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25.02.2026 Formação

Carreira de médico-cientista ainda enfrenta barreiras no Brasil

Médica da Fiocruz discute os obstáculos da carreira dupla, a ausência de financiamento contínuo e o papel estratégico da pesquisa no SUS

Beatriz Barreto-Duarte, mulher jovem de cabelos cacheados longos e óculos de armação preta, sorri para a câmera vestindo jaleco branco com logo do IPCT em laboratório com equipamentos ao fundo "No Brasil, a assistência consome quase todo o horário do médico, e a pesquisa acaba sendo feita no 'segundo turno", avalia a médica Beatriz Barreto-Duarte, da Fiocruz | Imagem: Arquivo Pessoal

“A gente precisa entender que investir na carreira do médico-cientista não é um gasto — é uma estratégia de desenvolvimento.” A avaliação é da médica e pesquisadora Beatriz Barreto-Duarte, do Laboratório de Pesquisa Clínica e Translacional da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) na Bahia.

Doutora em clínica médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Duarte tem conduzido a carreira aliando prática médica e pesquisa científica — uma escolha nada trivial, especialmente entre os profissionais mais jovens.

Em países de baixa e média renda, o desafio de seguir uma trajetória dupla é ainda maior. É o que indica um estudo publicado em 2025 na revista PLOS Global Public Health, assinado por Duarte e outros autores de Brasil e África do Sul.

O artigo sugere que, embora médicos-cientistas — profissionais que combinam prática clínica com pesquisa — sejam essenciais para traduzir evidências científicas em melhorias no atendimento aos pacientes, o percurso para se tornar um médico-cientista em países de baixa e média renda é extremamente difícil.

Entre os obstáculos, estão treinamento longo e árduo; currículos médicos que não enfatizam pesquisa nem medicina baseada em evidências e incentivos financeiros frágeis.

Além disso, de acordo com o estudo, há sub-representação significativa de mulheres, que enfrentam desafios como equilibrar carreira e maternidade e falta de políticas de apoio.

Nesse sentido, a figura do profissional capaz de integrar raciocínio clínico à investigação científica é particularmente rara nos contextos em que poderia gerar maior impacto.

“Médicos-cientistas desempenham papel estratégico ao transformar observações do cotidiano clínico em perguntas de pesquisa capazes de orientar políticas públicas mais efetivas”, afirma Duarte, que também é líder do Instituto de Pesquisa em Populações Prioritárias (IRPP), grupo associado ao Instituto MONSTER, na Bahia.

Ao longo da carreira, a médica acumulou reconhecimentos como o título de investigadora júnior pelo Regional Prospective Observational Research for Tuberculosis (RePORT) International, menção honrosa do Prêmio Carolina Bori – Mulheres e Ciência (categoria Meninas na Ciência) e bolsa de pesquisa do Civilian Research and Development Foundation Global (CRDF), nos Estados Unidos.

Para Duarte, investir na formação de médicos-cientistas significa investir em resultados concretos: impacto mensurável, inovação sustentável e um sistema de saúde mais inteligente e responsivo. “Quando mostramos, na prática, o que a ciência pode fazer, ninguém mais duvida do seu valor”, afirma.

Em entrevista ao Science Arena, a médica e pesquisadora discute os entraves estruturais da carreira dupla, o papel das evidências na formulação de políticas públicas na saúde e a importância de fortalecer redes de pesquisa mais justas, colaborativas e sustentáveis.

Science Arena – Quais foram os principais desafios pessoais e institucionais para equilibrar a prática clínica com a pesquisa?

Beatriz Barreto-Duarte – O maior desafio é a falta de tempo protegido. No Brasil, a assistência consome quase todo o horário do médico, e a pesquisa acaba sendo feita “no segundo turno”, à noite ou nos finais de semana.

Isso gera exaustão e limita a continuidade na carreira científica. Além disso, há pouca infraestrutura e quase nenhum incentivo institucional.

Ainda tratamos o médico-pesquisador como exceção, não como parte essencial do sistema de saúde.

Seu artigo afirma que o sistema ainda privilegia a “eminência” em vez da “evidência”. Como isso se manifesta no dia a dia?

A medicina ainda é muito guiada por hierarquias e tradições, e isso se reflete tanto na assistência quanto na pesquisa. Muitas vezes, decisões clínicas e até políticas de saúde são tomadas com base no prestígio, na senioridade ou na opinião de quem “tem nome”, em vez de se apoiarem nas melhores evidências científicas disponíveis.

