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Guia coloca a comunicação no centro do processo científico

Lançado em acesso aberto, livro apresenta ferramentas práticas para integrar a comunicação ao processo científico, com foco em objetivos, públicos e impacto social

Multidão participa de manifestação em defesa da ciência, segurando cartazes com mensagens como “Science serving the common good”, “Scientists speaking truth to power” e “We have the solution”, em um ato público ao ar livre. Livro propõe integrar comunicação científica ao próprio processo de pesquisa | Imagem: Unsplash

Comunicar ciência vai além de publicar artigos ou divulgar descobertas nas redes sociais. Trata-se de uma dimensão essencial da prática científica, capaz de tornar o conhecimento mais significativo e socialmente relevante.

Disponível em acesso aberto pela Taylor & Francis, o livro Science Communication for Scientists – Linking Strategy with Creativity, Practice and Respect sistematiza essa mudança de perspectiva ao defender a comunicação como componente central do processo científico, e não como uma etapa posterior à pesquisa.

A obra é assinada por Laura Lindenfeld, John C. Besley, Xia Zheng, Anthony Dudo e Todd P. Newman, pesquisadores reconhecidos internacionalmente no campo da comunicação pública da ciência. 

Na introdução, os autores argumentam que muitos dos avanços científicos que moldaram a vida contemporânea só se concretizaram porque ideias e descobertas puderam circular e ser apropriadas socialmente.

Crise de confiança reforça papel estratégico da comunicação

Capa do livro Science Communication for Scientists – Linking Strategy with Creativity, Practice and Respect, publicado pela Taylor & Francis
Livro Science Communication for Scientists – Linking Strategy with Creativity, Practice and Respect, publicado pela Taylor & Francis em acesso aberto, propõe integrar comunicação científica ao próprio processo de pesquisa

O livro reconhece que a comunidade científica enfrenta crescentes desafios de credibilidade e influência. Em um cenário marcado por desinformação e distanciamento entre ciência e políticas públicas, comunicar ciência de forma estratégica deixou de ser acessório e passou a ser necessidade estrutural.

A publicação critica abordagens limitadas e reativas — como releases, posts em redes ou divulgação pontual — e propõe um modelo integrado à própria prática científica. O objetivo não é apenas ampliar o alcance da pesquisa, mas também gerar impacto positivo e engajamento com a sociedade.

“Comunicação científica não é o mesmo que educação científica. […] Uma diferença importante é que a educação enfatiza os impactos nos estudantes — enquanto a comunicação também enfatiza os impactos sobre os comunicadores”, afirmam os autores.

Na primeira parte do livro, os autores discutem os fundamentos estratégicos da comunicação científica. Refletem sobre por que, para quem e com quais objetivos comunicar, reforçando que não existe comunicação neutra ou genérica.

Já na segunda parte, o foco recai sobre competências essenciais: projetar mensagens eficazes, criar narrativas envolventes e empregar recursos visuais para aumentar a compreensão. A ideia central é que forma e conteúdo são indissociáveis na promoção do engajamento público.

A terceira parte explora os diversos canais — desde interações presenciais e redes sociais até o diálogo com jornalistas, gestores públicos e equipes interdisciplinares. O guia inclui também orientações para comunicação em contextos colaborativos e na organização de eventos científicos.

Transdisciplinaridade e inclusão na produção científica

O livro destaca a distinção entre interdisciplinaridade e transdisciplinaridade. Enquanto a primeira envolve cientistas de diferentes áreas, a segunda inclui a colaboração direta com comunidades e partes interessadas fora do universo acadêmico.

Essa abordagem demanda atenção especial à dinâmica da comunicação, já que envolve atores com repertórios e expectativas diversos. Modelos como a Pesquisa Participativa Baseada na Comunidade (CPBR) são apresentados como exemplos de cooperação eficaz e ética.

Um dos grandes diferenciais da obra é a inclusão de exercícios testados em sala de aula. Os leitores são convidados a analisar campanhas reais — de ciência cidadã a ações sobre vacinação e mudanças climáticas — e refletir sobre coerência entre mensagem, público e missão institucional.

“Muitas vezes esquecemos que nós, como seres humanos, somos os que estão no mundo fazendo o trabalho, o que envolve interagir com pessoas que podem ou não valorizar o que fazemos”, escrevem os autores.

Comunicação baseada no diálogo e construção coletiva

Um dos eixos centrais do livro é a defesa de modelos de comunicação científica fundamentados no diálogo, em contraste com abordagens unidirecionais focadas apenas na transmissão de informação. Para os autores, comunicar ciência significa criar oportunidades sustentadas de escuta e troca com públicos diversos — e não apenas falar “para” as pessoas.

Essa mudança de perspectiva exige reconhecer que diferentes públicos têm valores, saberes e prioridades legítimas, que precisam ser considerados na formulação das mensagens. Ao se abrir para o diálogo, o cientista não apenas transmite conhecimento, mas também aprende com os interlocutores, criando conexões mais significativas e duradouras.

O livro também ressalta a importância da colaboração entre cientistas e comunicadores profissionais, como jornalistas e assessores de comunicação pública. Uma comunicação científica consistente e de qualidade, argumentam os autores, depende da disposição dos pesquisadores em desenvolver competências comunicacionais e em trabalhar de forma integrada com esses profissionais.

Ao lembrar que as palavras comunicação e comunidade compartilham a mesma origem, o livro encerra com um chamado à construção coletiva. Comunicar ciência é criar espaços de pertencimento, troca e cooperação, fortalecer uma comunidade científica mais aberta, diversa, cooperativa — e preparada para os desafios do presente.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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