#Entrevistas
Como anticorpos monoclonais estão redefinindo o combate ao HIV
Pesquisas lideradas por Marina Caskey revelam o potencial de anticorpos monoclonais capazes de neutralizar múltiplas cepas do HIV e manter o vírus sob controle por longo período
Marina Caskey, médica infectologista da Universidade Rockefeller, em Nova York, estuda anticorpos monoclonais capazes de neutralizar múltiplas cepas do HIV. Suas pesquisas buscam desenvolver terapias que mantenham o vírus sob controle sem o uso contínuo de antirretrovirais | Imagem: Rockefeller University
Mesmo com os avanços tecnológicos nos antirretrovirais utilizados contra o HIV, o vírus que causa AIDS continua sendo um problema de saúde pública global. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 40 milhões de pessoas viviam com o vírus até o final de 2024, e mais de 44 milhões já morreram em decorrência da doença.
Uma das estratégias ainda em estudo para conter a infecção envolve os anticorpos altamente neutralizantes (bNAbs) — moléculas capazes de se ligar à superfície do vírus e impedir sua entrada nas células humanas. Elas são reconhecidas pela alta capacidade de neutralizar diferentes vírus e cepas – o que, para o HIV, é especialmente útil por conta da alta diversidade do patógeno.
Tentativas anteriores falharam em prevenir infecções por HIV principalmente por conta da extensa variabilidade do vírus. Por exemplo, a AIDSVAX foi uma dessas iniciativas que tinha como finalidade gerar uma resposta imune contra o HIV. Mas testes clínicos realizados entre as décadas de 1990 e 2000 mostraram a incapacidade da AIDSVAX em gerar proteção contra o patógeno.
Outro caso parecido foi do estudo STEP para testar uma vacina experimental desenvolvida pela farmacêutica Merck na década de 2000. A investigação foi interrompida depois de uma análise de dados iniciais que demonstraram a falta de eficácia do fármaco.
O Science Arena conversou com Marina Caskey, médica infectologista brasileira que estuda o tema desde 2013. Num artigo assinado por Caskey e publicado na Science em maio deste ano, ela e outros autores reportam um estudo clínico que trouxe evidências da indução de anticorpos precursores de bNAbs.
Mesmo sem ampla proteção contra o HIV, esses anticorpos representaram um avanço no desenvolvimento de mecanismos para controlar o vírus. Residente em Nova York, Caskey é professora na Universidade Rockefeller, onde já realizou diversos estudos clínicos sobre anticorpos monoclonais e o HIV.
A pesquisadora acredita que algum dos anticorpos atualmente em teste poderá se tornar um medicamento no futuro próximo. O resultado será novos caminhos para o controle da infecção mesmo sem o uso contínuo de antirretrovirais.
Science Arena: Como foi o desenvolvimento da sua carreira em relação a anticorpos monoclonais e HIV?
Sou médica infectologista e trabalho na Universidade Rockefeller desde 2006. Vim para cá num projeto para desenvolver vacinas contra o HIV. Então, meu trabalho com HIV é longo, mas o foco em anticorpos monoclonais começou em 2013. Um dos outros pesquisadores aqui da universidade, o Michel Nussenzweig [imunologista brasileiro reconhecido mundialmente por suas pesquisas com anticorpos monoclonais] não tinha a intenção de fazer ensaios clínicos. No entanto, esse trabalho levou-o a usar o HIV como modelo para outros tópicos que ele estava interessado em estudar. Foi então que o laboratório dele identificou alguns anticorpos muito potentes e de aplicabilidade ampla. O que, para o HIV, significa que eles poderiam neutralizar várias cepas diferentes do vírus. Foi disso que veio a ideia de que esses anticorpos poderiam ter um potencial clínico para a doença. Nesse momento, eu já estava aqui, então comecei a trabalhar no grupo dele. Nesses últimos 10 anos, nós já fizemos vários ensaios clínicos estudando esses anticorpos de formas diferentes e em diversos grupos.
Quais as diferenças desse tipo de pesquisa que a senhora vem fazendo com pesquisas anteriores que utilizaram anticorpos monoclonais contra o HIV?
Sabemos que anticorpos protegem contra novas infecções. Esse é o conceito da vacinação. Então, desde o começo do HIV, existia a ideia de produzir vacinas que induzissem anticorpos contra o vírus ou de usar anticorpos que bloqueassem o HIV. Mas isso não funcionou, porque a maioria dos anticorpos de uma pessoa que vive com HIV são estritos na função deles. Eles são obsoletos por conta da diversidade enorme do HIV. Não funciona nem para prevenir, porque o vírus que está em circulação tem muita diversidade de pessoa para pessoa, e também não funciona para tratamento, porque são várias cepas diferentes do patógeno somente em uma pessoa que vive com o vírus. Por isso, a primeira geração de anticorpos falhou.\
A diferença dessa nova classe de anticorpos é que eles têm uma atividade mais ampla contra várias cepas do vírus. Os primeiros estudos que fizemos mostraram que, em comparação com que tinha sido feito antes, esses anticorpos agora conseguiam diminuir a carga viral e mantê-la suprimida mesmo na ausência de antirretrovirais por um período prolongado.
O que pode ser feito com esses anticorpos no caso do HIV?
O interesse nesses anticorpos cresceu muito para prevenção, terapia e cura. Nesse caso, a ideia de cura é manter o vírus suprimido sem os antirretrovirais. No caso da prevenção, injetar esses anticorpos não é como uma vacina. Quando você dá o anticorpo, ele fica no corpo por um período e depois vai embora. A ideia da vacina é ensinar o sistema imune a produzir os anticorpos.
Qual o avanço que os anticorpos representam em comparação aos antirretrovirais?
Anticorpos têm funções diferentes. Uma parte da molécula reconhece o vírus e, quando isso acontece, o patógeno é limpo. Essa função é como os antirretrovirais: impede que o vírus em circulação infecte novas células. Mas, quando os anticorpos encontram o vírus ou uma parte do patógeno que já está em uma célula, eles a marcam. Então, os anticorpos interagem com as outras células do sistema imune para aumentar a resposta imune específica contra o vírus. Isso é algo que não ocorre com antirretrovirais. Os anticorpos também podem ser úteis contra reservatórios de células com HIV, já que esse vírus entra no DNA da célula e se esconde lá. Esse HIV está latente: ele persiste dentro dessas células, mas o sistema imune não consegue enxergá-lo. Os antirretrovirais não têm nenhum efeito nesses reservatórios de infecção. Mas, de tempos em tempos, essas células começam a produzir partes do HIV. E quando o fazem, essas partes podem ficar na superfície das células. Os anticorpos podem reconhecer ali o vírus e podem ajudar o sistema imune a atacar a célula infectada a fim de matá-la.
O que a senhora enxerga a respeito do futuro desses anticorpos e HIV?
Acho que algum desses monoclonais vai virar um medicamento e será uma das opções de tratamento. Em relação à cura, acho que vamos aprender como usar os anticorpos, talvez em combinação com outras moléculas que também influenciam a resposta imune, para conseguir controle, pelo menos temporário, por um período sem tratamento.
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