Essa cultura faz com que práticas desatualizadas persistam simplesmente porque “sempre foi assim”, e cria um ambiente em que questionar é visto como afronta.

O jovem médico ou pesquisador, especialmente quando é mulher, muitas vezes precisa de coragem para propor novas abordagens, mesmo quando elas estão respaldadas pela ciência. Essa valorização da autoridade em detrimento dos dados é um dos maiores obstáculos para o desenvolvimento da medicina baseada em evidências, pois impede que a ciência avance dentro do sistema de saúde, e afasta profissionais que poderiam contribuir com inovação.

Acredito que autoridade e experiência são extremamente valiosas, mas elas precisam caminhar junto com a atualização constante e o compromisso com a evidência.

A verdadeira liderança em ciência e em medicina não deveria ser sobre quem fala mais alto, mas sobre quem busca as melhores respostas para cuidar melhor das pessoas.

No Brasil, ainda é difícil ter apoio financeiro contínuo para a pesquisa clínica. Que tipo de política pública ou investimento seria necessário para mudar esse cenário?

O médico-cientista precisa de carreira formal, tempo protegido e financiamento contínuo, como já ocorre em outros países. Hoje, dependemos de editais curtos e incertos.

Ciência de qualidade exige constância. É preciso reconhecer o médico-cientista como figura estratégica, com bolsas de transição e integração real entre universidades, hospitais e o Sistema Único de Saúde (SUS).

Durante sua pesquisa, você observou experiências de países que conseguiram fortalecer a carreira de médico-cientista. Que exemplos merecem destaque?

Nos Estados Unidos, os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) estruturam programas MD-PhD há décadas, garantindo formação científica desde a graduação, tempo protegido e financiamento contínuo.

No Reino Unido, o Instituto Nacional para Pesquisa em Saúde (NIHR) financia médicos em diferentes estágios de carreira dentro do próprio sistema de saúde, mantendo a produção científica próxima das necessidades do paciente.

Em países de baixa e média renda também há modelos interessantes que mostram que é possível avançar mesmo em contextos de escassez. O Consortium for Advanced Research Training in Africa (CARTA), por exemplo, é uma rede que apoia jovens cientistas africanos com treinamento, mentoria e suporte institucional para transformar universidades locais em polos de pesquisa sustentável.

Na América Latina, iniciativas como a Latin American Network for Education in Health Research (LANEHR) vêm tentando aproximar pesquisa e prática clínica, com foco na formação de lideranças regionais.

Há algo desses modelos que poderia ser adaptado à realidade brasileira, especialmente no SUS e nas universidades públicas?

Sem dúvida. Na verdade, essa é uma das reflexões mais urgentes.A gente precisa entender que investir na carreira do médico-cientista não é um gasto — é uma estratégia de desenvolvimento.

Quando o país cria estrutura, estabilidade e incentivo para que médicos permaneçam produzindo ciência dentro do sistema público, isso se torna custo-efetivo a médio e longo prazo.

Costumo fazer uma analogia com o esporte: o Brasil só começou a ter resultados olímpicos expressivos quando passou a oferecer salário, infraestrutura e rotina de treinamento estável aos atletas. Talvez seja hora de pensarmos em algo semelhante para a ciência.

O médico-cientista é quem transforma dados em impacto real, melhora diagnósticos, reduz custos e orienta políticas públicas. Precisamos mostrar esses resultados de forma clara e mensurável.

O que a motiva a continuar pesquisando, apesar das dificuldades?

É o propósito, a certeza de que a ciência pode transformar vidas. Continuo pesquisando porque acredito que cada estudo, cada projeto e cada nova evidência podem gerar impacto real: de melhorar o cuidado, reduzir desigualdades e dar visibilidade a quem há muito tempo não é ouvido.

Além disso, promover igualdade de gênero na ciência também é central. As mulheres ainda enfrentam barreiras invisíveis, desde a falta de representação até a dificuldade de equilibrar múltiplos papéis.

Quero que as jovens cientistas vejam que é possível ocupar espaços de liderança e produzir ciência de alto nível permanecendo fiéis a seus valores.

Science Arena – O que é preciso para se tornar médico-cientista em um país de baixa e média renda?

É preciso ter propósito claro, persistência e capacidade de transformar problemas da prática clínica em perguntas de pesquisa. Também é essencial construir uma boa rede de colaboração para superar limitações estruturais, como falta de tempo protegido e de financiamento.

Criatividade e compromisso social fazem parte do caminho. E, acima de tudo, achar um bom mentor e um exemplo a ser seguido torna a jornada muito mais simples e possível.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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