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03.04.2026 Saúde Mental

Pressão por aparência de confiança alimenta síndrome do impostor no ambiente de trabalho 

Levantamento indica que insegurança profissional tem mais a ver com cultura organizacional do que com competência

Mulher negra, de cabelos presos e óculos de armação arredondada, sentada à mesa de trabalho com expressão pensativa e olhar distante. Apoia a cabeça na mão esquerda e segura uma caneta sobre um caderno aberto. À frente, um notebook aberto. Ao fundo, parede cinza com post-its coloridos, plantas e uma estante. Para 66% dos trabalhadores ouvidos na pesquisa, a pressão para parecer mais confiante ou inteligente do que se é alimenta o chamado "teatro da confiança" no trabalho | Imagem: Unsplash

Mais do que ser, é preciso parecer ser. Essa máxima das artes cênicas ganha novo endereço: o ambiente de trabalho. Ali, a atuação não dá vida a um personagem — ela mascara as inseguranças do trabalhador e move o chamado “teatro da confiança”, em que a incerteza é ocultada para atender expectativas de competência. 

Uma pesquisa conduzida nos Estados Unidos indica que 43% dos trabalhadores americanos sentem sintomas de síndrome do impostor no trabalho, enquanto 66% sentem pressão para parecer mais confiantes ou inteligentes do que realmente são

Os dados são de um levantamento realizado pela MyPerfectResume em dezembro de 2025 com mil adultos americanos empregados em tempo integral. Os participantes responderam a questões de resposta única ou múltipla escolha sobre síndrome do impostor, insegurança, cultura organizacional, comportamento de liderança e confiança na carreira. 

O termo “síndrome de impostor” foi cunhado em 1978 pelas psicólogas Pauline Clance e Suzanne Imes, inicialmente observado em mulheres de alto desempenho. O fenômeno é vivenciado por pessoas capacitadas, mas que se sentem “fraudes” e convivem com o medo de que serão desmascaradas a qualquer momento. 

Pesquisas mais recentes indicam prevalência em ambos os sexos. A síndrome não é reconhecida como transtorno pela Organização Mundial da Saúde (OMS), mas é classificada como traço de personalidade ou resposta comportamental ao ambiente. 

Ambiente, não competência 

Os achados sugerem que a insegurança tem menos a ver com capacidade individual do que com o contexto organizacional. Três em cada quatro trabalhadores apontam pressão ou comparação como principais gatilhos — entre os fatores citados estão expectativas elevadas da liderança, perfeccionismo pessoal e comparação com colegas de alto desempenho. 

“A síndrome do impostor não é falta de capacidade; muitas vezes é uma resposta a ambientes de trabalho que recompensam a certeza e a visibilidade em detrimento da aprendizagem e da honestidade”, diz Jasmine Escalera, especialista de carreira da MyPerfectResume

Para 65% dos respondentes, os gestores raramente ou nunca falam abertamente sobre suas próprias dúvidas ou erros. O silêncio da liderança, segundo os dados, amplifica a percepção de que insegurança é uma falha individual e não uma experiência compartilhada. 

Da empresa à academia 

O levantamento não foi conduzido em ambientes acadêmicos, mas as condições que descreve — pressão por desempenho, comparações constantes, feedback escasso — ressoam em pesquisadores.

Um estudo americano de 2024 com doutorandos, pós-doutorandos e professores de ciências básicas encontrou alta prevalência da síndrome nas três categorias, com os sintomas mais severos entre estudantes de doutorado.

Quem mais sentiu os efeitos eram justamente os que consideravam deixar a academia. 

No Brasil, os estudos sobre o tema ainda se concentram em estudantes de graduação — faltam dados sobre pesquisadores em atividade e sobre a população de trabalhadores em geral. 

O levantamento tem características que merecem atenção: foi conduzido por uma empresa do setor de recolocação profissional, sem revisão por pares, e baseia-se em autorrelato.

A amostra também está enviesada para faixas etárias mais velhas: 25% dos respondentes têm 65 anos ou mais, o que pode não refletir a realidade de profissionais em início de carreira.

Ainda assim, os números ecoam o que a literatura acadêmica já documentou sobre o tema. 

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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