SOBRE
#Ensaios

Além do Laboratório: transições de carreira entre a Academia e a Indústria

Mais do que estratégia e planejamento, diferentes possibilidades de atuação profissional exigem atenção às oportunidades e coragem para enfrentar desafios

Pessoa caminha por um túnel em curva, futurista, iluminado por luzes coloridas, que leva a um lugar ainda desconhecido Formação científica aliada a experiências em diferentes áreas representa um diferencial valioso na trajetória de profissionais de pesquisa | Imagem: Graeme Worsfold | Unsplash

Quando concluí minha graduação em Farmácia, jamais imaginei que um dia estaria liderando projetos em uma startup de biotecnologia, trabalhando com comunicação científica e atuando em algumas das maiores empresas farmacêuticas do mundo. 

Minha trajetória não foi linear, e é justamente essa jornada multifacetada que me permite, hoje, aconselhar jovens pesquisadores que, como eu, buscam propósito, impacto e realização profissional.

Compartilho aqui um pouco de minha trajetória por diferentes ecossistemas: academia, indústria farmacêutica, startups e comunicação científica, com algumas dicas práticas sobre como transitar entre essas áreas, utilizando habilidades transferíveis e estratégias de posicionamento profissional.

Incômodo silencioso

Minha primeira experiência na indústria farmacêutica aconteceu ainda durante a graduação, em uma posição na área de Pesquisa e Desenvolvimento. Eu gostava da pesquisa, mas sentia que minha curiosidade ia além do laboratório. 

Mesmo assim, continuei a jornada acadêmica com mestrado e, depois, um doutorado em Engenharia Biomédica, no Canadá.

Durante o doutorado, fui tomada por uma inquietação: embora a pesquisa acadêmica fosse intelectualmente desafiadora, algo dentro de mim buscava mais impacto prático e conexão com o mundo real

Foi nesse momento que decidi explorar outras possibilidades de atuação profissional, ainda dentro da pesquisa, mas fora do laboratório. Percebi que era hora de mudar algo, e arrisquei dar um primeiro passo.

Comecei a me envolver com comunicação científica, voluntariando em organizações como o Science Writers and Communicators of Canada (SWCC) e o Royal Canadian Institute for Science (RCIScience). 

Participei de eventos presenciais e virtuais, desenvolvi habilidades de escrita, storytelling e conexão com diferentes públicos.

Paralelamente, iniciei minha atuação em uma agência de marketing e comunicação médica, o que me permitiu unir o conhecimento técnico com a habilidade de traduzir ciência em linguagem acessível

A experiência adquirida no Canadá abriu oportunidades também no Brasil, ampliando minha atuação em comunicação científica voltada a profissionais de saúde. E levar esse conhecimento para o desenvolvimento de conteúdos em uma das maiores agências globais de comunicação médica foi um desafio muito gratificante.

Descobrindo novas possibilidades

Foi nesse contexto que recebi um convite inesperado para voltar ao Canadá e integrar uma startup de healthtech. O timing era perfeito: havia concluído meu doutorado há pouco tempo, e estava aberta a novos desafios

Na startup, vesti muitos chapéus: gerenciei projetos científicos, desenvolvi planos de negócios e estratégias de marketing, e participei ativamente de estudos com atletas olímpicos da equipe canadense de patinação.

Conduzi análises bioquímicas, interpretando dados e transformando-os em relatórios práticos para otimização da performance esportiva. Vivenciando essa experiência, vi claramente como minha formação científica poderia gerar impacto direto e imediato na vida das pessoas.

Essa transição só foi possível porque reconheci e valorizei habilidades transferíveis que a academia me proporcionou:

Hoje, atuo na área comercial de uma multinacional farmacêutica, com foco nos segmentos de Gastroenterologia e Reumatologia. E mesmo com toda essa experiência, continuo em movimento. 

Meu próximo objetivo é fazer, no momento mais apropriado, uma transição para a área de Medical Affairs dentro da indústria farmacêutica. 

Atualmente, meu trabalho combina estratégia, educação e relacionamento com profissionais da saúde, o que tem sido uma excelente porta de entrada para essa futura transição.

Isso porque, ao entender melhor o ecossistema da indústria, percebi que minha formação científica, aliada à experiência em marketing, comunicação científica e projetos multidisciplinares, representa um diferencial valioso

Três pilares para a transição de carreira

1. Networking estratégico

Sua rede de contatos é um dos seus maiores ativos. Não basta ter conexões no LinkedIn, é preciso cultivar relacionamentos autênticos. Peça uma conversa de vinte minutos, ouça histórias de transição, e esteja disposto a aprender e contribuir. Lembre-se: oportunidades vêm da conexão com pessoas.

2. Venda suas habilidades transferíveis

Não diga apenas “sou pesquisador” ou “tenho um doutorado”. Diga que você resolve problemas complexos, lidera projetos, comunica ciência com clareza e se adapta a ambientes dinâmicos. Traduza seu valor na linguagem do setor desejado.

3. Trabalhe sua marca pessoal

Conte sua história de forma genuína. Compartilhe aprendizados nas redes sociais, participe de webinários e palestras. Sua presença digital é hoje uma extensão do seu currículo. Posicione-se de forma coerente com seus valores e objetivos.

Transição de carreira não é abandono, é evolução

A ciência continua sendo minha base, mas agora ela pulsa em novos formatos: na estratégia de negócios e na educação de profissionais de saúde.

Se você sente que está pronto para algo novo, confie: o mundo precisa de cientistas fora do laboratório também.

Cinco conselhos rápidos para quem está começando a transição:

Por fim, lembre-se: Ciência é potência! E quando alinhada ao propósito, ela se torna transformação.

Alyne Teixeira é farmacêutica, mestre em Biociências e Produtos Bioativos pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), e PhD em Engenharia Biomédica pela Dalhousie University (Canadá). Tem experiência internacional em Pesquisa & Desenvolvimento e Comunicação Médica. Atualmente, atua na área comercial da Pfizer Canadá, com foco em Gastroenterologia e Reumatologia.

Os artigos opinativos não refletem necessariamente a visão do Science Arena e do Einstein Hospital Israelita 

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

Ensaios

0 Comentários
Oldest
Newest Most Voted
Inline Feedbacks
View all comments
Receba nossa newsletter

Newsletter

Receba nossos conteúdos por e-mail. Preencha os dados abaixo para assinar nossa newsletter

Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!
Cadastre-se na Newsletter do Science Arena