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Wikipédia 25 anos: um reforço à ciência aberta no Brasil
Projetos acadêmicos usam a enciclopédia colaborativa para criar cursos, qualificar conteúdos em português e dialogar com públicos amplos
Instituições de pesquisa brasileiras recorrem à Wikipédia e a outras plataformas do sistema Wikimedia para divulgar ciência, criar cursos e qualificar verbetes em português; iniciativas fortalecem a chamada ciência aberta | Imagem: Julia Jabur/Estúdio Voador (Todos os direitos reservados)
Em um cenário de crescente valorização da transparência e do acesso público ao conhecimento, ganha cada vez mais força no Brasil a chamada ciência aberta, um movimento segundo o qual o conhecimento científico – especialmente aquele gerado com recursos públicos – deve ser produzido de maneira acessível e colaborativa.
Ao mesmo tempo, emerge no debate a noção de soberania digital, ou seja, a capacidade do país de ter autonomia e controle de seus dados e infraestrutura digital diante do avanço de grandes multinacionais de tecnologia, as chamadas big techs.
O desafio é evitar que informações e dados brutos obtidos em estudos científicos circulem apenas em ambientes digitais controlados por interesses comerciais.
Diante disso, universidades e centros de pesquisa no Brasil estão explorando novos campos e unindo esforços a fim de romper com a lógica da produção acadêmica restrita – muitas vezes limitada à publicação de artigos em periódicos fechados e dependente de plataformas digitais operadas pelas big techs.
Wikipédia: Estímulo à ciência aberta
Uma das estratégias tem sido o uso da enciclopédia colaborativa Wikipédia, que completa 25 anos em janeiro 2026, como ferramenta de extensão universitária. Sua estrutura aberta permite aprimorar e divulgar conhecimento validado academicamente, alcançando públicos amplos e diversos.
A Wikimedia Foundation é a organização internacional sem fins lucrativos responsável por projetos de conteúdo livre como a Wikipédia e o Wikimedia Commons.
No Brasil, o Wiki Movimento Brasil atua promovendo localmente a cultura do conhecimento aberto, organizando eventos, cursos e estabelecendo parcerias para incentivar a participação nacional nesses projetos.
“Há um ‘fetichismo’ muito grande com as tecnologias, sobretudo quando se fala em inteligência artificial [IA], como se isso fosse a expressão pura de um conhecimento sem vieses ou mediações, como se não houvesse por trás dela pessoas que estão programando algoritmos com determinados interesses”, afirma Alexander Maximilian Hilsenbeck Filho, responsável pela área de Educação e Difusão Científica da Wikimedia Brasil.
“Esse é um elemento central das disputas contemporâneas sobre o ambiente digital”, sintetiza Hilsenbeck Filho, que também é professo de ciências sociais na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.
A aproximação estratégica entre instituições de pesquisa brasileiras e a Wikipédia visa não apenas preencher lacunas de conteúdo em língua portuguesa na enciclopédia, mas também qualificar o debate público com informações de alta integridade, combatendo a desinformação e o negacionismo científico.
Exemplos concretos
Diversas instituições já colhem os frutos dessa parceria. O Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão em Neuromatemática (Cepid NeuroMat), com sede na Universidade de São Paulo (USP), tornou-se um dos maiores contribuidores de conteúdo acadêmico em matemática na Wikipédia.
Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), o centro editou desde 2013 cerca de 60 mil artigos sobre assuntos de matemática na Wikipédia, que juntos somam mais de 30 milhões de visualizações.
Outro exemplo é o Centro de Estudos da Metrópole (CEM/USP), outro Cepid sediado na USP, que está desenvolvendo cursos e painéis sobre políticas públicas na Wikiversidade, uma wiki para organização de cursos e grupos de estudo. O objetivo da ferramenta é criar um ambiente colaborativo para a troca de conhecimento.
O projeto do CEM conta com cientistas sociais, historiadores e jornalistas, e o grupo já mapeou cerca de 500 artigos problemáticos na área de ciências sociais, todos publicados em português na Wikipédia.
A primeira fase do projeto resultou na edição e correção de aproximadamente 165 artigos e na criação de 51 novos verbetes relacionados às ciências sociais.
Exemplos incluem a inserção de dados estatistísticos recentes sobre desigualdade e mobilidade urbana.
“Artigos antes mais genéricos ganharam densidade acadêmica e podem, inclusive, ser usados como material de apoio em cursos e temáticas relacionadas às ciências sociais e políticas públicas”, comenta Hilsenbeck Filho, da Wikimedia Brasil.
No âmbito da Wikiversidade, o plano do CEM é criar um painel interativo de políticas públicas. A ideia, explica Edney Cielice Dias, cientista político envolvido na iniciativa, é apresentar casos específicos, como a urbanização de favelas, combinando literatura acadêmica com histórias e experiências de gestores e pessoas beneficiadas, além de criar um fórum para quem quiser contribuir com dados e informações sobre o assunto.
“Não se trata de fazer um curso nos moldes top down,em que professores acadêmicos transmite um conhecimento ‘de cima para baixo’ de forma hierárquica”, ressalta Dias. “Ao contrário, queremos usar a Wikiversidade para a construção de um repositório colaborativo, erguido a partir da troca de experiências entre acadêmicos, gestores públicos e sociedade civil.”

Wikiversidade e Wikisource
A professora Alícia Duhá Lose, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), desenvolveu um curso de três meses intitulado “Paleografia na Rede Wiki“, oferecido na Wikiversidade.
“O curso busca dar uma visão geral da história social da cultura escrita, com enfoque especial às escritas cursivas do século XIV ao XIX”, diz a docente.
Na página do curso na Wikiversidade, é possível ter acesso livre a um conjunto de 14 aulas em vídeo, que incluem temas como “estrutura diplomática documental” e “novas tecnologias para antigos saberes.”
