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14.08.2023 Equidade

Saúde e pesquisas mais inclusivas

Pesquisadores discutem alternativas para ampliar o acesso e melhorar condições de saúde no Brasil e no mundo

Equipe do SUS durante atendimento em Surucucu, na Terra Indígena Yanomami, no início de 2023 | Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Pesquisadores de diferentes áreas e instituições se reuniram no dia 26 de julho no Centro de Ensino e Pesquisa Albert Einstein – Campus Cecília e Abram Szajman, em São Paulo, para discutir caminhos a fim de ampliar a equidade em saúde no mundo, em especial na pesquisa. Organizado pela revista Nature Medicine, o encontro mostrou que as estratégias para garantir o acesso e melhorar as condições de saúde da população precisam se basear na fusão virtuosa de saberes e técnicas, e em colaborações de pesquisa abertas e inclusivas, capazes de garantir que mais pessoas tenham acesso e se beneficiem de seus resultados.

Ben Johnson, editor sênior da Nature Medicine, afirmou que equidade em saúde deve ser encarada como um princípio, um alicerce da ética na medicina. “Não há mais espaço para a ideia de que um mesmo tratamento, ou intervenção, possa ser aplicado em todos os indivíduos, independentemente de suas origens, culturas, diferenças genéticas.” De acordo com Johnson, cada comunidade tem necessidades próprias e enfrenta desafios específicos, e isso deve ser levado em conta nos estudos em saúde.

“Essa tem sido nossa missão, transformar os serviços de saúde, tornando-os mais acessíveis e inclusivos, beneficiando toda a sociedade”, destacou o médico Fernando Bacal, vice-presidente de Pesquisa e Inovação da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein. “Nossas pesquisas buscam soluções amplas para problemas de saúde que afetam toda a população, seja no sistema público ou privado.”

Bacal cita como exemplo pesquisas envolvendo o uso da terapia com células CAR-T no tratamento de tumores. “Recebemos no ano passado a aprovação da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] para iniciar a administração de células CAR-T em humanos. Foi a primeira aprovação desse tipo para uma organização acadêmica e hospitalar no Brasil.”

A ciência de dados pode ser uma ferramenta útil nesse sentido, ajudando a elevar o padrão e aperfeiçoar a qualidade das políticas públicas em saúde. Criado em 2016 em Salvador, Bahia, o Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Cidacs-Fiocruz) tem usado essa estratégia para investigar os impactos de políticas públicas e das desigualdades sociais em diferentes aspectos da saúde da sociedade.

Os estudos feitos pelo centro se baseiam em dados de 100 milhões de brasileiros, registrados no cadastro único para programas sociais e em sistemas de informações em saúde. “A ideia é que os projetos analisem essas informações, gerando conhecimentos úteis à tomada de decisão no campo das políticas sociais, em especial aquelas focadas na redução da pobreza e das desigualdades em saúde”, disse a matemática Juliane Oliveira, pesquisadora em estágio de pós-doutorado no Cidacs-Fiocruz.

Um dos trabalhos desenvolvidos pelo grupo avaliou o impacto do programa Bolsa Família nos índices de mortalidade infantil em diferentes regiões do país. Com base em dados de mais de 6 milhões de crianças, os pesquisadores identificaram uma associação significativa entre a participação no programa social e um menor risco de mortalidade para crianças de 1 a 4 anos de idade, sobretudo aquelas nascidas prematuramente, filhos de mães negras e de áreas de baixíssima renda.

Outro exemplo bem-sucedido é a Rede de Pesquisa Solidária, criada na pandemia e que reuniu mais de 100 pesquisadores de várias áreas do conhecimento — que normalmente não trabalham juntos — para produzir análises integradas de políticas de combate à crise sanitária causada pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2).

“Levantamos informações de diferentes bancos de dados sobre políticas de enfrentamento da pandemia para tentar entender como determinantes sociais e desigualdades regionais influenciam a adesão e a eficácia das estratégias implementadas”, destacou a cientista política Lorena Barberia, do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP), coordenadora da rede.

Um dos trabalhos do grupo mapeou e analisou as medidas adotadas por governos estaduais e municipais para garantir o acesso de crianças e adolescentes à educação.

“Na ausência de uma estratégia nacional para controlar e mitigar a disseminação do coronavírus, prefeitos e governadores tiveram de adotar intervenções não farmacêuticas para reduzir a disseminação”, disse Lorena Barberia, da USP.

Em 2020, 26 governos estaduais determinaram o fechamento de escolas no Brasil, afetando mais de 35,2 milhões de crianças e adolescentes. “A maioria vivia em situações de vulnerabilidade”, destacou Barberia. “Para essas crianças, o fechamento das escolas resultou em um aumento da fome e das deficiências nutricionais, já que a merenda era a única alimentação que elas tinham no dia”, disse a pesquisadora.

Esses e outros resultados das pesquisas do grupo têm sido divulgados em boletins, com recomendações de aprimoramento das políticas vigentes. “Uma preocupação que tínhamos era fazer com que nossos achados circulassem na sociedade, de modo a alcançar gestores e tomadores de decisão, e aumentar o nível de conscientização da população, subsidiando discussões baseadas em evidências”, disse Barberia.

Evento da Nature, realizado em julho no Centro de Ensino e Pesquisa do Einstein, debateu caminhos para garantir que mais pessoas tenham acesso e se beneficiem de pesquisas em saúde

Conciliando conhecimentos

Os esforços para melhorar as condições de saúde dos brasileiros também passam pela conciliação da medicina ocidental com os conhecimentos tradicionais das populações indígenas. Uma iniciativa liderada pelo médico Alceu Karipuna, da Universidade Federal do Amapá (Unifap), tem promovido avanços nesse sentido. Desde 2015, alunos do último ano de medicina participam de oficinas sobre saúde indígena.

