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27.11.2023 Saúde Pública

Desafios de saúde na América Latina

Pesquisadores discutem em novo livro as realidades de saúde da região nos anos de pandemia e a emergência de novos problemas e entraves sociais

Brasília (DF), 26.08.2023 - 1ª Conferência Livre de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Originários do Distrito Federal, no Memorial dos Povos Indígenas, em Brasília. Foto: José Cruz/Agência Brasil

Desde 2015, a região da América Latina e Caribe observa uma deterioração dos níveis de bem-estar e aumento da pobreza. A pandemia de Covid-19 agravou essa situação e desencadeou uma crise multidimensional, caracterizada pela fragilidade das políticas econômicas, sociais e de saúde. Esse cenário também se expressa na diminuição dos níveis de crescimento econômico e da geração de empregos, aumento das pressões inflacionárias — as quais tendem a se manifestar fortemente no aumento dos preços dos alimentos e da energia —, e em quedas significativas de investimentos em áreas como saúde e meio ambiente.

Para mudar esse cenário, os países da região terão de trabalhar juntos para alcançar coletivamente os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização da Nações Unidas (ONU) para o período de 2020 a 2030, “por meio de uma diplomacia, política e científica, inclusiva, solidária e equitativa”, destacou o sanitarista Paulo Buss, coordenador do Centro de Relações Internacionais da Fundação Oswaldo Cruz (Cris-Fiocruz) em seminário virtual realizado em novembro para o lançamento do livro Perspectivas y desafíos en un escenario post pandemia: fortaleciendo alianzas de salud global en América Latina y el Caribe.

Editado pela Aliança Latino-americana de Saúde Global (Alasag), com apoio do Cris-Fiocruz, a obra (disponível em PDF) reúne artigos escritos em português e espanhol por 20 especialistas latino-americanos, a partir de conteúdos apresentados no VII Congresso Latino-Americano de Saúde Global, realizado em novembro de 2022 em Santiago, no Chile.

Os trabalhos discutem e analisam as realidades de saúde na América Latina nos anos de pandemia, e a emergência de novos problemas e desafios sociais na região, como as mudanças climáticas e a insegurança alimentar, entre outras condições que aumentam as desigualdades já existentes nas comunidades latino-americanas.

Buss é autor de dois artigos no livro. Em um deles, escrito em coautoria com o médico Giorgio Solimano, da Faculdade de Medicina da Universidade do Chile, o pesquisador apresenta as principais características das várias crises que atravessam a região, com base em dados da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal).

A pandemia, segundo ele, expôs as fragilidades das políticas econômicas, sociais e de saúde na região, que se expressaram em insuficiente capacidade estatal para lidar com a emergência sanitária, a fragmentação das políticas públicas e falhas de comunicação com a sociedade.

“As dificuldades se agravaram em países com sistemas de proteção social frágeis e sistemas públicos de saúde subfinanciados”, comentou o Paulo Buss, da Fiocruz.

Isso resultou em um aumento das taxas de pobreza para níveis acima dos pré-pandemia. Estima-se que 32,1% da população da região (201 milhões de pessoas) viviam em situação de pobreza em 2022, ao passo que 13,1% (82 milhões de pessoas) viviam na pobreza extrema.

“Em comparação com os anos pré-pandemia, houve um aumento de aproximadamente 15 milhões de pobres e 12 milhões de pobres extremos na região”, destacou Buss. “Esta situação afeta principalmente crianças, adolescentes, mulheres com idade entre 20 e 59 anos, indígenas e afrodescendentes.”

Com 8,4% da população mundial, a região da América Latina e Caribe também foi uma das mais afetadas pela pandemia, respondendo por 34% dos casos de Covid-19 e 28% das mortes pela doença no mundo.

“A informalidade dos mercados de trabalho, a impossibilidade de praticar o distanciamento social e a superlotação das favelas brasileiras e argentinas, além da reação inicial tardia e hesitante de alguns líderes políticos regionais, contribuíram para o número excessivo de casos e mortes, especialmente entre pessoas pobres, de menor escolaridade, negros e indígenas”, destacou Buss.

Para reverter os estragos deixados pela pandemia e conter o avanço da pobreza será preciso adotar novos paradigmas na atenção à saúde, baseados em uma abordagem conjunta dos determinantes sociais da saúde, na detecção precoce de doenças e na redução das desigualdades em saúde.

