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Crise na ciência federal dos EUA: o impacto da saída em massa de doutores
Levantamento da Science mostra que mais de 10 mil doutores deixaram cargos federais desde a volta de Donald Trump à Casa Branca
O Institutos Nacionais de Saúde (NIH), principal agência de apoio à pesquisa biomédica nos Estados Unidos, lideram a lista com mais de 1.100 demissões de doutores em 2025 | Imagem: G. Edward Johnson/Wikimedia Commons
Um novo levantamento feito pela revista Science revelou que o governo dos Estados Unidos perdeu mais de 10 mil doutores em áreas de STEM (ciências, tecnologia, engenharias e matemática) desde que Donald Trump voltou à Casa Branca em 2025. Trata-se de um indicador preocupante da crise pela qual a ciência estadunidense atravessa no segundo mandato do republicano.
De acordo com a Science, esse êxodo representa apenas 3% dos 335.192 funcionários federais que deixaram o cargo no ano passado – mas corresponde a 14% do número total de doutores que atuam nas áreas STEM ou nas ciências da saúde empregados no final de 2024, quando Joe Biden se preparava para deixar a presidência.
Os números, informa a Science, foram obtidos com base em dados de emprego divulgados no início do mês pelo Gabinete de Gestão de Pessoal da Casa Branca (OPM).
Declínio de pessoal qualificado
A queda significativa de profissionais altamente qualificados no setor público — especialmente em agências federais, universidades e institutos de pesquisa — reflete uma conjunção de fatores que vem sendo observada por especialistas há anos nos Estados Unidos: cortes de financiamento, reestruturações administrativas e um ambiente político que muitos pesquisadores consideram hostil à ciência baseada em evidências.
O levantamento indica que o impacto é particularmente notável em agências federais que reúnem grande número de cientistas, como a National Science Foundation (NSF), agência de apoio à ciência básica do país.
“Em todo o governo, esses doutores que deixaram seus cargos levaram consigo uma vasta experiência em suas respectivas áreas e conhecimento sobre o funcionamento das agências”, alerta a Science, que analisou dados de 14 agências federais.
Os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH) lideram a lista com mais de 1.100 demissões de doutores em 2025. Em 2024, os NIH registraram 421 demissões.
“Em média, as 14 agências perderam aproximadamente três vezes mais doutores em 2025 do que em 2024, com o maior aumento percentual de desligamentos na Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) , na Agência de Proteção Ambiental (EPA) e no Serviço Florestal dos EUA (USFS)”, detalha a revista.
Além disso, chama a atenção que, ao mesmo tempo, o número de doutores em STEM contratados em todas as agências foi drasticamente menor no ano passado do que em 2024.
Desmonte do sistema de pesquisa científica
Outro dado alarmente revelado pela revista Science diz respeito ao desmonte da NSF – a principal agência de fomento à ciência básica dos EUA. Nela, a perda líquida de 205 doutores entre janeiro e novembro de 2025 correspondeu a 40% de toda a força de trabalho especializada que a agência tinha antes da posse de Trump – derrubando a proporção de doutores no quadro total de funcionários de 30% para 26%.
Segundo a Science, na maior parte das agências, os motivos mais comuns para as saídas foram aposentadorias e pedidos de demissão. Embora o OPM classifique muitos desses casos como voluntários, fatores externos, incluindo o medo de demissão, a atração de ofertas de indenização ou uma profunda discordância com as políticas de Trump, provavelmente influenciaram muitas decisões de deixar o cargo.
Não é de hoje que o sistema de ciência e tecnologia dos Estados Unidos sofre pressão por parte do atual governo Trump.
Veja, a seguir, as principais ameaças à ciência dos Estados Unidos nos anos no primeiro (2017-2021) e no segundo (em vigor desde janeiro de 2025) mandatos de Donald Trump.
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Interferência política em agências científicas e de saúde
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- Pressão e tentativas de manipular relatórios e recomendações de instituições como a FDA (agência reguladora de medicamentos) e os NIH (Institutos Nacionais de Saúde).
- Exemplo: promoção de tratamentos sem comprovação científica durante a pandemia de covid-19.
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Negacionismo climático e retrocessos ambientais
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- Revogação de mais de 100 regulações ambientais durante o primeiro mandato, com impactos nas reduções de emissões de gases de efeito estufa.
- Retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris, enfraquecendo compromissos globais de ação climática.
- Enfraquecimento de políticas de energia limpa.
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Riscos ao financiamento de pesquisas
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- Tentativas de cortes orçamentários em agências científicas — especialmente em estudos climáticos e áreas centrais de pesquisa.
- Com o controle republicano no Congresso, maior facilidade para aprovar redução de verbas ou redirecionamento de prioridades.
- Possível perda de dados públicos essenciais para pesquisa e inovação.
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Nomeações controversas para cargos estratégicos
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- Indicação de pessoas com histórico de negacionismo científico, especialmente em temas de saúde pública (ex.: vacinas) e resposta à pandemia.
- Risco de politização da ciência e erosão da confiança pública nas agências governamentais.
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