Segundo Karipuna, as concepções indígenas de saúde e doença apresentam características específicas, diferentes da medicina ocidental. “A medicina indígena considera a relação com o meio ambiente parte da causa das doenças e de sua cura, de modo que muitas enfermidades são desencadeadas pela má relação com a floresta”, afirmou Karipuna. “Não é possível tratá-las apenas com remédios. A cura depende de uma combinação de estratégias, como o uso de formulações a base de plantas.”

Após passar pelas oficinas, os estudantes vão a campo, em um estágio médico com o grupo indígena Karipuna, na região de Oiapoque, extremo norte do Amapá. Eles realizam atendimentos em saúde, odontológico e de segurança alimentar, e interagem e trocam experiências com pajés, curandeiros e raizeiros sobre cuidados de saúde, a forma como os partos são feitos nas comunidades, a importância das plantas e da espiritualidade no processo de cuidado, entre outros aspectos da medicina indígena.

A dinâmica permite que os estudantes conheçam os processos a que essas populações são submetidas antes de se deslocarem para os hospitais. “É importante que os médicos trabalhem em colaboração com os especialistas indígenas para que a assistência a essas populações seja oferecida dentro de um ambiente de respeito às tradicionais de cada povo”, afirmou o médico.

Equidade de gênero

Os pesquisadores também debateram iniciativas de combate às desigualdades de gênero na ciência e medicina. As mulheres respondem por mais da metade da força de trabalho nas áreas de ciência e saúde no mundo, mas ocupam poucos cargos de liderança em universidades, institutos de pesquisa, sociedades médicas etc.

“No Brasil, pela primeira vez em 70 anos, temos uma mulher à frente do Ministério da Saúde”, afirmou a médica Cristiani Vieira Machado, vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação da Fiocruz, referindo-se à cientista política Nísia Trindade, que também foi a primeira mulher a presidir a Fiocruz.

Para Cristiani Machado, da Fiocruz, questões de gênero precisam ser encaradas como prioridade pelos governos, pois contribuem para o agravamento das desigualdades sociais e de saúde.

Em sua fala, a médica destacou algumas iniciativas do governo para conter esse problema, entre elas o Programa Nacional de Equidade de Gênero, Raça e Valorização das Trabalhadoras no Sistema Único de Saúde (SUS).

Lançado em março, o programa tem como um de seus objetivos estimular a construção de políticas públicas e propostas de trabalho protegido, digno e seguro na área da saúde, considerando as desigualdades de gênero e raça.

A Fiocruz também vem adotando estratégias para mitigar o problema. Em 2019, criou o Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça para consolidar uma agenda institucional de fortalecimento de temas étnico-raciais e de gênero na instituição, com a atualização e reorientação de políticas.

“Também em 2019 lançamos o programa Mulheres e Meninas na Ciência, com projetos de divulgação da trajetória de cientistas do Brasil e exterior, e atividades de divulgação científicas em escolas públicas visando despertar o interesse de estudantes do ensino médio pela ciência e pela carreira acadêmica”, disse Machado.

“A equidade de gênero não é apenas uma questão de justiça e direitos, mas um caminho para melhorar a qualidade das pesquisas, dos tratamentos e do atendimento a pacientes nos serviços de saúde”, concluiu.

Premiação

O evento do dia 26 de julho também foi marcado pela entrega do prêmio “Nature Awards – Inclusive Health Research”, que agracia iniciativas internacionais de colaboração em pesquisa para tornar os cuidados de saúde mais acessíveis.

Portadoras do vírus HIV recebem apoio em uma comunidade de Uganda, na África Oriental | Foto: WHO Uganda

O primeiro lugar foi para o o HEAlth caRe needs of the Deaf (HEARD), aplicativo desenvolvido por um grupo coordenado pela bioquímica Uma Palanisamy, da Universidade Monash na Malásia, que permite que pessoas com deficiência auditiva acessem informações de saúde em língua de sinais.

O projeto Canadian Collaboration for Immigrant and Refugee Health – Power of Sharing Newcomer Stories Program ficou com a segunda colocação. A iniciativa apoia famílias refugiadas recém-chegadas no Canadá, promovendo a inclusão de estudantes dessas famílias em pesquisas sobre as necessidades de refugiados no país.

Outros três projetos dividiram o terceiro lugar:

“A escolha do Centro de Ensino e Pesquisa Albert Einstein como local para a entrega do prêmio sinaliza que o que estamos fazendo está em linha com o que o grupo Springer Nature considera pesquisa inclusiva”, disse Luiz Vicente Rizzo, diretor de Pesquisa do Einstein.

“Nossa missão tem sido a de servir à população brasileira por meio de pesquisas focadas em soluções universais para problemas que afetam todos”, destacou Rizzo.

Exemplo disso, disse ele, são os estudos sobre o uso de técnicas de terapia gênica no tratamento da anemia falciforme, doença genética crônica ainda sem tratamento específico, e o projeto OPTIMAL-AVC, desenvolvido em parceria com o Ministério da Saúde e voltado ao desenvolvimento de estratégias para evitar a reincidência de acidente vascular cerebral (AVC).

O evento foi patrocinado pela farmacêutica Takeda e contou com apoio do Einstein.

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