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09.03.2026 Saúde Global

Como condições biológicas e sociais influenciam a eficácia das vacinas

Revisão internacional mostra como fatores biológicos, socioeconômicos e ambientais afetam a resposta imunológica a vacinas em diferentes populações

Mão de profissional de saúde usando luvas segura uma seringa e um frasco de vacina, preparando a dose para aplicação. Fatores biológicos e contextuais podem influenciar a resposta imunológica de vacinas em diferentes populações | Imagem: Unsplash

Não se trata apenas de uma questão de acesso. Evidências acumuladas indicam que a eficácia das vacinas varia significativamente entre diferentes regiões do mundo, mesmo quando os imunizantes utilizados são os mesmos. Condições como desnutrição, infecções concomitantes, fatores genéticos e atrasos nos calendários de imunização estão entre os principais determinantes de respostas imunológicas reduzidas.

Essa é a principal conclusão de uma revisão da literatura científica conduzida por pesquisadores do HypoVax Global Knowledge Hub, consórcio internacional que reúne imunologistas, clínicos, cientistas de dados e especialistas em saúde pública dedicados ao estudo da hiporresponsividade vacinal — definida como uma resposta imunológica diminuída ou insuficiente a determinada vacina.

Desigualdades que vão além do acesso

Entre os pesquisadores envolvidos está o imunologista Helder Nakaya, pesquisador sênior do Hospital Israelita Albert Einstein, que contribuiu para a identificação de estudos contendo dados imunológicos e de ômicas. Em publicação em seu perfil no LinkedIn, Nakaya chamou atenção para um desequilíbrio estrutural na produção científica global: 

“Quase todos os conjuntos de dados públicos vêm da Europa e dos Estados Unidos, enquanto as regiões onde as vacinas têm pior desempenho mal aparecem.”

Segundo ele, “estamos tentando compreender um problema que afeta sobretudo populações mais pobres com base em dados produzidos majoritariamente em países ricos”.

O HypoVax Global busca enfrentar essa lacuna por meio da construção de colaborações internacionais, da geração de dados de melhor qualidade em regiões sub-representadas e da produção de um retrato mais fiel das desigualdades imunológicas globais.

Evidências reunidas em publicação internacional

Em 2024, o consórcio realizou um workshop internacional sobre hiporresponsividade vacinal nos Países Baixos. As discussões e evidências apresentadas foram consolidadas em um artigo de opinião publicado em novembro na revista The Lancet Microbe.

Os dados analisados indicam que vacinas orais, como as utilizadas contra poliomielite, cólera e rotavírus, são menos imunogênicas em recém-nascidos de países de baixa e média renda quando comparadas às respostas observadas em países de alta renda.

Em ensaios clínicos, por exemplo, a eficácia da vacina contra o rotavírus após 12 meses variou de 44% a 77% em países de alta e média mortalidade — todos de baixa e média renda —, enquanto alcançou 94% em países de baixa mortalidade, todos de alta renda.

Variações importantes também foram observadas na resposta à vacina contra o vírus da hepatite B. Entre crianças menores de 15 anos na África Subsaariana, as taxas de soroproteção variaram de 85% na África do Sul a 64% no norte do continente.

Estudos comparativos em um mesmo país reforçam a influência do contexto local. No Gabão, crianças de áreas rurais apresentaram respostas de anticorpos mais baixas à vacina contra influenza do que aquelas de regiões semiurbanas. Em Uganda, adolescentes de áreas rurais mostraram respostas mais fracas a diversas vacinas quando comparados aos de áreas urbanas.

Fatores biológicos e clínicos associados à hiporresponsividade

A resposta imunológica às vacinas é moldada por múltiplos fatores:

Outro fator relevante é o intervalo entre doses. Esquemas com maior espaçamento tendem a induzir respostas imunológicas mais robustas. Evidências mostram que os níveis de anticorpos contra a vacina acelular contra coqueluche são significativamente mais altos quando administrada aos 2, 4 e 6 meses, em comparação com calendários acelerados, como o de 2, 3 e 4 meses.

Caminhos para reduzir desigualdades vacinais

Na avaliação dos autores, os achados reforçam que condições biológicas e contextuais moldam profundamente a eficácia das vacinas. Diante disso, o desenvolvimento racional de novos imunizantes deve buscar estratégias para modular a imunidade inata, seja por intervenções pré-vacinação, seja pelo uso de adjuvantes mais eficazes.

Para que isso seja possível, é essencial ampliar a disponibilidade de bases de dados diversas, com maior inclusão de especialistas e populações de países de baixa e média renda — justamente onde a hiporresponsividade vacinal é mais prevalente.

Ferramentas de inteligência artificial e técnicas avançadas de integração de dados são apontadas como recursos com potencial transformador para identificar biomarcadores preditivos, otimizar formulações vacinais e gerar evidências acionáveis, adaptadas aos desafios específicos de cada população.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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