Especialista em estudos de manuscritos e história cultural das práticas de escrita, Lose também recorreu ao Wikisource – um acervo digital de livros e textos que estejam em domínio público ou possam ser usados livremente mediante permissão.
A edição em português da Wikisource conta com mais de 38 mil textos históricos, como o conto bem-humorado Médico é remédio(1883), de Machado de Assis (1839-1908), e o Diccionario de Botanica Brasileira, de 1873, dedicado à então província de Pernambuco por um dos autores, o botânico Joaquim de Almeida Pinto (1813-1861).
Transcrições e “editatonas”
A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) também tem apostado no uso de plataformas do sistema Wikimedia, com foco especial na formação de bibliotecários e no uso do Wikisource.
O objetivo da organização é ampliar, de forma colaborativa, o acesso a documentos e fontes primárias de pesquisa.
A Casa de Oswaldo Cruz, uma das unidades da Fiocruz, lançou um curso em parceria com Alícia Lose sobre o uso do Wikisource em acervos documentais, destacando as vantagens da transcrição coletiva, descrita por ela como “muitos olhos, muitas mãos.”
O curso reuniu participantes de Brasil, Portugal, Espanha e Itália, que foram convidados a transcrever colaborativamente documentos históricos.
Um dos focos foi a Revolta dos Malês, rebelião de escravizados africanos ocorrida em Salvador, em 1835. As atividades utilizaram a Transkribus, plataforma baseada em inteligência artificial especializada na transcrição de manuscritos antigos.
Além do curso, a professora Alícia Lose organiza “editatonas” — maratonas colaborativas de edição de verbetes na Wikipédia. Uma das iniciativas tem como foco criar perfis sobre pesquisadores eméritos da UFBA.
Para Hilsenbeck Filho, da Wikimedia Brasil, após a intervenção e estudantes e pesquisadores, verbetes que antes continham apenas um parágrafo superficial passam a ter uma estrutura mais completa, com histórico, bibliografia, imagens e fontes acadêmicas.
Um exemplo emblemático, diz Hilsenbeck Filho, é a criação e edição do verbete sobre o Manto Tupinambá, uma vestimenta sagrada para alguns povos indígenas brasileiros, confeccionado com penas de aves.
“O artigo sobre Manto Tupinambá foi criado ‘do zero’ por pesquisadoras do Laboratório Mulheres Indígenas na Wikipédia, da Universidade Federal Fluminense [UFF], coordenado pela professora Elisa Frühauf Garcia”, informa.
Curso sobre audiologia
Com apoio da FAPESP e do Wiki Movimento Brasil, a Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da USP disponibiliza, na Wikiversidade, um curso aberto de introdução à audiologia básica, voltado para fonoaudiólogos e outros profissionais da saúde.
O curso tem carga de 20 horas, pode ser acessado na plataforma da Wikiversidade, mediante inscrição, e oferece conteúdo básico “sobre os principais exames de avaliação do funcionamento da função auditiva, incluindo o entendimento dos achados em indivíduos com audição normal e com perda auditiva.”
“A Organização Mundial da Saúde [OMS] destaca em seus relatórios que o acesso à informação é central para melhorar a saúde auditiva global”, comenta Adriano Jorge Soares Arrigo, pesquisador que atua no projeto da FOB-USP.
Dependência tecnológica externa
Iniciativas como a campanha “#CiênciaAbertaNaWiki“, realizada no final de 2025, buscam ampliar o acesso ao conhecimento científico em múltiplas linguagens e formatos, promovendo transparência e engajamento social.
Um evento recente sobre o tema, realizado na USP, contou com a presença de representantes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), indicando um crescente interesse de agências públicas nessa agenda.
Embora o acesso à informação tenha se expandido nas últimas décadas, as ferramentas tecnológicas adotadas por universidades e centros de pesquisa – para ofertar cursos ou divulgar informações científicas – ainda estão fortemente atreladas a plataformas comerciais com estruturas opacas.
Essa dependência impõe limites para que o conhecimento acadêmico chegue à sociedade – especialmente aquele conhecimento produzido em instituições públicas, avaliam as fontes ouvidas nesta reportagem.
Em resposta, projetos vinculados ao ecossistema Wikimedia vêm sendo estruturados como alternativas sustentáveis. Além de operarem com código aberto e licenças livres, essas plataformas garantem transparência editorial e permitem ampla participação da sociedade.
Ao adotar ferramentas como Wikipédia, Wikiversidade e Wikisource, diz Rusenbeck Filho, as instituições não apenas podem aumentar a visibilidade de suas pesquisas, “mas também reforçar o compromisso com uma ciência aberta, inclusiva e orientada pelo interesse público, pilares centrais para uma soberania digital efetiva.”
A principal diferença entre plataformas comerciais e a Wikipédia está na filosofia: em vez de produzir conteúdos efêmeros e virais, a Wikipédia busca consolidar um saber duradouro, baseado em fontes confiáveis.
“A enciclopédia e outras plataformas da Wikimedia funcionam como um ponto de partida (muitas vezes despertado por vídeos curtos vistos nas redes sociais) para aprofundamentos com base sólida”, avalia Rusenbeck Filho.
Para Arrigo, da USP, é fundamental que pesquisadores ocupem plataformas comerciais, como as redes sociais, a fim de divulgar seus trabalhos e combater a desinformação. No entanto, ele ressalva, é também preciso refletir sobre o impacto real das plataformas com fins lucrativos e as possíveis implicações de modelos comerciais para a difusão do conhecimento.
“A Wikipédia é mantida por doações e voluntariado — por isso, não compete em recursos com as big techs, mas cumpre um papel estratégico que deve ser valorizado”, destaca Arrigo.
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