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“Sem grupo controle, não podemos afirmar que a polilaminina funciona”, diz coautor de estudo sobre a substância
Para Paulo Louzada, neurocirurgião e professor da UFRJ, falhas na metodologia impedem conclusão sobre eficácia da polilaminina
"Experimentos piloto, especialmente quando não possuem grupo controle, não geram evidência científica", diz Paulo Louzada, neurocirurgião e professor do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ | Imagem: Reprodução/Connect Cast
O neurocirurgião Paulo Louzada, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coautor do preprint sobre a polilaminina, (artigo ainda sem revisão por pares), ocupa uma posição singular no debate sobre a substância que ganhou visibilidade nacional em 2025: ele integra o mesmo grupo de pesquisa da cientista Tatiana Sampaio Martins, autora principal do trabalho, mas não hesita em apontar os limites metodológicos do estudo.
Para Louzada, a fase inicial da pesquisa apresenta restrições que dificultam a interpretação dos resultados até agora divulgados. O ponto mais sensível é a possibilidade de que alguns pacientes tenham recebido a aplicação da substância ainda durante a fase de choque medular, um período de instabilidade neurológica que pode mascarar o diagnóstico real da lesão.
Segundo ele, ao menos um dos pacientes teria recebido a aplicação em menos de 24 horas após o trauma. O choque medular, período em que o organismo pode suprimir toda atividade motora, reflexa, sensitiva e autonômica abaixo do nível da lesão, costuma se dissipar em até 72 horas, janela que coincide com o protocolo previsto para a injeção da polilaminina.
O problema clínico é que, durante o choque medular, uma lesão incompleta, com potencial real de recuperação, pode ser erroneamente classificada como completa. Se a melhora ocorre após o tratamento, não é possível distinguir o efeito da substância da evolução natural da lesão.
Louzada observa ainda que o preprint não menciona explicitamente a realização do teste do reflexo bulbocavernoso, considerado o marcador clínico do encerramento do choque medular. O trabalho cita a avaliação da sensibilidade anal profunda e da contração voluntária do esfíncter anal, exames distintos do teste em questão.
Ausência de grupo controle e viés de confirmação
A ausência de grupo controle é outro ponto central da crítica. Estudos indicam que entre 10% e 30% dos pacientes com lesão medular podem apresentar alguma melhora espontânea ou ser reclassificados após a fase aguda, o que torna ainda mais necessário um grupo de comparação para isolar o efeito da substância testada.
Para Louzada, o entusiasmo gerado pela repercussão pública do caso, com intensa mobilização nas redes sociais e cobertura da mídia, aumenta o risco de viés de confirmação, situação em que o pesquisador tende a interpretar os resultados de acordo com a hipótese que deseja confirmar.
“O cientista deve ser cético em relação aos próprios resultados e sempre considerar a possibilidade de que um resultado tenha ocorrido ao acaso”, afirma.
O pesquisador avalia, contudo, que o problema metodológico não é novo: na sua leitura, ele já existia antes da mobilização nacional, apenas se tornou mais visível com o acesso dos dados pela comunidade científica. Leia, abaixo, a entrevista de Paulo Louzada ao Science Arena.
Science Arena: Um dos pontos centrais do debate é a ausência de grupo controle. É possível avançar para fases 2 e 3 sem um grupo controle randomizado e duplo-cego?
Paulo Louzada: Sem grupo controle e sem cegamento, não podemos afirmar que a polilaminina funciona ou não. Permaneceríamos apenas no campo de uma “probabilidade alta” ou de uma “hipótese forte”. Nenhum estudo de nova droga avança para a prática clínica rotineira sem um ensaio clínico randomizado e duplo-cego. Uma possível exceção seria se concretizasse uma afirmação feita pela professora Tatiana no programa Roda Viva [em 23/2]: se 30 pacientes voltarem a andar em um estudo de uso compassivo, isso poderia dispensar o grupo controle. Ainda assim, seria indispensável ter certeza de que os pacientes já saíram da fase de choque medular.
A aplicação ocorre nas primeiras 72 horas após o trauma, período com possibilidade de recuperação espontânea. Como distinguir o efeito da polilaminina da evolução natural da lesão?
Isso pode ser feito por meio da confirmação do retorno do reflexo bulbocavernoso. Quando esse reflexo retorna, o exame neurológico torna-se confiável. Se o paciente estiver realmente em uma lesão medular completa, a chance de recuperação espontânea, mesmo com tratamento tradicional, como cirurgia de descompressão e fisioterapia, é menor que 1%. A chance de recuperar marcha independente, nesse cenário e com confirmação rigorosa da lesão completa, é virtualmente zero.
Estudos mostram que até 10% a 30% dos pacientes podem apresentar alguma melhora espontânea ou serem reclassificados após a fase aguda. Como isso afeta a interpretação dos resultados?
Não há certeza de que os pacientes submetidos ao tratamento com polilaminina estavam fora da fase de choque medular, informação que não aparece explicitamente no preprint. Por isso, deve-se considerar a possibilidade de melhora espontânea em pacientes que, na realidade, tinham uma lesão incompleta oculta pelo choque medular. Na minha avaliação, o desenho metodológico precisa ser reformulado em aplicações futuras para que os resultados possam ser estabelecidos com maior segurança.
Existe risco de viés de observação ou de entusiasmo terapêutico em um contexto de grande mobilização social e expectativa dos pacientes?
Sim. O cientista deve ser cético em relação aos próprios resultados e sempre considerar a possibilidade de que um resultado tenha ocorrido ao acaso. Partir da premissa de que a droga pode não funcionar ajuda a evitar o viés de confirmação.
Apenas estudos bem controlados e com maior número de pacientes poderão transformar uma hipótese em evidência científica. Na minha avaliação, o viés metodológico já existia antes da mobilização nacional. Ele apenas se tornou mais visível agora, com o acesso dos dados pela comunidade científica.
A Anvisa autorizou apenas um estudo de fase 1, voltado à segurança. Quais seriam os critérios mínimos para avaliar a eficácia da polilaminina?
Seria necessário um estudo controlado por placebo, randomizado e duplo-cego, com um número maior de pacientes.
O uso compassivo e decisões judiciais podem comprometer a produção de evidência científica?
Certamente. A judicialização da aplicação de polilaminina em pacientes com lesão medular, especialmente quando realizada por profissionais não treinados na metodologia do estudo, é uma excrescência. Esse tipo de pesquisa deveria ser conduzido exclusivamente pelos neurocirurgiões responsáveis pelo protocolo. Quando o procedimento é realizado por profissionais que não dominam a técnica, aumenta o risco de erros e de resultados falsamente negativos, situações em que o paciente poderia melhorar, mas não melhora porque a substância foi aplicada de forma inadequada.
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