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06.04.2026

Crescimento econômico impulsiona pesquisas clínicas sobre câncer em países pobres

Estudo analisa 16.977 ensaios clínicos em 20 países e mostra que regulação científica e redes colaborativas também determinam o volume de pesquisas oncológicas

Pipeta com líquido rosa deposita amostra em uma placa de micropoços transparentes dispostos em grade, sobre bandeja azul escura, em ambiente de laboratório Países de baixa e média renda concentram a maioria dos novos diagnósticos de câncer no mundo, mas ainda representam uma fração pequena dos ensaios clínicos globais | Imagem: Unsplash

O aumento dos casos de câncer é uma preocupação de escala global, mas os países de baixa e média renda são os mais afetados e assim devem permanecer nas próximas décadas. Segundo estimativas da Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à Organização Mundial da Saúde, o número anual de novos casos de câncer no mundo deve subir de cerca de 20 milhões em 2022 para 35 milhões em 2050, um aumento de aproximadamente 77%.

Esse crescimento será desigual: a incidência de câncer deve aumentar cerca de 142% em países de baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e 99% em países de IDH médio, enquanto nos países de IDH muito alto o aumento projetado é bem menor

Nesse cenário, desenvolver pesquisas sobre câncer que considerem a realidade dos países em desenvolvimento é fundamental para elaborar soluções acessíveis e de maior impacto. Mas essa ainda é uma lacuna significativa: as restrições econômicas dificultam a construção de sistemas robustos de pesquisa científica, e o investimento privado (incluindo o das indústrias farmacêuticas) tende a se concentrar em mercados de maior poder aquisitivo.

É justamente esse gargalo que um artigo publicado no periódico da Sociedade Americana de Câncer (American Cancer Society) se propõe a investigar. A publicação examinou a relação entre o desenvolvimento econômico e o volume de estudos clínicos sobre câncer em países de baixa e média renda, incluindo o Brasil. A conclusão: o crescimento econômico é um fator relevante, mas insuficiente por si só.

Metodologia: 16.977 estudos em 20 países

Os pesquisadores utilizaram dados do Banco Mundial para acessar o produto interno bruto (PIB) per capita de 20 países de baixa e média renda. Em seguida, levantaram o número de ensaios clínicos sobre câncer registrados na plataforma ClinicalTrials.gov até 2020: ao total, 16.977 estudos. Esses dados foram estratificados por fase do ensaio clínico (1, 2 ou 3) e pelo tipo de financiamento (público ou privado).

Para medir a associação entre crescimento econômico e volume de pesquisas, os autores aplicaram o coeficiente de correlação de Pearson, que varia entre -1 e 1. Os resultados foram classificados em cinco categorias: muito fraca (0–0,19), fraca (0,2–0,39), moderada (0,4–0,69), forte (0,7–0,89) e muito forte (0,9–1,0).

A Coreia do Sul apresentou a associação mais alta entre progresso econômico e desenvolvimento de estudos clínicos: 0,97 — classificada como muito forte. O Brasil registrou correlação moderada, de 0,68. Já Índia, Indonésia e Filipinas obtiveram os piores resultados: 0,02, -0,2 e 0,18, respectivamente.

“Mesmo que países do Sul e Sudeste Asiático tenham passado por crescimentos econômicos estáveis nos últimos anos, a economia mais robusta não resultou em aumento significativo de estudos clínicos.”

O contraste é revelador: enquanto países do Sudeste Asiático cresceram economicamente sem expandir sua produção de pesquisas clínicas, países latino-americanos (incluindo o Brasil) ampliaram o número de ensaios clínicos a despeito de períodos de estagnação econômica. Isso indica que outros fatores estruturais operam de forma independente do PIB.

O que mais influencia o volume de pesquisas

Uma vez identificado que o crescimento econômico não explica sozinho o aumento de estudos clínicos, os autores buscaram entender quais outros fatores contribuem para esse cenário.

Regulação científica

Na China, a simplificação do processo regulatório para aprovação de pesquisas clínicas foi apontada como fator determinante para o crescimento do número de estudos. A Coreia do Sul seguiu caminho semelhante, combinando desburocratização com aumento do investimento público em ciência.

Colaboração entre grupos de pesquisa

A formação de redes colaborativas também demonstrou impacto positivo. Na América do Sul, iniciativas como o Latin American Cooperative Oncology Group — voltado à disseminação de práticas de pesquisa clínica — contribuíram para ampliar o número de estudos na região, independentemente das condições econômicas de cada país.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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