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22.01.2024 Diversidade

Desigualdades de gênero em conselhos editoriais

Representatividade feminina nos conselhos de revistas médicas da América Latina e Caribe é uma das menores do mundo

Ilustração: Valentina Fraiz/Estúdio Voador

A sub-representação das mulheres em diversos campos do conhecimento é tema de extensa literatura e motivo de preocupação na academia. Afinal, constitui não apenas uma grande desvantagem para a progressão na carreira das mulheres, mas também para os resultados dos próprios periódicos.

Um estudo com foco em revistas de cirurgia, anestesiologia e ginecologia e obstetrícia da América Latina e Caribe, publicado pelo World Journal of Surgery, mostrou que a situação por aqui também é preocupante.

O trabalho, assinado por pesquisadoras de Brasil, Argentina, Estados Unidos, Rússia e Canadá, evidencia que as mulheres compõem apenas 17% dos cargos nos conselhos editoriais de revistas científicas das especialidades analisadas.

Foram avaliados 19 dos 25 periódicos em atividade selecionados no portal Scimago Journal and Country Rank (SJR). Destes, nove eram de cirurgia, três de anestesiologia e sete de ginecologia e obstetrícia, de cinco países: Brasil, Colômbia, Chile, México e Cuba. Foram levantados 1.320 nomes de participantes dos conselhos editoriais nos sites das revistas.

Os membros foram classificados em três grandes categorias: sênior (editores-chefes, cargos especializados, cargos honorários); acadêmicos (cargos no conselho editorial nacional, revisor, cargos no conselho editorial acadêmico internacional) e não acadêmicos (cargos não acadêmicos, administrativos).

As mulheres ficam mais na base da pirâmide. Não foi encontrada nenhuma em cargo honorário.

Elas ocupam 14,3% das funções acadêmicas, 28,9% das funções sênior e 38,4% das não acadêmicas. No subgrupo da categoria sênior, ocupam 31,5% das posições especializadas, como editor-associado e editor-executivo. No cargo de editor-chefe, somaram 25%.

Nas posições acadêmicas, as mulheres desempenharam mais funções de revisoras (31,3%) do que posições editoriais acadêmicas internacionais (10%) ou nacionais (13,8%).

Da mesma forma, as mulheres ocuparam mais cargos não acadêmicos (100%), do que administrativos (20%). O levantamento revelou ainda que as revistas focadas em cirurgia têm uma proporção menor de mulheres (7,7%) em comparação com anestesia (25,5%) e ginecologia e obstetrícia (31,5%).

A proporção de mulheres nos conselhos editoriais aumenta de acordo com o número de médicas nos países analisados. Apenas um conselho editorial das 19 revistas apresentou mais de 50% de mulheres em sua equipe: o da Revista Cubana de Obstetrícia e Ginecologia.

A falta de representação feminina nos conselhos editoriais em outros países também foi alvo de estudos: nos Estados Unidos, 14% dos membros eram mulheres. No Reino Unido, 17,2% (e nenhuma editora-chefe). Outro estudo feito sobre América Latina, abordando outras áreas médicas, chegou à porcentagem de apenas 12,9% de mulheres nos conselhos editoriais.

As autoras atribuem o quadro a fenômenos como o “leaky pipeline”, no qual a proporção de mulheres diminui à medida que o grau de importância e hierarquia do cargo aumenta, e “teto de vidro”, que se refere às barreiras sistêmicas invisíveis que impedem pessoas qualificadas de avançar na hierarquia de uma organização.

Posições em conselhos editoriais proporcionam oportunidades que podem auxiliar na progressão da carreira.

Ao mesmo tempo, a integração de mulheres em conselhos editoriais pode melhorar o desempenho dos periódicos, uma vez que grupos de trabalho socialmente diversos desenvolvem pesquisas e inovações de maior qualidade e, assim, recebem mais citações, mais financiamento e têm uma organização mais eficiente.

“Nossas descobertas destacam a necessidade de estratégias regionais para promover as carreiras femininas nas especialidades de cirurgia, anestesiologia e ginecologia e obstetrícia”, resumem.

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