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Comunicar incertezas científicas pode enfraquecer o apoio a políticas públicas, aponta estudo
Estudo com mais de 1.100 participantes mostra que falta de consenso científico afeta apoio a políticas regulatórias sobre microplásticos
Quando cientistas revelam limitações do próprio conhecimento, tendem a ser vistos como mais confiáveis, mas o efeito contrário pode ocorrer se a mensagem sinalizar falta de consenso | Imagem: Unsplash
A incerteza faz parte do processo científico, mas comunicá-la ao público costuma ser um desafio. Muitas vezes, ela é suavizada ou omitida em nome da clareza e para evitar efeitos indesejados, como perda de credibilidade ou confusão.
Um estudo conduzido por pesquisadores da Áustria, da Noruega e dos Países Baixos investigou se e em que medida a comunicação de incertezas científicas influencia a percepção de risco e o apoio a políticas relacionadas aos impactos dos microplásticos na saúde humana. Os resultados, publicados em janeiro na revista Public Understanding of Science, indicam que revelar incertezas ou a falta de consenso científico pode reduzir ligeiramente a percepção de risco e, por consequência, o apoio a medidas regulatórias ao diminuir a credibilidade da mensagem. Os efeitos, porém, são marginais.
Como comunicar incertezas científicas
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1. Incerteza por consenso é a mais arriscada.
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Informar que há divisão entre especialistas pode abrir espaço para posições negacionistas, diferentemente de indicar simplesmente que faltam dados.
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2. Credibilidade é o elo mais frágil.
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A redução no apoio a políticas públicas não é direta: ela passa pela perda de credibilidade da mensagem, que por sua vez diminui a percepção de risco.
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3. O perfil do público importa.
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Quem já entende a ciência como um processo de debate em aberto reage de forma diferente — e mais construtiva — à comunicação de incertezas.
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4. Transparência pode ser um ativo.
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Cientistas que reconhecem os limites do próprio conhecimento tendem a ser percebidos como mais confiáveis, não menos.
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5. Efeitos são marginais, mas reais.
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Os impactos encontrados são pequenos — o que não significa que devam ser ignorados, especialmente em contextos de alta polarização ou desinformação.
Metodologia: três grupos, um artigo fictício
Ao todo, 1.126 indivíduos com 18 anos ou mais participaram do estudo, todos residentes na Áustria. Eles primeiro responderam a perguntas sobre seu conhecimento e percepções prévias sobre o tema, além de crenças e atitudes em relação à ciência. Em seguida, foram distribuídos aleatoriamente em três grupos: incerteza por consenso, incerteza por deficiência e grupo controle.
Todos leram um artigo fictício, em formato de jornal online, sobre microplásticos em alimentos e bebidas. O texto explicava o que são microplásticos, suas principais fontes e como entram na cadeia alimentar, além de mencionar benefícios do uso de plásticos no setor de bebidas e alimentos, para equilibrar a abordagem.
Na sequência, os pesquisadores apresentaram a todos um estudo científico indicando que os microplásticos podem ter efeitos negativos à saúde. A diferença estava no enquadramento: o grupo controle não recebeu informações sobre limitações ou lacunas do conhecimento; o grupo de incerteza por consenso foi informado de que havia divergências na comunidade científica sobre os possíveis impactos; e o grupo de incerteza por deficiência teve acesso a informações sobre lacunas existentes e a necessidade de mais pesquisas.
Resultados: efeito pequeno, mas significativo
De modo geral, a comunicação de incertezas contribuiu para uma percepção de risco ligeiramente menor nos dois grupos experimentais em comparação com o controle, mas o efeito foi pequeno. Os pesquisadores também não encontraram diferenças estatisticamente significativas entre os dois tipos de incerteza quando comparados diretamente.
Ao confrontar cada condição com o grupo controle, observaram que apenas a incerteza por consenso levou a uma redução estatisticamente significativa na percepção de risco. A hipótese dos autores é que, diferentemente de outros tipos de incerteza, a incerteza por consenso sinaliza que há especialistas ou evidências que contestam a afirmação original, o que pode abrir espaço para posições dissidentes ou negacionistas.
“A exposição a esse tipo de incerteza não necessariamente reduz o apoio a políticas públicas, mas afeta a credibilidade da mensagem. Essa perda de credibilidade, sim, diminui a percepção de risco, um dos principais fatores que sustentam o apoio a políticas”, dizem os autores.
O papel das crenças do público
Além das características da mensagem, os pesquisadores analisaram como as crenças e atitudes do público em relação à ciência se associam aos efeitos da comunicação de incertezas. Observaram que os participantes que veem a ciência como um processo de debate relataram maior percepção de risco, independentemente do tipo de informação recebida.
“Nossos resultados indicam que as características do público influenciam os efeitos da comunicação de incertezas, mas de maneira mais complexa e sutil do que se supunha”, destacam os pesquisadores.
Nesse sentido, os autores argumentam que promover a visão da ciência como um processo de debate e fortalecer a confiança nos cientistas pode ajudar o público a lidar de forma mais construtiva com temas marcados por incertezas, mas que exigem ações preventivas, como é o caso da poluição por microplásticos.
“Quando cientistas são transparentes sobre limitações do conhecimento, tendem a ser percebidos como mais intelectualmente humildes — característica associada a maior confiança e a maior disposição do público em seguir suas recomendações”, afirmam os pesquisadores.
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