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22.01.2024 meio ambiente

Riscos sanitários a partir da Amazônia

Desmatamento pode transformar áreas exploradas em desertos e desencadear surtos de novas doenças

Vista aérea de área desmatada ilegalmente na Amazônia | Foto: Shutterstock

A Amazônia, além de ser a maior floresta equatorial úmida do planeta e a mais preservada, é a região da Terra com a maior biodiversidade, tanto em espécies vegetais e animais quanto em quantidades de espécimes por espécie existente.

Essa impressionante biodiversidade, podemos dizer que é a oitava maravilha do mundo. Toda essa diversidade biológica abriga uma infinidade de espécies de vertebrados incluindo mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes – muitas dessas ainda não descritas ou catalogadas, bem como milhares de espécies de insetos habitam a Amazônia, igualmente com muitos sem reconhecimento taxonômico.

Entre os insetos têm papel de destaque os insetos hematófagos, ou seja, aqueles que sugam sangue, e eles podem transmitir agentes infecciosos, principalmente arbovírus (vírus transmitidos por artrópodes) e parasitas.

Portanto, os vertebrados terrestres, especialmente aves e mamíferos, e os insetos hematófagos são importantes fontes de vírus e de outros microrganismos infecciosos como bactérias, fungos e parasitas. 

A Amazônia deve e precisa ser protegida não somente pela beleza natural e imensidão de vida que abriga, mas também para a sustentabilidade do clima e da vida no planeta.

Diversos estudos têm mostrado que o desmatamento pode transformar as áreas exploradas em desertos ou, na melhor hipótese, em cerrados ou savanas. Além disso, também altera o regime de chuvas e, portanto, a vida na região, o que muda drasticamente a vida selvagem.

Devido às alterações ambientais promovidas pelos humanos, muitos animais precisam se movimentar e se adaptar a novos ambientes e a novos hospedeiros e vetores.

Nesse sentido, além dos aspectos climáticos, a devastação de grandes áreas da Amazônia, pelos mais diferentes propósitos (como construção de hidroelétricas e atividades agropecuárias), tem enorme potencial de alterar os equilibrados, mas frágeis e instáveis ecossistemas amazônicos.

Esse status, vivido desde sempre que a Amazônia começou a ser explorada, mas intensamente acelerado nos últimos anos, pode resultar em dois cenários possíveis, dentro da lógica epidemiológica infecciosa:

1. Se os eventos forem desfavoráveis aos vírus e outros microrganismos, esses vão desaparecer, pois é sabido que os vírus e outros micróbios nativos têm uma distribuição focal com ciclos de manutenção bastante restritos, por vezes tendo apenas um hospedeiro primário. Portanto, é de esperar que ocorra uma perda da biodiversidade com extinção de espécies ainda nem identificadas.

2. Se forem favoráveis para os vírus, hospedeiros e vetores, poderá vir a ocorrer a emergência deles e o risco da ocorrência de epidemias é enorme. De fato, isso foi o que ocorreu com todos os principais arbovírus epidêmicos (Chikungunya, dengue, Zika, febre amarela, encefalite japonesa etc.), que se adaptaram a novos hospedeiros (humanos) e vetores (como o mosquito Aedes aegypti e outros insetos hematófagos urbanos ou periurbanos) e, de modo semelhante, iniciar uma epidemia que é difícil de prever o impacto e desfecho para a população.

Casos conhecidos pela ciência

A combinação de alterações ambientais imensas e prolongadas e a exposição continuada de pessoas em áreas próximas (ou dentro) de florestas – permitindo um maior e mais contínuo contato com a vida e o ambiente silvestre – representam um importante risco para a emergência não somente de novos vírus e outros microrganismos patogênicos para humanos, mas, sobretudo, de essas atividades serem responsáveis pela explosão da transmissão viral em epidemias que não se sabe prever o impacto aos habitantes do planeta.

A ciência já conhece alguns casos de emergência de doenças na Amazônia. Vou citar apenas quatro exemplos:

A) A emergência de malária e leishmanioses cutâneas na periferia de Manaus (AM) durante o processo de expansão da cidade;

B) A emergência de epidemias pelo vírus oropouche em área urbanas da Amazônia, principalmente no estado do Pará, devido à ocupação de novos ambientes para estabelecimento de agrovilas, cidades e abertura de estradas. O oropouche se adaptou a um pequeno inseto hematófago, o maruim Culicoides paraensis (também conhecido como mosquito pólvora) causando epidemias em grandes cidades amazônicas como Belém e Manaus, mas também em pequenos aglomerados populacionais;

C) A emergência na Amazônia, e em outras regiões, da hantavirose, doença que cursa com quadros de elevada letalidade da síndrome cardiopulmonar por hantavírus. Esses vírus são transmitidos por roedores silvestres, que têm emergido em áreas com intensa plantação de soja, milho e outros grãos e em áreas recém urbanizadas, geralmente fazendas que foram loteadas para construção de novos bairros na periferia das cidades e que têm grande proximidade com as florestas;

D) A emergência de mais de 40 tipos diferentes de novos arbovírus isolados durante o enchimento do lago reservatório de Tucuruí e aumento da ocorrência de arboviroses na região.

Vírus desconhecido ou reemergente

Hoje a ciência sabe que o risco associado à devastação de grandes áreas de floresta na Amazônia pode resultar não somente na emergência de vírus e outros agentes infecciosos, mas principalmente da ocorrência de uma nova epidemia ou pandemia – seja por um vírus emergente desconhecido, seja por um já conhecido e que se torne reemergente.

Esses riscos são enormes e as proporções podem ser devastadoras para a humanidade, os animais domésticos e os de produção. Isso já é consenso entre os cientistas.

Urge, portanto, ações que visem preservar a Amazônia, e financiar mais estudos para avaliar o impacto em um cenário de pandemia.

Finalmente, é preciso que as pessoas acreditem nos resultados dos estudos científicos e nos cenários possíveis com base na ciência, pois sabemos que as agressões à Amazônia e a outros ecossistemas florestais vão continuar. Seria ingênuo pensar que vão ser interrompidos.

É seguro também afirmar que muitas epidemias emergiram devido a alterações ecológicas e de ecossistemas florestais. Devemos, portanto, priorizar estudos de predição e de que epidemias ou pandemias ocorrerão cada vez com maior frequência, originando-se a partir dos ecossistemas naturais que sofreram intensas agressões.

Isso leva a um salto evolutivo com adaptações para a urbanização e a capacidade de causar doenças e mortes – o vírus Sars-CoV-2, causador da Covid-19, está aí para comprovar essa hipótese.

A Amazônia pode ser a fonte desse caos se políticas públicas visando a preservação da floresta e a produção de estudos voltados para a imediata detecção de epidemias e avaliação dos seus impactos não forem prontamente adotadas.

Pedro Fernando da Costa Vasconcelos é médico virologista, professor do Departamento de Patologia da Universidade do Estado do Pará (Uepa), pesquisador do Instituto Evandro Chagas, no Pará, e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Os artigos opinativos não refletem necessariamente a visão do Science Arena e do Einstein.

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