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Da bancada à liderança: a virada de chave na carreira científica
Ricardo Weinlich, do Einstein, analisa “gap” na formação acadêmica e explica por que assumir um laboratório exige habilidades de gestão, estratégia e mediação de conflitos
“O sistema acadêmico muitas vezes eleva a figura do pesquisador a um patamar de ego e arrogância, o que prejudica a liderança”, observa o biólogo Ricardo Weinlich, pesquisador do Einstein Hospital Israelita | Imagem: Fábio H. Mendes
A trajetória clássica na ciência — que passa pela iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado — é quase inteiramente voltada para o desenvolvimento de habilidades técnicas e a publicação de artigos de alto impacto.
No entanto, ao assumir a liderança de um grupo, o pesquisador enfrenta uma “virada de chave” abrupta, para a qual o sistema acadêmico oferece pouco ou nenhum preparo formal.
Para o biólogo Ricardo Weinlich, pesquisador sênior do Einstein Hospital Israelita, o cientista líder precisa aprender “na marra” a gerir orçamentos, mediar conflitos e tomar decisões estratégicas.
“Há um gap muito grande na formação de um cientista líder; ele é meio que ‘jogado aos leões’ e precisa dar um jeito de fazer dar certo”, afirmou Weinlich, que coordena grupo de pesquisa voltado ao desenvolvimento de terapias gênicas, usando a técnica de edição genética CRISPR-Cas9, para tratar doenças como anemia falciforme e epidermólise bolhosa.
Weinlich falou sobre liderança de grupos de pesquisa em um encontro virtual organizado pelo Science Arena.
A live fez parte de uma série realizada em 2025 com o objetivo de discutir os rumos da ciência de fronteira e as transformações da carreira científica.
Além de liderança, a série abordou os seguintes temas:
- como a IA impacta a carreira científica;
- transição de carreira da academia para o mercado de trabalho;
- networking científico interdisciplinar;
- estratégias para lidar com o estresse na pós-graduação.
Veja no vídeo a seguir a íntegra da conversa com Ricardo Weinlich:
A seguir, veja os principais tópicos abordados pelo pesquisador:
1. O momento histórico e a “virada de chave”
- A transição do pós-doutorado para a liderança de um laboratório é descrita como um choque de realidade.
- Enquanto a formação anterior é focada em responder perguntas científicas, a nova posição exige subitamente habilidades em gestão de pessoas, projetos e finanças.
- No início, o aprendizado pode ocorrer por tentativa e erro, buscando modelos em gestores próximos ou em conteúdos externos ao ambiente acadêmico.
2. Desafios e pressões da liderança
- O maior desafio pessoal na transição é a insegurança e o peso de ter carreiras e vidas sob sua responsabilidade.
- Diferentemente do pós-doutorado, no qual as consequências de um erro são individuais, as decisões de um líder impactam todo o grupo.
- A posição de liderança pode ser solitária, criando uma barreira de sincronia com a equipe e exigindo que o pesquisador busque apoio em seus pares.
3. Estratégias de gestão e o papel do facilitador
- O papel do líder é atuar como um facilitador, conectando ideias e pessoas para a pesquisa avançar.
- É fundamental entender que o líder não deve (e nem consegue) saber mais que a somatória de toda a sua equipe.
- O processo decisório deve buscar o consenso, ouvindo inclusive os membros menos experientes, que podem trazer perspectivas inovadoras.
4. A importância do fator humano e do equilíbrio
- A ciência é um mercado de trabalho formal e deve ser tratada como profissão, não apenas como “hobby” ou paixão.
- Weinlich admite a dificuldade de gerir o próprio tempo e utiliza sua sobrecarga pessoal como um “contraexemplo” para sua equipe, protegendo-os do estresse excessivo para garantir a produtividade e a saúde mental.
- Equipes de sucesso, afirma Weinlich, valorizam o capital intelectual de todos os membros, em vez de tratá-los apenas como mão de obra executora.
5. Gestão de conflitos e combate ao ego
- O sistema acadêmico muitas vezes eleva a figura do pesquisador a um patamar de ego e arrogância, o que prejudica a liderança, observa Weinlich.
- Um bom líder deve ser coerente: se ele se coloca em uma posição de poder absoluto, a equipe replicará esse comportamento competitivo.
- Conflitos devem ser resolvidos isoladamente, incentivando o diálogo direto entre os envolvidos antes que o problema se espalhe pela equipe, alerta Weinlich.
6. O futuro da formação e mentoria
- O papel do orientador é incompleto se focar apenas na técnica; ele deve se preocupar com a formação de carreira integral do aluno.
- Pesquisadores em início de carreira devem buscar ativamente entender a gestão de recursos e projetos, aproveitando cursos complementares em plataformas digitais, aconselha Weinlich.
7. Visão estratégica na fronteira do conhecimento
- Liderar na fronteira do conhecimento, como na terapia gênica para anemia falciforme e epidermólise bolhosa, exige gerenciar grandes incertezas.
- A gestão estratégica envolve liberar o líder do operacional diário para que ele possa antecipar movimentos da sociedade e garantir o financiamento do grupo a longo prazo, explica Weinlich.
- Ideias disruptivas devem ser priorizadas, mesmo que exijam realocação de recursos financeiros e humanos.
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