica e tecnológica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor da Escola Superior do Tribunal de Contas da União (TCU). Também é assessor especial da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI).
Os artigos opinativos não refletem necessariamente a visão do Science Arena e do Einstein.
*
É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).