“Tudo isso só poderá ocorrer se tivermos níveis adequados de financiamento em saúde e um incremento da diplomacia científica”, afirmou o pesquisador.

Meio ambiente

Outro aspecto importante da crise multidimensional que atravessa a América Latina e o Caribe é o ambiental. Os países da região respondem por 10% das emissões globais de gases de efeito estufa (que contribuem para o aquecimento global), o equivalente a apenas um terço das emissões dos Estados Unidos e da União Europeia.

Ao mesmo tempo, a região é particularmente vulnerável aos efeitos negativos das mudanças climáticas. “As populações mais pobres são as mais vulneráveis porque estão mais sujeitas a eventos climáticos extremos, tendo menos recursos para se preparar a eles”, afirmou a geógrafa Helena Ribeiro, professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), que assina um dos capítulos do livro.

Ela e suas colaboradoras têm se debruçado sobre dados da Organização Meteorológica Mundial, agência da ONU que articula quase 10 mil cientistas de 60 países, para entender as dinâmicas de emissão de gases de efeito estufa nos últimos anos na América Latina e Caribe.

Segundo a pesquisadora, dados divulgados pela organização em 2022 indicam que houve um aumento das emissões dos três principais gases estufa na região — dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e os óxido nítrico (NO) — no período pós-pandemia. Os efeitos da mudança no clima já são sentidos em algumas regiões.

“As geleiras andinas estão 30% menores do que em 1980, resultando em uma escassez de água em regiões que dependem de água de degelo para consumo e irrigação de lavouras no verão”, disse Helena Ribeiro, da USP.

Em outras áreas, chuvas intensas causam enchentes e deslizamento de terra, ceifando a vida de milhares de pessoas. Entre 2020 e 2022, foram registrados 175 desastres de origem meteorológicos na região, com perdas anuais de até US$ 3 bilhões.

Propagação de doenças

A intensificação dos eventos climáticos extremos também tem favorecido a propagação de doenças infecciosas, como dengue, malária e cólera, sobrecarregando os serviços de saúde. Têm causado ainda danos às lavouras de subsistência — que não têm sistemas de irrigação ou de drenagem de terra adequados —, agravando a insegurança alimentar na região.

Em 2021, em um dos períodos mais críticos da pandemia, a América Central tinha 8 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar. “Além dos impactos na saúde mental desses indivíduos, essa situação contribui para a intensificação de processos migratórios dos campos para as cidades”, destacou a Ribeiro.

“Desnutrição, obesidade e mudanças climáticas não são problemas opostos entre si, mas, sim, problemas impulsionados pelo mesmo sistema alimentar pouco saudável”, afirmou a médica Lorena Rodriguez Osiac, da Escola de Saúde Pública da Universidade do Chile.

Segundo ela, para alcançar os ODS voltados à erradicação da fome e à promoção da agricultura sustentável, será necessário apoiar a transformação dos atuais sistemas agroalimentares em sistemas mais sustentáveis e resilientes, de tal forma que as bases econômicas , sociais e ambientais existentes não sejam colocados em risco. “Só assim conseguiremos garantir a segurança alimentar e nutricional para as gerações futuras”.

“A agenda pós-pandemia na América Latina e no Caribe precisa ser colocada em uma perspectiva ampla de transformação dos sistemas de proteção social e saúde, e das relações entre Estado, mercados e sociedade na saúde”, afirmou a psicóloga Suelen Carlos de Oliveira, professora da Universidade do Grande Rio, no Rio de Janeiro.

Na sua avaliação, a crise sanitária mostrou que é preciso fortalecer o caráter público dos sistemas de saúde de forma estrutural, estável e contínua, para que ele seja capaz de responder às necessidades da população.

“Isso implica mudanças que envolvem conflitos redistributivos, como a expansão do financiamento público e mudanças nas relações público-privadas em saúde, inclusive na prestação de serviços”, disse Oliveira.

De acordo com a psicóloga, também é urgente o fortalecimento das estratégias de integração regional na América Latina, a busca de um realinhamento estratégico com outros países do Sul Global, e o esforço de reorientação dos mecanismos de governança global em saúde, com base em compromissos de redução das desigualdades, promoção da equidade e da solidariedade entre nações.

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