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“Trabalho em equipe é primordial para ser cientista”, diz brasileiro premiado por estudo sobre TOC
Médico, Leonardo Saraiva defende integração entre pesquisa e prática clínica e celebra o espírito colaborativo da ciência
“Atuar em grupos de pesquisa é parte importante da minha trajetória. Sou mais produtivo em equipe do que sozinho.”, declara o pesquisador Leonardo Saraiva, ao defender a importância da colaboração científica em projetos de pesquisa sobre transtornos psiquiátricos | Imagem: Shutterstock
Quando Leonardo Cardoso Saraiva, de 30 anos, estava no sexto ano da faculdade de medicina, em 2019, seus colegas se preparavam para prestar a prova de residência e escolher suas especialidades, mas ele pensava em trilhar um caminho diferente.
Desde o ano anterior, entre o internato e os plantões, ele mantinha contato com o psiquiatra Euripedes Constantino Miguel, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), e com a geneticista Carolina Cappi, professora da Rutgers University, para participar de pesquisas sobre transtorno obsessivo-compulsivo, o TOC.
Em 2025, o médico recebeu o prêmio Michael A. Jenike Young Investigator, concedido pela International OCD Foundations (IOCDF), uma das maiores organizações do mundo dedicada ao TOC.
Saraiva foi agraciado por seu estudo em busca das bases biológicas do transtorno. Em sua investigação, o brasileiro usa exames de neuroimagem, como a ressonância magnética, para encontrar formas mais eficazes de diagnosticar o TOC e, quem sabe, outras doenças psiquiátricas.
A pesquisa laureada, Comprehensive structural neuroimaging in OCD: A cross-disorder comparison, busca ir além das análises convencionais de neuroimagem.
Enquanto estudos anteriores focaram em alterações de volume e espessura em regiões cerebrais de pacientes com TOC, Saraiva investiga aspectos ainda pouco conhecidos, como os padrões de dobramento do córtex cerebral, além do formato de estruturas subcorticais. Também explora as bases genéticas associadas a essas possíveis alterações cerebrais.
A pesquisa faz parte de seu trabalho na Universidade Yale, nos Estados Unidos, instituição onde ele é pesquisador de pós-doutorado.
Bases biológicas do TOC e uso de neuroimagem
“Em outras áreas da medicina, há biomarcadores importantes para ajudar a fechar um diagnóstico, mas na psiquiatria você identifica um transtorno por meio de sintomas determinados em consenso por um grupo de especialistas”, explica Saraiva.
“Ninguém sabe quais seriam as bases biológicas dos transtornos, é tudo feito por convenções. Acredito que isso seja uma limitação”, afirma o pesquisador.
Diagnóstico, tecnologia e tratamentos
Em suas pesquisas, Saraiva usa exames de ressonância magnética, pois é o que a maioria dos centros de saúde tem disponível. Dessa forma, o pesquisador consegue ter uma amostra grande para investigar.
No dia a dia, boa parte de sua rotina consiste em trabalhar na frente do computador desvendando os “mistérios” do cérebro de pacientes.
Existem vários métodos que podem ser usados para estudar o cérebro e os transtornos psiquiátricos, diz Saraiva. Seu foco e interesse estão nos métodos que envolve o uso de supercomputadores.

“Meu trabalho consiste em ‘rodar’ análises e códigos em um tipo de cluster, onde ficam vários computadores potentes. Participo de reuniões para mostrar resultados e discutir projetos. É uma rotina muito diferente da imagem que se tem de um médico.”
Aproximação com o público e responsabilidade científica
Desde sua premiação, Saraiva tem se importado cada vez mais com a divulgação de seu trabalho como cientista.
“Me veio à tona que isso deveria ser uma preocupação mais forte entre os pesquisadores e que eu preciso buscar isso constantemente.”
Para ele, a falta de compreensão sobre alguns temas de pesquisa contribui para afastar investimentos em projetos de pesquisa.
“Nós, pesquisadores, podemos ficar muito isolados da população, então nem todos entendem o benefício da ciência e os motivos de a pesquisa necessitar de investimento público e privado”, avalia Saraiva.
Pesquisa como prática médica ampliada
A decisão de seguir carreira como pesquisador foi inicialmente encarada com estranhamento entre seus colegas médicos, observa Saraiva. “No Brasil ainda se tem uma ideia da medicina como uma profissão assistencialista”, analisa.
“A prática assistencial, porém, é só uma das facetas da medicina. Existem várias formas de ajudar pacientes – e fazer pesquisa é uma delas. Por isso, a carreira científica deveria ser mais estimulada no país”, afirma Saraiva.
De acordo com ele, a área científica, no fundo, dialoga muito com o campo assistencial, “afinal são duas esferas de atuação que precisam estar integradas.” Isso porque, ressalta Saraiva, os avanços da ciência devem embasar decisões em consultórios, clínicas e hospitais.
Na faculdade, seu primeiro contato com a pesquisa foi tão marcante que Saraiva decidiu não pleitear uma vaga na residência médica. O intuito, ele recorda, era abrir caminho no mundo acadêmico logo no início da carreira.
Ainda assim, Saraiva fez estágios clínicos, deu plantões e participou de atividades ambulatoriais no Instituto de Psiquiatria. “Foi uma ótima experiência, aprendi muito na parte clínica e levei muito disso para a pesquisa.”
Admiração como ponto de partida
Mesmo não sendo formalmente um psiquiatra, por não ter feito a residência médica na área, o interesse pela pesquisa sobre o TOC começou por conta da admiração de Saraiva pelo psiquiatra Eurípedes Miguel.
“Acho que trabalharia com qualquer transtorno que ele trabalhasse, para ser muito franco”, confessa o médico, que também é membro do projeto Gen_TOC, sediado na USP e liderado por Miguel e pela geneticista Carolina Cappi. O projeto é focado em estudos sobre a genética do TOC e de transtornos relacionados.
“Com o tempo, passei a achar o assunto muito interessante e fascinante”, diz Saraiva, que cursou o doutorado na área e é entusiasta de formações como o MD-PhD, programa de dupla formação voltado para médicos-cientistas, no qual o estudante obtém simultaneamente o título de Médico (MD, Doctor of Medicine) e de Doutor (PhD, Doctor of Philosophy), disponível nos EUA, mas ainda incipiente no Brasil. Esse título permite uma dupla formação para médicos na parte clínica e de pesquisa.
Ciência não é solitária
Sem planos de atuar em consultório, o pesquisador se diz atraído pelo espírito colaborativo proporcionado pelo trabalho em equipe no meio científico. “Atuar em grupos de pesquisa é parte importante da minha trajetória.Sou mais produtivo em equipe do que sozinho”, declara.
“Saber interagir é crucial”, diz Saraiva. “Na ciência, se a pessoa não tem disposição para dialogar e trocar ideias, as chances de ‘sobreviver’ diminuem. É preciso saber trabalhar em grupo.”
Sobre sua premiação recente, ele lista uma série de pessoas de quem recebeu ajuda, como os professores Eurípides Miguel e Carolina Capi, que foram seus orientadores no doutorado, e o professor Christopher Pittenger, que o orienta em Yale.
“Tive sorte de trabalhar com pessoas muito conscientes dessa importância da troca e da união de esforços na ciência”, observa.
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