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Mutação inédita em gene ligado ao reparo do DNA esclarece casos hereditários de câncer
Descoberta ajuda a explicar a síndrome de Lynch, condição associada a tumores intestinais e uterinos que ainda passa despercebida em muitas famílias
Estudo publicado na revista einstein apresenta mutação inédita do gene MSH2, provavelmente associada à síndrome de Lynch | Imagem gerada por IA
Um estudo publicado em dezembro de 2025 na revista einstein apresenta as características de uma mutação inédita do gene MSH2, que foi identificada em uma mulher brasileira e pode ajudar a explicar como a síndrome de Lynch se manifesta. A condição tem natureza genética e é hereditária, podendo levar núcleos familiares a uma predisposição ao desenvolvimento de cânceres no cólon e no endométrio.
O projeto foi conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Instituto Mário Penna, em Minas Gerais.
Eles nomearam a mutação como NM_000251.3(MSH2):c.1894_1898del (p.Ile633Lysfs*9).
Caso clínico levantou suspeitas genéticas
A mutação foi notada durante a investigação de uma paciente de 55 anos, diagnosticada com dois cânceres colorretais distintos em um intervalo de menos de um ano.
Os tumores surgiram em regiões diferentes do cólon (um no sigmoide e outro no ceco) e foram identificados em fase inicial, o que permitiu o tratamento cirúrgico sem necessidade de quimioterapia ou radioterapia.
Mesmo assim, o fato de a paciente ter apresentado neoplasias metacrônicas em um período tão curto despertou a suspeita de uma causa hereditária.
Para investigar o caso, a equipe adotou uma metodologia integrada, que combinou avaliação clínica a análises anatomopatológica e imunohistoquímica dos tumores, bem como testes genéticos moleculares e um conjunto extensivo de avaliações bioinformáticas.
O histórico familiar da paciente reforçou a suspeita de uma condição hereditária, já que sete de seus parentes já haviam tido câncer, incluindo tumores no intestino e no útero – tipos frequentemente associados à síndrome de Lynch.
Embora a falta de registros médicos antigos tenha dificultado a confirmação detalhada de todos os casos, as informações disponíveis foram suficientes para justificar uma investigação genética aprofundada.
Mutação afeta o funcionamento das células
Os exames mostraram a ausência de proteínas fundamentais para a correção de erros no DNA, especialmente a MSH2. Essa proteína faz parte de um sistema de revisão do material genético, o que significa que ela atua como uma espécie de “corretor”, que identifica e elimina pequenos erros que tendem a acontecer quando a célula se divide e copia seu DNA.
Quando a MSH2 não funciona corretamente, os erros se acumulam ao longo do tempo, aumentando o risco de transformação das células em câncer.
A análise genética revelou uma alteração inédita no gene MSH2, que nunca havia sido registrada em bancos de dados internacionais nem em estudos realizados no Brasil.
Essa alteração consiste na perda de um pequeno trecho do gene – cinco “letras” do código genético. Por mais que isso possa soar como uma mudança mínima, ela causa um efeito em cadeia. Essa pequena perda de material no gene MSH2 é suficiente para prejudicar seriamente o funcionamento da proteína que ele produz.
Basicamente, em vez de atuar em conjunto com outras proteínas para identificar e corrigir erros no DNA, a versão alterada da MSH2 fica incompleta e não consegue desempenhar seu papel.
Sem esse mecanismo de correção, as células passam a acumular defeitos genéticos ao longo do tempo, o que aumenta a chance de surgirem tumores.
Os pesquisadores também investigaram se o próprio organismo poderia compensar esse defeito, produzindo, por exemplo, versões alternativas da proteína ou eliminando a informação genética defeituosa antes que ela fosse usada.
As análises indicaram, porém, que esses mecanismos de proteção não funcionam nesse caso, o que ajuda a explicar por que a MSH2 não foi encontrada nos tumores da paciente durante os exames.
Implicações do achado
Com base nas evidências observadas, a equipe concluiu que a mutação deveria ser classificada como patogênica e compreendida como a provável causadora da síndrome de Lynch. Tal identificação traz impactos diretos às pessoas com a condição.
Os autores reiteram que os pacientes em tratamento podem se beneficiar do acompanhamento médico rigoroso, com exames periódicos, para detectar possíveis novos tumores ainda no início.
Além disso, eles lembram que familiares que ainda não desenvolveram a doença podem realizar testes genéticos para verificar a presença da mutação e, assim, adotar medidas preventivas e de vigilância antes do aparecimento do câncer.
Referência
Chami AM, Zózimo TRS, Matosinho CGR, Silva Filho AL, Carvalho MRS, Braga LC. Characterization of a novel MSH2 variant in Lynch syndrome: clinical data and complementary bioinformatics assessment. einstein (Sao Paulo). 2025;24:eAO0757. https://doi.org/10.31744/einstein_journal/2026AO0757
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